Bette Davis em seis ótimos telefilmes


Bette Davis está novamente em voga com a ótima repercussão da série Feud: Bette and Joan (2017), em exibição aos domingos no canal Fox Premium. Quem acompanha o blog sabe que Bette é minha atriz favorita, paixão das paixões. Pois bem, todos estão carecas (ou quase) de tanto ouvir falar em filmes emblemáticos como Jezebel, A Carta, A Malvada, O Que Teria Acontecido a Baby Jane? e outros títulos protagonizados por Bette e imortalizados no cinema.


Mas uma grande parcela do público não costuma prestar atenção aos trabalhos que a atriz fez para a televisão, na fase final de sua carreira (embora, na época, ela não considerasse de forma alguma que era a "fase final"). Se hoje a televisão coloca os holofotes novamente sobre Bette Davis e as peculiaridades de sua vasta carreira, quatro décadas atrás foi a televisão também que abrigou o enorme talento da atriz, grande demais para ser aposentado. "Jamais cometerei o erro de anunciar que estou me aposentando", disse ela, quando já tinha mais de 70 anos. "Se fizer isso, estou acabada. Tenho de acreditar que continuarei a interpretar papéis de mulheres cada vez mais velhas… mas sempre como protagonista. Nisso sou inflexível. Gostaria de encerrar minha carreira com meu nome aparecendo em cima do titulo do filme."


Na década de 1970, sem conseguir papéis relevantes no cinema, a atriz continuou, bravamente, tocando sua carreira com dignidade e empenho, acolhida pela televisão. Mesmo que na época a tevê ainda fosse considerada um veículo "menor" e de menos prestígio, Bette desempenhava seus papéis nos telefilmes com a mesma paixão e profissionalismo que haviam se tornado suas marcas registradas no cinema. Já na casa dos 70 anos, ela protagonizou vários filmes para a tevê, muitos deles elogiados. Podiam não ter a grandiosidade das produções que ela estrelara no cinema, entre os anos 1930 e 1950, mas certamente contavam com o mesmo brilho das inesquecíveis atuações de Davis. Considero seis deles imperdíveis:


O Desaparecimento de Aimée (The Disappearance of Aimee)
Estreou na TV em 17 de novembro de 1976
Direção: Anthony Harvey
Elenco: Faye Dunaway, Bette Davis, James Woods

A história real do misterioso desaparecimento da pregadora protestante Aimée Semple McPherson (Faye Dunaway), em 1926, durante cinco semanas. Ao reaparecer, alega que havia sido sequestrada e divide opiniões. Bette Davis faz Minnie, a mãe que não acredita na história. O suspense é mantido e a narrativa é instigante. Elenco de primeira e produção caprichada. Muitas histórias de bastidores, especialmente a que se tornou mais notória: Bette odiou Dunaway logo de cara, devido ao desinteresse que Faye demonstrava pelo filme, seu ar blasé e seus atrasos para as gravações — um comportamento inadmissível para uma profissional como Bette. (Ironicamente, alguns anos depois Dunaway interpretou a maior rival de Bette, Joan Crawford, no filme Mamãezinha Querida). Lançado no Brasil também em vídeo. 

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Duas Estranhas - História de Mãe e Filha (Strangers: The Story of a Mother and Daughter)
Estreou na TV em 13 de maio de 1979
Direção: Milton Katselas
Elenco: Bette Davis, Gena Rowlands, Ford Rainey

Abigail (Gena Rowlands), que deixou a casa dos pais após um rompante de desentendimento, retorna 20 anos depois para tentar reconstruir o relacionamento com Lucy (Bette Davis), a mãe ressentida e solitária. Com dificuldade, Abigail vai quebrando o gelo aos poucos, até que as coisas começam a se encaminhar para um entendimento entre as duas mulheres. Mas Lucy descobre que a filha está com uma doença terminal e a acusa de egoísta e interesseira. Novamente um embate se inicia entre mãe e filha. Davis e Rowlands estão impecáveis em papéis fortes e tocantes, que não caem na pieguice costumeira dos telefilmes. Bette Davis ganhou um merecido Emmy Award por sua atuação. Na minha opinião, o melhor telefilme da carreira de Davis.

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Mamãe Branca / Com Afeto Contra a Violência (White Mama)
Estreou na TV em 5 de março de 1980
Direção: Jackie Cooper
Elenco: Bette Davis, Ernest Harden Jr., Eileen Heckart

Davis interpreta Adele, uma viúva idosa, pobre e solitária, que vive em um prédio de apartamentos, num bairro pobre de negros. Orgulhosa demais para simplesmente aceitar o auxílio do governo, a velha insiste em continuar vivendo naquele gueto. No entanto, se ela adotar uma criança, passa a receber uma ajuda de custo para ser mãe de criação. Dessa forma, assume os cuidados do adolescente negro B.T. (Ernest Harden Jr.). Logo de cara, a relação dos dois se mostra complicada. Adele pretende ensinar ao jovem, acostumado à dureza das ruas,  valores como afeto, respeito e confiança. Em contrapartida, o rapaz vai se tornando uma companhia para Adele e, com o tempo, passa a enxergar nela a mãe que nunca teve. Mas antes disso, os dois passarão por poucas e boas. White Mama rendeu outra indicação ao Emmy para Bette Davis.

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Liberdade nos Céus (Skyward)
Estreou na TV em 20 de novembro de 1980
Direção: Ron Howard
Elenco: Bette Davis, Howard Hesseman, Suzy Gilstrap

Billie Dupree (Bette Davis) é uma instrutora de voo de um velho aeroporto do Texas. Julie (Suzy Gilstrap), uma adolescente paralítica, descobre o aeroporto ao observar aeromodelos voando. Decide, então, que quer aprender a pilotar. Começa fazendo amizade com Koup (Howard Hesseman), um simpático mecânico de aviões que trabalha com Billie. Koup se esforça dia e noite para tentar colocar um velho aeromodelo para voar. Não vai ser fácil para Julie se aproximar da durona e experiente Billie, mas a instrutora acaba concordando em ensinar a garota a voar, usando alguns controles especiais para compensar sua limitação física. O problema é que Julie faz tudo isso sem que a família saiba, o que vai causar o desentendimento entre ela e Billie. A garota que interpreta Julie é realmente paralítica

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Um Piano Para Mrs. Cimino (A Piano for Mrs. Cimino, 1982)
Estreou na TV em 3 de fevereiro de 1982
Direção: George Schaefer
Elenco: Bette Davis, Penny Fuller, Christopher Guest

Singelo e comovente drama baseado no livro homônimo de Robert Oliphant. Esther Cimino (Bette Davis) é uma viúva de 73 anos, considerada incapaz, pelo filho, de cuidar de si mesma e de seus bens. Apesar de seus protestos, Esther é considerada incapaz pela justiça também, o que fará com que ela lute para recuperar novamente sua autonomia e sua dignidade. Enquanto isso, seus bens são colocados nas mãos de um administrador e Esther é internada. Atordoada, descobre que todas as suas posses foram vendidas, incluindo seu amado piano. Aos poucos vai restaurando sua saúde e inicia uma jornada em busca de sentido para a própria existência. Ela quer agora recuperar o controle de sua vida. Cheio de momentos tocantes e bem-humorados, o filme e a atuação de Davis são deliciosos.

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Direito de Morrer (Right of Way, 1983)
Estreou na TV em 21 de novembro de 1983
Direção: George Schaefer
Elenco: Bette Davis, James Stewart, Melinda Dillon

Filmado em 1982 pelo mesmo diretor de Um Piano Para Mrs. Cimino, aqui Bette Davis e James Stewart — duas lendas da era de ouro do cinema — são reunidos pela primeira vez em um filme. Mini (Davis) e Teddy (Stewart), um casal idoso, decide pôr fim à vida quando a mulher contrai uma doença fatal. Mas a filha deles, com a ajuda do serviço de assistência social, tenta mudar a decisão. Baseado na peça de Richard Lees, de 1978, o filme gerou certa polêmica pelo tema delicado. O suicídio é uma alternativa válida para um casal de idosos que não quer se separar e nem testemunhar a própria degradação física causada pela velhice e pela doença? Apesar das atuações irrepreensíveis de Davis e Stewart e do tema controverso, não deixa de ser uma história deprimente. Três finais diferentes foram filmados. Lançado no Brasil também em vídeo.


A esquecida estreia de Patrick Swayze


Classificar um filme como uma cápsula do tempo pode reduzi-lo à simples evocação de uma época específica. Alguns filmes, mesmo antigos, mantêm um frescor e uma certa qualidade atemporal. Outros, pouco depois de lançados, tornam-se datados e obsoletos. É precisamente o caso de Skatetown U.S.A., do obscuro diretor William A. Levey.


Tudo no filme remete a 1979, seu ano de produção. Dos diálogos adolescentes e superficiais à moda dos patins, shortinhos minúsculos (tanto masculinos como femininos), sem esquecer, claro, da disco music. Mas a grande curiosidade desta pérola cult, esquecida pelo tempo, é Patrick Swayze, fazendo sua "grande" estreia no cinema. Acredite ou não, além de ótimo dançarino (coisa que não é novidade para ninguém), ele era também um excelente patinador. Tanto que dispensou dublês para viver Ace, o bad boy líder de uma gangue de patinadores de discoteca (!) no filme em questão. 

Patrick Swayze em Skatetown U.S.A.

Skatetown, na história, é uma roller disco gigante, onde uma fauna de excêntricos frequentadores (a maioria jovens) combina passos de dança com manobras avançadas de patinação. O filme foi lançado em outubro de 1979, no auge da febre americana dos patins. Pouco depois, a moda — de vida curta — se espalhou pelo resto do mundo.


Vale lembrar que a Disco Demolition — que iniciou o movimento Disco Sucks ["a disco é uma droga"] — tinha acontecido apenas dois meses antes. (Na segunda metade de 1979, um movimento de repúdio à disco music foi lançado nos EUA, no evento que ficou conhecido como Disco Demolition, no qual incontáveis pilhas de LPs com músicas de discoteca foram, literalmente, explodidos). Mas não importa. A moda das discotecas estava prestes a morrer, mas nem todos estavam cientes, na época. Muito menos a patota de Skatetown, que não estava dando a menor bola para isso e continuava curtindo a sobrevida das discotecas, agora também convertidas em rinques de patinação. Aliás, se tem uma coisa que reina no filme é a disco music.

A noite da Disco Demolition, em julho de 1979, que iniciou a repressão à disco music
O embate do filme é entre Ace, o marrento-dono-do-pedaço, e Stan (Greg Bradford), o bonzinho-novo-no-pedaço. Os dois jovens galãs do filme garantem ótimos números de patinação. E só. Não espere diálogos (quase inexistentes no filme) ou uma história consistente. Aliás, todo o filme não passa de um grande pretexto para cenas de patinação e dança. Enquanto Ace e sua gangue se vestem com roupas de couro pretas, Stan usa uma apertadíssima camiseta rosa, exibindo seus músculos, e calça branca. A moda unissex era comum na época. Se fosse hoje, seria difícil não associar a imagem de Stan à de um gay. Até a música de seu número solo de patinação é, hoje, caricata: Macho Man, do Village People. Mas isso era fichinha, até porque ninguém estranhava homens usando lápis nos olhos, esmalte nas unhas, camisetas e shorts muitíssimo pequenos e justos, além de paetês nas roupas.

O bad boy Patrick Swayze (em cima) e o angelical Greg Bradford (embaixo)

Mesmo o bad boy interpretado por Patrick Swayze, com seu figurino mais "sóbrio" (embora não menos caricato) fica difícil de ser encarado como um bruto encrenqueiro quando o ator começa a patinar e demonstrar sua leveza de bailarino profissional. Em seu número solo, até esquecemos de que ele é o bad boy do filme. Swayze foi bailarino ainda antes de se tornar ator e despontar como astro de Hollywood. Sentiu todo o peso do preconceito: "As pessoas pensavam que eu era gay", contou ele, quando já era famoso. 

O filme é uma grande bobagem, mas daquelas irresistíveis, que a gente precisa ver para crer. Não apenas por ter sido a estreia de Patrick Swayze, mas pelo que ouso chamar de “o conjunto da obra”. É um misto de comédia juvenil e chanchada, que ora pende para um humor adolescente rasteiro, ora apela para uma ingênua banalização erótica. Nos atuais tempos politicamente corretos, muita coisa de Skatetown U.S.A. seria inconcebível. O filme é recheado de closes em bumbuns e peitos de espevitadas moçoilas em trajes apertadíssimos e minúsculos. Os jovens são retratados por meio de clichês típicos de filmes juvenis datados: a maioria dos rapazes são briguentos, conquistadores e machistas, enquanto as moças são "loiras burras" e oferecidas. 

O pai do dono da roller disco e sua assistente

O dono da roller disco Skatetown

O exótico DJ que solta raios da mão
O dono da roller disco (interpretado pelo comediante Flip Wilson) é um negro filho de um anão branco (Billy Barty, de Golpe Sujo). Sua assistente é uma espécie de paquita erótica. O DJ, conhecido como The Wizard ("o mago"), é uma figura não menos extravagante: um branquelo de bigode e peruca black power branca, que vez por outra lança raios laser direto de suas mãos, na pista de dança. Entre os frequentadores, um elenco de jovens que faziam sucesso na época, em séries de TV: Scott Baio (Happy Days), Maureen McCormick (The Brady Bunch) e Ron Palillo (Welcome Back, Kotter), só para citar alguns. Até a sensação do momento, a modelo Dorothy Stratten (assassinada pelo marido em 1980) faz uma constrangedora ponta. (Na vida real, ela havia acabado de ser eleita a Playmate da Playboy do mês de agosto de 1979, e também a Playmate do ano seguinte).

Scott Baio

Ron Palillo
Maureen McCormick
A modelo Dorothy Stratten


De tão apatetados, os frequentadores da Skatetown mais parecem fugitivos de um manicômio. Um deles é, literalmente, louco: um veterano da Guerra do Vietnã que ficou lelé da cuca (numa época em que era totalmente aceitável e engraçado fazer piadas com veteranos de guerra traumatizados). De acordo com Maureen McCormick (a Marcia Brady da série cult The Brady Bunch), que viveu Susan no filme, era comum o uso de cocaína durante as filmagens. Em seu livro Here's the Story: Surviving Marcia Brady and Finding My True Voice (2009), ela revelou: "Como era comum nas discotecas, havia muita cocaína rolando no set. Muitos usavam abertamente."

A trilha sonora é um deleite à parte, com todos os hits mais manjados daquele final dos anos 1970: Born To Be Alive (Patrick Hernandez), Boogie Wonderland (Earth Wind & Fire), Shake Your Body (The Jacksons), Disco Nights (G.Q.), Ain't No Stoppin' Us Now (Mcfadden and Whitehead), Ring My Bell (Anita Ward), Best of My Love (The Emotions) e Boogie Nights (Heatwave), entre outros.

O filme nunca chegou a ser lançado em vídeo ou DVD, provavelmente devido a impasses com direitos autorais, relativos ao uso da trilha sonora. São tantos os hits que, dificilmente, conseguirão regularizar tudo para comercializar o filme atualmente. O único motivo pelo qual poderia haver um possível interesse seria o fato de ter sido a estreia de Patrick Swayze. (Só vendo para crer).

Da esquerda para a direita: Maureen McCormick, Greg Bradford e Scott Baio


Greg Bradford
Da esquerda para a direita: Patrick Swayze, Scott Baio e Maureen McCormick

Skatetown U.S.A. foi o primeiro filme de roller disco. Logo em seguida, foram lançados Roller Boogie (também de 1979) e Xanadu (1980). Nenhum deles obteve sucesso considerável, mas Roller Boogie é lembrado graças à presença de Linda Blair. Já Xanadu, desse trio, é o único que sobreviveu bem e permanece muito conhecido até hoje (não só pelo carisma de Olivia Newton-John como também pela trilha sonora de enorme sucesso). Só Skatetown U.S.A. caiu no limbo do esquecimento.

Nick Castle, um dos roteiristas do filme, tem um currículo curioso: interpretou Michael Myers (sempre de máscara) no primeiro Halloween (1978) e também dirigiu Dennis, o Pimentinha (Dennis the Menace, 1993), entre outros trabalhos. 

No Brasil, Skatetown U.S.A. só estreou em abril de 1981, com o título Febre de Patins.


O estranho motorista


Não é incomum o cinema retratar países estrangeiros de forma idealizada, caricata ou mesmo cômica. Por muito tempo, nosso país foi considerado e mostrado como uma terra exótica pelos filmes de fora. Talvez ainda seja, embora a internet e a rapidez da comunicação tenham quebrado um pouco a ideia de que o Brasil é um paraíso tropical do terceiro mundo, povoado por clones de Carmen Miranda e Zé Carioca. Por muitos anos, foi também o destino favorito de fuga dos vilões do cinema, que buscavam se safar de todo tipo de problema com a polícia ou a justiça.

Um filme em especial me chama a atenção. Não por retratar deliberadamente o Brasil de forma errônea, e sim pela sucessão de "equívocos involuntários", por assim dizer. Trata-se do excelente filme A Esranha Passageira (Now, Voayger, 1942), de Irving Rapper. Um clássico do cinema e um dos melhores de Bette Davis, verdadeiro marco em sua carreira. É um melodrama típico dos anos 1940, bem arrebatador, que perpassa várias fases. Um filmaço para que aprecia o gênero. 

No filme, a atriz interpreta Charlotte Vale, uma solteirona oprimida pela mãe tirânica. Um dia, a cunhada de Charlotte convida um simpático e gabaritado psiquiatra para fazer uma visita à casa da família e, assim, avaliar se Charlotte precisa de um tratamento ou se é apenas uma pessoa reprimida. A resposta é um pouco dos dois. Não vou me estender em análises do filme (existem milhares na internet), pois meu foco aqui é falar da forma engraçada como o Brasil é mostrado em A Estranha Passageira.

O médico recomenda que Charlotte passe uma temporada em sua clínica, nas montanhas. Sob seus cuidados, Charlotte vai, gradativamente, saindo de sua própria concha. Já melhor, em vez de voltar para casa, ela embarca em um cruzeiro pela América do Sul, sob as instruções do médico, com o intuito de estimular sua autoconfiança e independência. É neste cruzeiro que ela conhece Jerry (Paul Henreid), um arquiteto casado e frustrado. Os dois iniciam um idílio amoroso, conscientes de que o romance deve ser enterrado para sempre quando o cruzeiro chegar ao final.

Paul Henreid e Bette Davis em A Estranha Passageira

Em meio a todo o melodrama, o filme garante um inusitado momento cômico, na sequência em que o cruzeiro chega ao Brasil, onde permanece por alguns dias. É possível ver algumas belas imagens do Pão de Açúcar, de Copacabana e do Cristo Redentor. Charlotte e Jerry ficam encantados pela beleza do Rio de Janeiro. Mas se metem em uma confusão com um atrapalhado taxista que não fala inglês.


O motorista conduz o casal por uma estrada de terra, numa região montanhosa do Rio, e se chama Giuseppe. Menos brasileiro, impossível. Para completar, ele fala em uma estranhíssima mistura de portunhol e italiano. E só sabe repetir uma lista de clichês associados ao Brasil: "Corcovado, Pão de Açucar, periquitos, papagaios, borracha". Em uma boate local, o que se ouve é um bolero mexicano. Tudo bem, isso não é impossível. Mas se a ideia era retratar o Brasil, os clichês foram todos equivocados. Claro que nada disso tira o brilho do filme. Mas não deixa de ser curioso ver o olhar estrangeiro sobre aquele Brasil da década de 1940. A língua, a música e os hábitos eram muito confundidos com os costumes e a língua de outros países da América do Sul. Bem, se até hoje isso ainda acontece, imagine mais de 70 anos atrás!






Ironicamente, o livro (Now, Voyager, de Olive Higgins Prouty) no qual baseia-se o filme, traz essa mesma cena, mas em Nápoles, na Itália. Teria o roteiro inicial seguido o livro à risca? Ou as locações foram modificadas depois? Talvez. De qualquer forma, o romance foi publicado em 1941, e também fez enorme sucesso. Os direitos para o cinema foram comprados imediatamente pela Warner, e o filme chegou aos cinemas americanos no final de outubro de 1942. No Brasil, estreou em maio de 1944.


A crítica da Folha de S. Paulo de 12 de maio de 1944 não deixou passar batido: "De fato, tudo se desenvolve de maneira aceitável, até o momento em que ela inventa de viajar. (...) Sem falar na inoportunidade de certos detalhes falsamente típicos, sem falar no chauffeur do Rio, que se chama Giuseppe e se exprime correntemente em espanhol, sem lembrar aquele inverossímil desastre de automóvel, essa viagem foi o maior desastre de Charlotte Vale." Mais adiante, disparou: "Isso que aí está daria um bom filme (excluída, é claro, a viagem ao Rio)."


Uma das cenas antológicas do filme se passa justamente no hotel do Rio de Janeiro, onde os personagens estão hospedados. É quando Paul Henreid acende dois cigarros de uma só vez e oferece um a Bette Davis. A Estranha Passageira teve três indicações ao Oscar: melhor atriz (Bette Davis), melhor atriz coadjuvante (Gladys Cooper) e trilha sonora (Max Steiner). Só este último ganhou.