Cinco continuações desnecessárias


Uma grande parcela dos apreciadores do cinema não gosta de remakes. Eu me incluo nessa parcela. Salvo raras exceções, os remakes dificilmente recapturam a magia, a fascinação e a novidade do filme original. Pior do que remake, no entanto, é continuação de filme feita muitos anos depois. Ainda mais quando o primeiro filme é daqueles emblemáticos, sucesso absoluto e já faz parte do imaginário coletivo do público. Cinco dessas fatídicas continuações me intrigam por alguns motivos: foram feitas muitos anos depois dos originais; a maioria com elenco diferente do primeiro filme; são totalmente inferiores aos originais e, para piorar ainda mais, os originais são, por si sós, filmes marcantes e de enorme sucesso. Por isso, se é para fazer continuações inferiores, por que fazê-las? As ditas-cujas, por ordem cronológica, são:


Veja o que Aconteceu ao Bebê de Rosemary 
(Look What's Happened to Rosemary's Baby, 1976)

Dirigido por Sam O'Steen, editor do original O Bebê de Rosemay (Rosemary’s Baby, 1968), de Roman Polanski, este telefilme não causou impacto. Pudera: a sequência é totalmente dispensável e só faz empobrecer toda a aura de mistério e terror do filme original, ao tentar mostrar a vida adulta do famigerado e temido bebê de Rosemary. Nem o elenco, que inclui quatro ganhadores do Oscar (Ruth Gordon, Patty Duke, Broderick Crawford e Ray Milland) salva a história pífia. Ruth Gordon, aliás, é a única que fez parte do primeiro filme. Rosemary, aqui, é vivida por Patty Duke (famosa por O Milagre de Anne Sullivan e O Vale das Bonecas). Seu bebê, já adulto, é interpretado por Stephen McHattie, com vasto currículo em filmes para TV e seriados. Tina Louise, outra figurinha fácil dos telefilmes americanos, faz o papel da protetora do filho de Rosemary. Com vinte e tantos anos, ele se tornou nada mais que um jovem rebelde e perdido, com medíocres aspirações de se tornar um roqueiro. Resta saber quem vencerá a eterna batalha: as forças do bem ou as satânicas forças do mal? O final do filme é ridículo.





A História de Oliver
(Oliver's Story, 1978)

Nesta sequência de Love Story - Uma História de Amor (Love Story, 1970), o sofrido Oliver é pressionado pelos parentes a tocar sua vida e assumir os negócios da família. Conhece Marcie (Candice Bergen), uma bela e independente herdeira, e começam a namorar. Mas as lembranças de Jennie, sua esposa falecida, o atormentam o tempo todo. O primeiro filme fez enorme sucesso e é, com certeza, um dos mais lacrimejantes de todos os tempos. Recapitulando: em Love Story, Oliver (Ryan O'Neal), um jovem estudante de Direito, de família muito rica, se apaixona por Jennifer (Ali MacGraw), uma estudante de música, de família humilde. Acabam se casando. Mas o pai do rapaz não aceita Jennifer, por ela ser de origem humilde, e deserda o filho. Algum tempo depois, a moça tenta engravidar e não consegue. Exames revelam que ela está com leucemia. Trágico final. Novela mexicana perde. Já neste segundo filme, Oliver se mostra um chato, o tempo todo angustiado e atormentado pela perda de Jennie. Cenas cansativas das conversas de Oliver com o analista e de Oliver caminhando solitário e sofrendo enchem A História de Oliver. E a fala mais famosa do primeiro filme é justamente de Oliver: "Amar é nunca ter que pedir perdão". Mas ele bem que podia pedir perdão por essa soporífera continuação. Do elenco do primeiro filme, somente Ryan O'Neal e Ray Milland (pai de Oliver) fazem parte desta sequência. Dirigido por John Korty.





Grease 2
(Grease 2, 1982)

Produzido por Allan Carr e Robert Stigwood (os mesmos do primeiro filme), mas dirigido e coreografado pela estreante Patricia Birch, esta continuação narra novas peripécias juvenis de outros estudantes do Colégio Rydell, no começo da década de 1960. Mas dado o enorme sucesso do primeiro filme (tanto de crítica quanto de bilheteria), catapultado pelo casal protagonista e pela trilha sonora inesquecível, este segundo é totalmente dispensável. Estrelado por Michelle Pfeiffer e Maxwell Caulfield nos respectivos papéis de Sandy e Danny, Grease 2 não trouxe uma trilha sonora marcante, e o casal de protagonistas, imortalizados por John Travolta e Olivia Newton-John em Grease - Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978), nem de longe têm o mesmo carisma aqui. Ao contrário de Pfeiffer, a carreira de Caulfield após Grease 2 foi prejudicada pelo fracasso do filme. Ele chegou a dizer, anos depois: "Antes do lançamento de Grease 2, eu estava sendo considerado o próximo Richard Gere ou John Travolta. Mas quando o filme afundou, ninguém mais quis saber de mim. Foi como um balde água fria na minha cara. Levei dez anos para superar Grease 2." Por outro lado, apesar da desanimante estreia do filme, a ascensão meteórica de Michelle Pfeiffer começou no ano seguinte, quando ela viveu a esposa de Al Pacino em Scarface (1983). Alguns poucos personagens secundários do primeiro longa reaparecem neste segundo (Frenchy, treinador Calhoun, diretora McGee e vice-diretora Blanche), sem grande destaque.





Golpe de Mestre 2
(The Sting II, 1983)

Paul Newman e Robert Redford, que viveram os golpistas Henry Gondorff e Johnny Hooker no primeiro filme, Golpe de Mestre (The Sting, 1973), não participaram desta sequência (para sorte deles). Jackie Gleason e Mac Davis interpretaram os personagens equivalentes do filme original. Apesar dos nomes similares — Fargo Gondorff e Jake Hooker — eles não são exatamente os mesmos personagens do primeiro filme. Difícil esperar sucesso quando os protagonistas do original tornaram seus personagens tão marcantes. Jackie Gleason e Mac Davis certamente não têm o carisma excepcional (e a beleza física) de Newman e Redford. Havia até planos para uma terceira (!) continuação, enterrada antes mesmo de ser iniciada, após o retumbante fracasso da parte dois. Dirigido por Jeremy Kagan.





Os Pássaros 2 - O Ataque Final 
(The Birds II: Land's End, 1994)

Difícil acreditar que teriam coragem de fazer um telefilme ordinário como continuação do clássico Os Pássaros (The Birds, 1963), de Alfred Hitchcock, trinta anos depois. A direção, nesta sofrível continuação, foi de Rick Rosenthal (sob o nome de Alan Smithee, o pseudônimo usado quando um diretor decide renegar sua participação em um projeto). Esta "sequência" mais parece o esboço mal feito de um remake. Difícil associar esse filmeco ao elegante e assustador filme de Hitchcock. Tippi Hedren foi a única integrante do elenco original que voltou para esta suposta continuação. Mesmo assim, ela não revive sua personagem do primeiro filme, Melanie Daniels, e sim uma outra, chamada Helen. Hedren se arrepende até hoje de sua embaraçosa participação em Os Pássaros 2. Em uma entrevista de 2002, ela disse que o filme é "Absolutamente horrível. Me constrange terrivelmente."