Um Grito de Terror (Scream, Pretty Peggy, 1973)


Telefilmesquecidos #2

"Um Grito de Terror"
Peggy (Sian Barbara Allen) é uma ajuizada estudante universitária e aspirante a artista plástica. Divide apartamento com mais quatro amigas e tem que se virar para conciliar os estudos com as despesas. Sua chance de conseguir uns trocados surge quando ela se candidata a uma vaga como cuidadora de uma mansão afastada. É lá que moram Mrs. Elliott (Bette Davis) e Jeffrey (Ted Bessell), seu filho, um talentoso escultor. A velha Elliott, sempre com cara de poucos amigos, não esconde seu incômodo com a presença de Peggy. O anúncio de emprego foi, na verdade, colocado por Jeffrey, contra a vontade da mãe. A governanta anterior havia sumido misteriosamente sem deixar rastros. Mas sabemos, como é mostrado no comecinho do filme, que ela foi morta. Tudo que Peggy precisa fazer é manter a casa arrumada, por alto. Nem precisa cozinhar. Moleza.



Mas mãe e filho têm um comportamento um tanto quanto excêntrico. Ambos são reclusos. A velha é alcoólatra e bebe escondido. O filho, apesar de simpático, é meio tenso e passa o tempo todo trabalhando em suas esculturas. Mencionam sempre Jennifer, a filha que foi embora de casa há alguns anos para ir morar na Europa. Mas não gostam de entrar em detalhes. Em frente à casa, há uma garagem, sobre a qual existe uma edícula. Embora sempre solícita e gentil, Peggy está terminantemente proibida de limpar ou se aproximar do misterioso quarto sobre a garagem.


A jovem começa a suspeitar quando George Thornton (Charles Drake) passa a segui-la, fazendo perguntas sobre sua filha, que havia ocupado a função de Peggy, mas sumira sem dar explicações. Mais estranho ainda: Peggy descobre que a irmã de Jeffrey, a tal Jennifer que estava supostamente na Europa, na verdade é mentalmente doente e vive na edícula acima da garagem. Desconsiderando os avisos de Mrs. Elliot e seu filho, Peggy está determinada a se aproximar da tal moça. Mas vai acabar se deparando com uma tenebrosa revelação.



Gordon Hessler, além de prolífico diretor de filmes para a TV e episódios de séries, era também um tarimbado diretor de longas de mistério e terror como O Ataúde do Morto-Vivo (The Oblong Box, 1969), Grite, Grite Outra Vez (Scream and Scream Again, 1970), Os Crimes Hediondos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1971) e O Testamento de Medusa (Medusa, 1973), entre outros.



Um Grito de Terror foi ao ar pela NBC (National Broadcasting Company) em 24 de novembro de 1973. Aqui no Brasil, foi bastante reprisado nos anos 1970. Trata-se de um modesto telefilme, com uma história costurada por vários clichês de mistério e terror típicos de sua época. Mas vale pela participação de Bette Davis, cujo papel, apesar de pequeno e meio apático, confere certo clima ao filme.

Logomarca da NBC, na época
Foi um dos primeiros da safra de telefilmes que Bette faria ao longo da década de 1970, período em que sua carreira no cinema estava em baixa. "Em última análise, um bom filme não pode ser prejudicado e nem um filme ruim pode ser favorecido só pelo tamanho da tela", observou a atriz em seu livro This 'n That - An Autobiography (1987), escrito com a ajuda de Michael Herskowitz. "Em 1973, participei de um filme chamado Scream, Pretty Peggy. O filme tinha, de fato, uma Peggy, mas nenhum grito [scream] — exceto pelos meus próprios gritos silenciosos."





Férias Mortais (Home for the Holidays, 1972)


Telefilmesquecidos #1

"Férias Mortais"
Véspera de Natal. Em meio à chuva incessante, relâmpagos, raios e trovoadas cortam o céu. Benjamin Morgan (Walter Brennan), o patriarca de uma família, decide reunir suas quatro filhas, afastadas há muito tempo, em sua idílica mansão. Alex (Eleanor Parker), Joanna (Jill Haworth), Frederica (Jessica Walter) e a caçula Christine (Sally Field) reencontram-se na casa do pai, ainda que a contragosto, para aquele fatídico Natal. 

O convite, na verdade, é uma tentativa de Benjamin de reaproximar-se de sua família e reparar os erros do passado. Mas as irmãs não se mostram muito entusiasmadas com a ideia. O motivo? Elas culpam o pai pelo suicídio da mãe. Antigos dramas e ressentimentos virão à tona, claro.



Mas o pai está morrendo. A filha mais velha, Alex, encontrou um bilhete no qual o velho alega estar sendo envenenado por sua atual esposa, Elizabeth (Julie Harris). A notícia cai como uma bomba entre as irmãs. Por isso o pai instrui as filhas a “se livrarem” de Elizabeth (cujo primeiro marido morrera envenenado). Tem início o mistério. Assim que as irmãs começam a tentar processar as desconcertantes informações, um assassino usando capa de chuva e empunhando um ancinho começa a aterrorizar a mansão e a fazer vítimas.


Esta foi mais uma produção de Aaron Spelling e Leonard Goldberg para o popular Movie of the Week, da rede ABC (American Broadcasting Company). De 1969 a 1975, a emissora exibia semanalmente um filme feito exclusivamente para o canal, em geral com duração entre 70 e 80 minutos. Férias Mortais foi ao ar em 28 de novembro de 1972, dirigido por John Llewellyn Moxey, guru dos telefilmes de suspense e terror. O roteiro é de Joseph Stefano (famoso por ter roteirizado também Psicose). Moxey construiu uma prolífica carreira de diretor de thrillers para a TV. Aqui no Brasil, o filme foi muito reprisado nas madrugadas da Globo e, depois, em outros canais.


A década de 1970 foi o período de ouro dos filmes feitos para a TV nos EUA. O fenômeno, encabeçado justamente pelo Movie of the Week da ABC, rendeu clássicos cujo sucesso foi além das telas de televisão. Vários se tornaram mundialmente famosos como Encurralado (Duel, 1971), de Steven Spielberg, Glória e Derrota (Brian's Song, 1971), de Buzz Kulik, Criaturas da Noite (Don’t Be Afraid of the Dark, 1973) de John Newland, e Trilogia de Terror (Trilogy of Terror, 1975), de Dan Curtis, só para citar alguns.



Férias Mortais tem o tipo de gancho que prende o telespectador logo no começo. Obviamente o público sabe que o assassino está ali, mas fica esperando a reviravolta que irá revelá-lo. No entanto, nem só de clichês o filme é feito. A atmosfera é interessante e convidativa, apesar do ritmo um pouco mais lento — típico dos telefilmes da época — além de ser uma espécie de “slasher” (muito antes de o gênero se popularizar) em versão light. O elenco de prestígio garante atuações convincentes. Outro diferencial é que, apesar de ser Natal, não há neve e sim chuva. Devido às limitações de tempo na agenda de gravações e ao orçamento modesto, tornou-se inviável recriar neve. A escolha menos difícil para aumentar o clima de mistério foi a chuva, efeito obtido com a ajuda de uma mangueira de incêndio (por isso o céu aparece claro em algumas cenas externas, mesmo em meio à “chuva” constante).


Não confundir com a comédia de nome Home for the Holidays (no Brasil, Feriados em Família), de 1995 e dirigida por Jodie Foster.

O destino em suas mãos


“Ah, eu não devia ter me desfeito da minha coleção de... (complete aqui com o que você desejar)”. Pois é, este post é dedicado a essa sensação de ter curtido muito uma coisa por algum tempo e, depois de perder o interesse, se desfazer da tal coisa. Seja uma coleção de discos, de livros, revistas, postais, filmes etc. Sinto isso em relação à minha pequena coleção da Destino. Lá pelos menos 12 anos, cismei com assuntos esotéricos quando descobri a Destino na banca de revistas. Passei a comprá-la mensalmente, sempre com grande empolgação. Isso durou uns dois anos, mais ou menos.



Ficava fascinado com algumas matérias. Brincava de runas, de I Ching, de fazer cálculos numerológicos, de decifrar significados ocultos de nomes e coisas assim. Até um altar para atrair gnomos cheguei a fazer no quintal de casa! E jurava que os elementais iam visitar meu humilde altar. Isso foi em 1991. Ah, a infância pré-internet… (Sim, sou dos que considera 12 anos infância, apesar de a meninada de 12 anos hoje em dia ter interesses bem mais ‘adultos’).

Uma das edições, em especial, eu carregava pra cima e pra baixo. Era a que trazia uma matéria sobre reencarnação e vidas passadas. Fiz os tais cálculos que a revista ensinava e descobri que eu havia sido uma lavadeira no Irã, lá pelo século 5 d.C. (então ainda era Pérsia). Ou seja: provavelmente eu lavava tapetes persas em uma de minhas vida passadas.

A "famosa" edição da qual eu não me desgrudava, sobre reencarnação

Lançada pela editora Globo em 1989, a Destino era voltada para assuntos místicos e esotéricos. Era uma espécie de meio-termo entre a Planeta (da editora Três), mais profunda e apurada, e outras mais popularescas como as editadas pelo astrólogo João Bidu. A Destino trazia tanto os horóscopos e previsões mensais quanto matérias sobre assuntos como religião, magia, ocultismo e ufologia, entre outros afins. Na verdade, a revista acompanhou a onda esotérica que ganhou força no final da década de 1980 e começo da de 1990. E as matérias da Destino abordavam justamente isso: gnomos e elementais, numerologia, tarô, terapias alternativas, cristais, feng shui, bruxas e magos, quiromancia, mistérios universais e coisas do gênero, além de entrevistas com artistas ou pessoas ligadas ao esoterismo, dicas de livros, filmes etc.



A revista também lançava, frequentemente, edições especiais, separadamente, sobre temas específicos. O comercial da revista, na rede Globo, nos anos 1990, era narrado por Zora Yonara, conhecida astróloga brasileira que havia se popularizado na TV na década de 1980. Destino circulou até 1997, quando deixou de ser publicada. 

Edições especiais


Comercial de TV da Destino
Infelizmente, por um desses rompantes de desapego que temos de vez em quando, acabei me desfazendo da coleção, logo depois de passar no vestibular. Julguei que não me interessaria mais por nada daquilo e joguei tudo fora. Eu devia ter umas 20 revistas Destino. Creio que me influenciei pelo advento da internet, quando tudo passou a ficar ao alcance de um clique do mouse, e não vi sentido em guardar as revistas. Fui precipitado. As matérias da Destino podiam não ser muito profundas, mas serviam para divulgar temas, práticas, livros e escritores sobre os quais dificilmente se ouvia falar em outras revistas. Era bem escrita e despertava o interesse por temas nos quais quem quisesse, depois, poderia se aprofundar. Saudade da época em que eu, ao folhear as páginas da Destino, imaginava ter “o destino em minhas mãos”.


3 filmes sobre Aids pouco lembrados


Hoje em dia, filmes que abordam o ainda delicado tema da Aids são muito bem recebidos pelo público e aclamados pela crítica. Philadelphia (1993), de Jonathan Demme, e o recente The Normal Heart (2014), de Ryan Murphy, feito para a TV, são dois exemplos. Por mais que seja um tema menos tabu atualmente, houve uma época (não faz tanto tempo assim) em que a mídia procurava esquivar-se do assunto.


Alguns filmes, no entanto, foram ousados por terem sido os primeiros a abordar a questão diretamente. Até fins da década de 1980, por exemplo, o tema era evitado tanto pelas grandes emissoras de TV quanto pelo cinema. Como hoje é dia 1º de dezembro — Dia Mundial de Combate à Aids — separei três filmes muito bons sobre o assunto. Não são tão conhecidos quanto os dois que citei mais acima, mas são ótimas dicas para quem se interessa em ver o tema abordado com sensibilidade (e sem sensacionalismo) pelo cinema.


Aids: Aconteceu Comigo
(An Early Frost, 1985)
Direção: John Erman
Com: Gena Rowlands, Ben Gazzara, Aidan Quinn, Sylvia Sidney 



Ao descobrir-se portador do vírus HIV, Michael (Aidan Quinn), um jovem advogado, vê-se obrigado a revelar para a família que está infectado, que sua morte precoce é inevitável e, de quebra, que é homossexual. Fragilizado e assustado, Michael precisa de apoio, amor e compreensão de seus pais. Mas a noticia caiu como uma bomba na família e leva a vários conflitos. Extremamente bem produzido, foi o primeiro filme a retratar o tema da Aids. Na época, pouco se sabia sobre a doença e ainda não havia tratamento adequado. Feito para a TV americana, o longa foi ao ar no canal NBC em 11 de novembro de 1985. Gena Rowlands e Ben Gazzara estão impecáveis nos respectivos papéis de mãe e pai de Michael. Aidan Quinn está igualmente ótimo. Mesmo com toda a insegurança e o temor, o telefilme conseguiu passar uma mensagem de coragem em meio às incertezas e ao desconhecimento vigentes na época. A abordagem é bastante tocante, sem cair no dramalhão em momento algum (o que seria de se esperar de um telefilme típico). O título original em inglês, An Early Frost (que pode ser traduzido como "uma geada que vem mais cedo", ou "que chega antes da hora") é de uma das falas do filme, dita pela personagem avó de Michael. Ao olhar o canteiro de rosas no jardim da família, ela ressalta como as flores estão bonitas e espera que uma geada prematura ("early frost") não as mate antes da hora. Ao mesmo tempo, a família tem que lidar com outra geada prematura: a doença de Michael e a revelação de sua homossexualidade. O produtor Perry Lafferty revelou que a NBC deixou de faturar 500 mil dólares com publicidade, pois os anunciantes não queriam seus comerciais exibidos durante os intervalos do filme. Mesmo assim, An Early Frost ganhou quatro prêmios Emmy.


Meu Querido Companheiro
(Longtime Companion, 1990)
Direção: Norman René
Com: Stephen Caffrey, Patrick Cassidy, Brian Cousins, Mary-Louise Parker, Dermot Mulroney



Em 1981, 335 americanos morreram contaminados por uma doença então identificada como uma espécie de câncer que só atingia os homossexuais. O filme mostra os primeiros anos da epidemia da Aids e seu impacto na vida de um grupo de amigos gays e da irmã (heterossexual) de um deles. As primeiras notícias de jornal falando sobre o vírus, no começo da década de 1980, deixam a turma de amigos apreensivos. Não demora muito para que alguns deles apareçam gravemente doentes. As dúvidas, a maneira de encarar o futuro e a importância da solidariedade estão no centro da abordagem. Foi o primeiro filme a tratar do então polêmico tema da Aids e a receber um amplo lançamento nos cinemas dos EUA. O título original, Longtime Companion (algo como "Companheiro de longa data"), refere-se à única expressão que era permitida, à época, para que os jornais se referissem ao parceiro sobrevivente de um casal gay, quando um deles morria por causa do vírus HIV. O crítico de cinema Roger Ebert escreveu: "Meu Querido Companheiro é um filme sobre amizade e lealdade, sobre encontrar coragem para ser útil e humildade para ser ajudado."


A Última Festa
(It's My Party, 1996)
Direção: Randal Kleiser
Com: Eric Roberts, Gregory Harrison, Margaret Cho, Olivia Newton-John



Apesar do clima bem-humorado, a história é de cortar o coração. Nick Stark (Eric Roberts) é um bem-sucedido arquiteto que vive com seu companheiro Brandon (Gregory Harrison) há alguns anos. Diagnosticado com o vírus do HIV, Nick fica inseguro e teme morrer sozinho. Infelizmente, o relacionamento dois dois não resiste ao abalo e Brandon deixa Nick. Algum tempo depois, para piorar, Nick é diagnosticado com leucoencefalopatia multifocal progressiva — doença neurológica rara que causa degeneração mental gradativa em poucos meses. Decide, então, que não quer esperar pela morte dolorosa. Organiza uma festa de dois dias para a família e os amigos íntimos, ao fim da qual vai abreviar sua vida com dignidade, tomando uma dose letal de barbitúricos. O filme mostra a festa de despedida de Nick e seus amigos. Em meio a lembranças divertidas, piadas, episódios tristes e felizes, Brandon, que havia abandonado Nick, aparece, causando tensão e indignação nos amigos. Na verdade, Brandon sente-se culpado por ter deixado Nick no momento em que o companheiro mais precisava. No curto espaço de tempo da festa, todos precisam conformar-se com a decisão de Nick, por mais doloroso que seja. Mesmo recheado de piadas ácidas, o filme tem uma melancolia permanente, por confrontar família e amigos com o “suicídio consentido” de um ente querido por todos. A história foi baseada em fatos reais, sobre a morte do ex-companheiro do diretor Randal Kleiser na vida real, em 1992. Kleiser dirigiu os sucessos de bilheteria Grease - Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978) e A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, 1980).