Servicinho batuta


No começo da década de 1970, o Jornal do Brasil publicava, aos domingos, um caderno infantil. O Caderno I trazia matérias escritas especialmente para o público infantojuvenil, sobre história geral, curiosidades, ciências, literatura, brincadeiras, receitas etc. Textos educativos e recreativos, escritos com extrema inteligência e leveza, primorosamente ilustrados. Além das matérias, tiras da Turma da Mônica, do Snoopy e outros. Sessão de cartas e classificados também faziam parte do caderno.

Antes de ontem, ao organizar antigas caixas da minha mãe, encontrei alguns recortes que ela guardava do Caderno I, do tempo em que ela lecionava.



Lembrei-me de muitos contos, poemas e histórias em quadrinhos daqueles recortes que eu tanto lia quando criança (apesar de não serem do meu tempo). Mas o que mais me chamou a atenção ao revê-los, hoje, foi a sessão de classificados infantis ("Servicinho"). Lendo os anúncios, tão ingênuos, que as crianças mandavam para o caderno, não pude deixar de rir de vários deles. Não por deboche, mas por achar graça da inocência daqueles pedidos, dicas, sugestões e recados, escritos por crianças mais de quatro décadas atrás. O linguajar, atualmente, seria inimaginável. Mesmo com algumas gírias, o tom das crianças ainda carregava certa formalidade (ou precocidade?) naquele começo dos anos 1970. E muita criatividade. Alguns termos — hoje não muito politicamente corretos — também me fizeram rir. Selecionei alguns anúncios, publicados ao longo de 1973, na seção "Servicinho":
















O Portador


No comecinho da década de 1990, a Aids era um tema tabu e extremamente incômodo. Pouco se sabia sobre a doença e vivia-se um clima de medo e insegurança. Quando a minissérie O Portador, de oito capítulos, foi exibida pela Globo, entre 10 e 20 de setembro de 1991, o assunto ainda causava bastante desconforto. Escrita por José Antônio de Souza e Aziz Bajur, a partir do argumento de Herval Rossano — que foi também o diretor geral — a minissérie conseguiu a proeza de tratar, àquela época, de um tema tão controverso e carregado de preconceitos como a Aids. 



Pouco lembrada hoje em dia, mas ainda incrivelmente atual no que diz respeito à reação das pessoas, ao preconceito e ao temor, O Portador já gerava certa "tensão" bem antes de sua estreia. Estava pronta desde novembro de 1990, mas ficou quase um ano engavetada. "Herval Rossano descarta a possibilidade do programa ter sido boicotado pela emissora", informou uma matéria da Folha de S. Paulo, de 8 de setembro de 1991. "Ele parte do princípio que a emissora não iria bancar a realização de um projeto para depois desistir de exibi-lo." 

A minissérie conta a história de Léo (Jayme Periard), 30 anos, um dos sócios em uma empresa de congelados, juntamente com o casal Reginaldo (Jonas Bloch) e Luciana (Lilia Cabral). Boa praça, responsável, generoso e trabalhador, Léo é querido por todos. Após um acidente de avião, durante uma viagem a Manaus, ele recebe uma transfusão de sangue e tem a vida salva.


Algum tempo depois, Léo se oferece para doar sangue à mãe de uma amiga e acaba descobrindo, para sua surpresa e espanto, que tem o vírus da Aids. A reação inicial é de pânico, já que sempre levara uma vida regrada e tranquila. O médico, interpretado por Othon Bastos, explica a Léo que ele é um portador saudável, isto é, carrega o vírus da Aids, mas não sofre os efeitos da doença. A pergunta que o aflige é: por quanto tempo ele continuará saudável? O sócio Reginaldo, amigo e compreensivo, tenta ajudá-lo, mas esbarra no preconceito da própria esposa, Luciana (Lília Cabral), que fica paranóica e não quer manter contato algum com Léo. Luciana fica tão descontrolada que chega a afastar seu filho da convivência com o rapaz. Paralelamente, Léo precisa lidar também com o fato de ser apaixonado por sua ex-namorada, Marlene (Dedina Bernadelli), com quem sonhava ter um filho.

Léo (Jayme Periard) e o amigo e sócio Reginaldo (Jonas Bloch)

Luciana (Lília Cabral), o filho Quiquito (André Luiz) e Léo (Jayme Periard)

Luciana (Lília Cabral), Vilma (Zezé Polessa) e Marlene (Dedina Bernadelli)
Passado o desespero do choque, Léo tenta retomar as rédeas de sua vida e manter sua sanidade. Mas decide sair atrás da identidade do passageiro que havia feito a doação de sangue, na época do acidente. Na angustiante jornada, o jovem empresário vai em busca dos companheiros de voo, em várias cidades, e se depara com alguns dos "suspeitos": Álvaro (Roberto Pirillo), sujeito casado e fanfarrão, que leva uma vida promíscua; Laurita (Thereza Amayo), mãe de um adolescente drogado; Jacira (Mayara Magri), estudante de pós-graduação com um passado obscuro; Aurélio (Edwin Luisi), um reservado homossexual que possui um namorado aidético em fase terminal; Patrícia (Françoise Forton) e Oscar (Raymundo de Souza), um simpático casal; e Alfredão (Jonas Melo), um criador de cavalos de comportamento estranho, entre outros.

Ao mesmo tempo em que precisa lidar com seus próprios medos e aflições, Léo acaba ajudando vários dos passageiros, de diferentes formas, durante sua busca pela pessoa responsável por sua contaminação. Em meio a tantos problemas diferentes, Léo começa a refletir sobre sua dificuldade em resolver os próprios problemas. Aos poucos, vai redescobrindo a esperança e se dá conta de que não é mais essencial descobrir quem o contaminou. É justamente então que ele descobre. "Passei tanto tempo atrás desse nome. Agora que eu tô correndo dele, ele vem atrás de mim", diz o personagem.

Léo (Jayme Periard) e Jacira (Mayara Magri)
O que mais impressiona em O Portador, ao assisti-la hoje em dia, é perceber o realismo com que a minissérie foi conduzida, sem que tivesse sido tratada como um "telecurso". É claro que houve pretensões didáticas também, mas até isso foi executado com extrema naturalidade e sutileza, sem quebrar a narrativa, mesclando o drama pessoal do protagonista ao clima policial. Jayme Periard interpretou Léo de forma hábil e digna, com empatia e sensibilidade, sem cair em exageros.


O final da minissérie — emocionante sem ser piegas — deixa uma mensagem de otimismo. "Não há uma preocupação de mostrar um sofrimento atroz. Não há espírito derrotista. Há uma mensagem de que se pode conviver com o vírus, mas é preciso que se aprenda isso", disse Herval Rossano, antes da estreia de O Portador. Um mérito notável, se levarmos em conta que, naquela época, imperava a falta de informação (da população e dos médicos), além da precariedade do tratamento da doença no Brasil.

No tempo das letras (quase) indecifráveis


A letra de qualquer canção, de qualquer língua, está ao alcance de um toque. Hoje, basta uma rápida busca no Google ou em algum aplicativo, pelo próprio telefone celular mesmo. Mas houve uma época em que — nem faz tanto tempo assim — para aprender a letra de uma canção, era preciso recorrer àquelas revistinhas de partituras para violão, bastante populares até o final dos anos 1990, nas bancas de jornais e revistas. Muitas pessoas nem queriam saber de aprender a tocar guitarra ou violão. Compravam por causa das letras (que, por sinal, vinham cheias de erros e "embromation").


Essa foi a primeira que comprei, em 1991

Outra que também corri para comprar foi a Coro de Cordas ("A revista de quem transa música!") dedicada à novela Vamp:
Essa também comprei em 1991. Rabisquei (uma péssima mania que eu tinha) a cara do Fábio Jr. 

Algumas vezes, até as revistinhas de cifras nos deixavam na mão. Essa da novela O Salvador da Pátria, que comprei também em 1991, foi uma delas. Uma das faixas não entrou na revista:



A do Micheal Jackson foi uma das que mais li. Comprei em 1993, quando o cantor visitou o Brasil. Decorei todas as músicas, na época:



A rede de ensino de idiomas Fisk tinha folhetos com letras das músicas, para que os alunos praticassem cantando. As canções eram tocadas em programas de rádio e o estudante podia acompanhá-las, tendo as letras em mãos. Eu mesmo, durante os anos em que estudei na Fisk (entre 1993 e 1997), aguardava esses jornaizinhos com grande ansiedade. Novos folhetos chegavam a cada semestre, sempre com as letras das canções que estavam nas paradas de sucesso da época.


Outro recurso eram as revistas dedicadas exclusivamente às letras e traduções. Essas sim, bem mais sofisticadas, se comparadas às simplórias revistas de partitura. Publicações como a Letras Traduzidas, da revista Bizz, foram muito populares nas décadas de 1980 e 1990, quando a internet ainda era coisa de filme de ficção científica. A Bizz Letras Traduzidas marcou época e virou a fonte mais confiável para se ter acesso à letra dos hits que tocavam nas rádios, nas trilhas internacionais das novelas, nos filmes e programas de TV. Outra opção, mais complicada, era recorrer a algum amigo craque em inglês, capaz de transcrever a letra só de ouvido.



Outras revistas para jovens, de assuntos variados, traziam quase sempre uma seção dedicada a letras de canções, geralmente de algum artista que estivesse fazendo sucesso na época. A partir dos anos 2000, com a internet se espalhando pelos quatro cantos do mundo, ficou bem mais rápido e simples ter acesso às letras das músicas. Esta semana, ao revirar minhas quinquilharias, reencontrei a antiga pasta onde guardava as revistas, recortes e folhetos com letras das canções.




As revistinhas de partituras para violão e guitarra eram as campeãs de erros, no começo dos anos 1980. Do meio da década em diante, foram se aprimorando e trazendo as letras já quase sem erros. Ainda guardo várias dessas revistas, hoje amareladas, com carinho, para me lembrar do tempo em que eu passava horas tentando decorar as letras.


De vez em quando o leitor se deparava com alguns disparates hilários, como essa letra de The Winner Takes It All, do ABBA, publicada em uma revista de cifras para violão, em 1980. Cheia de erros, a letra teve várias partes deturpadas inadvertidamente. Como na época os meios de se confirmar a exatidão das letras das canções eram muito limitados, os editores acabavam inventando pedaços ou escrevendo o que eles julgavam ter ouvido, ainda que não fizesse o menor sentido. Por exemplo, o trecho But I was a fool [Mas fui uma tola] / Playing by the rules [Jogando de acordo com as regras] virou, na tal revista, Mother was so cool [A mãe estava fria] / Laying by the roof [Deitada no telhado].


Neste outro trecho, It’s simple and it’s plain [É simples e óbvio] / Why should I complain? [Por que eu deveria reclamar?], a primeira frase virou It seems from any stray e foi “traduzida” como “Parece sermão”.

Em But what can I say? [Mas o que posso dizer?] / Rules must be obeyed [As regras devem ser obedecidas] a segunda frase virou Roose my feel obey [que, embora não faça nenhum sentido em inglês, foi traduzido como “obedeça meu sentimento”].


Existem vários outros equívocos ao longo da letra publicada pela revista. Sei que a intenção foi boa, mas não deixa de ser engraçado ler esses disparates hoje em dia. Nos virávamos com o que tínhamos, e cada trecho que conseguíamos captar e transcrever de uma canção era um triunfo e tanto. Quando saía em alguma revista então, era o paraíso!

Esta foi uma das últimas que comprei, em 1996:


Sexta básica de (in)utilidades

Qual a idade ideal para casar?

De uma maneira geral, a melhor idade para casar é aquela em que se atingiu a maturidade física e mental. Naturalmente, esta varia de indivíduo para indivíduo, embora se considere que oscila entre os 22 e os 30 anos, devendo o marido ser quatro a sete anos mais velho que a mulher. Também neste último ponto surgem excepções. (…) O importante é que o casal seja emocionalmente estável e mentalmente amadurecido para suportar as tensões e as sobrecargas inerentes ao casamento.

Embora muitas vezes seja necessário adiar o casamento por razões económicas, é de presumir que um homem que continua solteiro depois dos 35 anos se decidiu pelo celibato. Este facto pode indicar a existência de uma personalidade incompatível com um bom marido ou com um bom pai. Por tal motivo, não se deve tentar levar ao casamento um solteirão inveterado.

O desejo e a determinação de fazer do casamento uma união feliz constituem uma das armas mais importantes contra o divórcio. Como disse alguém, "a tolerância, a compreensão e o bom humor constituem um capital mais precioso, no casamento, do que uma ilusória idealização do companheiro".

E, antes de apreciar as atitudes emocionais e os ajustamentos sexuais que podem contribuir para um casamento bem sucedido, convirá focar alguns problemas fundamentais relativos à saúde fisica.


O Livro da Saúde – Enciclopédia Médica Familiar
Selecções do Reader's Digest (Portugal, 1976)





A visita de uma familiar história


É recorrente o uso de um determinado mote na teledramaturgia brasileira: a vingança. Uma mesma estrutura, diversas vezes utilizada em nossas novelas, garantiu o sucesso de várias tramas. Com algumas variações ao redor da história principal, o enredo é basicamente o seguinte: uma moça é expulsa de uma cidadezinha, ou levada a deixar o lugar, seja pelo julgamento inclemente e moralista de seus habitantes ou por circunstâncias abusivas. Injustiçada, a personagem retorna, muitos anos depois, em busca de vingança.

Ao que tudo indica, o público se identifica com esse tipo de heroína vingadora, uma espécie de “mocinha”, porém forte, independente e destemida, ao contrário das sofredoras, românticas e ingênuas mocinhas tradicionais. Essa estrutura ficou célebre com a peça A Visita da Velha Senhora (Der Besuch der Alten Dame), do suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), escrita em 1955.

A peça estreou no começo de 1956, na Suíça, e pouco depois, na Alemanha. Em poucos meses, conquistou plateias da França, Inglaterra, Japão e EUA. No Brasil, o espetáculo, dirigido por Walmor Chagas, foi apresentado por Cacilda Becker, em 1962. A atriz interpretou o papel da protagonista Clara Zachanassian.

Na provinciana Güllen, cidadezinha perdida em alguma parte da Europa central, nasce Clara, de família humilde. Aos 17 anos, apaixona-se perdidamente por um jovem ambicioso, Alfred, com quem vive um caso de amor. Grávida, é abandonada pelo rapaz, que pretendia se casar com outra moça da cidade, cuja família tinha algumas posses. Oprimida, Clara exige justiça para si e para o bebê que ia ter. Alfred e todos os homens "honestos" da cidade, porém, envolvem-na em um processo humilhante, após tramar para fazê-la parecer uma moça de índole duvidosa e indigna. Ao fim do processo, ela acaba sendo escorraçada da cidade. 


Cacilda Becker em A Visita da Velha Senhora
Obrigada a sair de Güllen, Clara torna-se prostituta para sobreviver e, depois, esposa  de um milionário mais velho, Zachanassian, dono de metade da Europa. "O mundo fez de mim uma mulher da vida e eu quero fazer dele um bordel", apregoa Clara. Décadas depois, já viúva, ela retorna a Güllen, com o propósito secreto de vingar-se da injustiça da qual fora vítima na mocidade. Para isso, ajuda a pobre cidade a se recompor e a progredir. Mas sua ajuda tem um alto preço: jogar uns contra os outros, revelando a verdadeira natureza hipócrita, mesquinha e cruel daquelas pessoas, incluindo seu maior alvo: Alfred. A integridade moral dos cidadãos não é inabalável. À medida que a cidade começa a antecipar seu futuro de prosperidade, cresce o número dos que reconhecem a injustiça cometida à Clara no passado.

Qualquer semelhança com tramas de telenovelas brasileiras não é mera coincidência. Exemplos não faltam. Coincidentemente, o canal Viva exibe duas dessas emblemáticas tramas atualmente: Fera Radical (1988) e Tieta (1989-1990), grandes sucessos da década de 1980.


Em Fera Radical (Rede Globo), de Walter Negrão, Cláudia (Malu Mader) quer vingar o extermínio de sua família, ocorrido 15 anos antes na pequena Rio Novo. Mesmo tendo deixado a cidade após o atentado, a moça nunca deixou de responsabilizar os Flores — família de fazendeiros ricos — pela tragédia de seu passado, quando ainda era uma menina. Ela retorna a Rio Novo e começa a trabalhar para os Flores, buscando esclarecer as circunstâncias da morte de sua família e com o intuito de vingar-se de seus supostos algozes. Para isso, Cláudia se envolve com os irmãos Fernando (José Mayer) e Heitor Flores (Thales Pan Chacon), cativa o patriarca Altino (Paulo Goulart) e desperta a ira da matriarca Joana (Yara Amaral).

Malu Mader em Fera Radical (1988)
Em Tieta (Rede Globo), novela de Aguinaldo Silva, baseada no romance homônimo de Jorge Amado, o ponto de partida remete mais diretamente à peça A Visita da Velha Senhora. Tieta (Betty Faria), agora rica, volta à empobrecida e esquecida Santana do Agreste, da qual fora expulsa na juventude, para acertar as contas com seu triste passado. Tieta havia sido escorraçada da cidadezinha 20 anos antes, a cajadadas, pelo pai, insuflado pela irmã Perpétua (Joana Fomm). A cidade testemunhou tudo calada. Agora Tieta retorna, exuberante, distribuindo presentes e trazendo o progresso para o lugar. A cidade toda, por interesse, passa a bajulá-la, sem nem imaginar que o verdadeiro intento da benfeitora é mostrar ao povo de Santana do Agreste que ele continua tão hipócrita, moralista e injusto quanto no passado.

Betty Faria em Tieta (1989)
Além desses dois sucessos, atualmente em exibição no Viva, outras telenovelas brasileiras utilizaram a mesma premissa, contada de formas diversas, mas que remetem à atemporal peça de Dürrenmatt. A trama central de Chocolate com Pimenta (Rede Globo, 2003-2004), de Walcyr Carrasco, é outro exemplo. Ana Francisca (Mariana Ximenes) volta à cidadezinha onde havia sido ridicularizada, prometendo a si mesma vingança contra os moradores interesseiros e cruéis que a haviam humilhado, incluindo seu amor do passado, Danilo (Murilo Benício).

Mariana Ximenes em Chocolate com Pimenta (2003)
Variações com protagonistas masculinos jurando vingança também não faltaram. Em Fera Ferida (Rede Globo, 1993-1994), de Aguinaldo Silva, Feliciano Júnior (Edson Celulari) retorna à pequena Tubiacanga 15 anos após ter sido expulso da cidade com seus pais, que acabaram assassinados. Sob a identidade de Raimundo Flamel, Feliciano vai se vingar dos inescrupulosos e corruptos de Tubiacanga, responsáveis pela perda de sua família, quando ele ainda era um adolescente. 

Voltando ainda mais no tempo, é possível encontrar exemplos mais antigos na teledramaturgia brasileira, como Cavalo de Aço (Rede Globo, 1973), de Walter Negrão, e Os Inocentes (TV Tupi, 1974), de Ivani Ribeiro. Ambas apoiaram suas tramas centrais na mesma ideia de A Visita da Velha Senhora. (Para mais detalhes sobre as novelas mencionadas, acesse o site Teledramaturgia). 

Edson Celulari em Fera Ferida (1993) e Tarcísio Meira em Cavalo de Aço (1973)
É claro que a transposição da peça não ficou restrita à TV. Em 1964, a história já havia ganhado uma versão no cinema, intitulada A Visita (The Visit). Estrelado e coproduzido por Ingrid Bergman e Anthony Quinn, o filme (ótimo, por sinal) foi dirigido por Bernhard Wicki e teve o roteiro adaptado diretamente da peça. O nome de Clara, no entanto, foi alterado para Karla, e o de Alfred para Serge.


O texto dramático de Dürrenmatt, apesar de escrito na década de 1950, é aplicável a qualquer época. Talvez seja essa uma das razões pelas quais as telenovelas por ele inspiradas tenham agradado ao público em diferentes épocas e situações. Além de retratar uma tragédia do ressentimento, um notável estudo de psicologia social e uma sátira ao poder do dinheiro, A Visita da Velha Senhora ainda dissecou temas como a corrupção e o poder. Não foi à toa que a peça consagrou seu autor mundialmente. "Sua visão de mundo é pessimista, frustrante, mas sempre comprometida com uma crítica total ao nosso tempo", reconheceu o crítico e historiador do teatro norte-americano John Gassner, sobre Dürrenmatt.


Friedrich Dürrenmatt
O autor classificou sua obra como uma "comédia trágica", pois escolheu a ironia e o humor agressivo para mesclar tragédia e comédia em sua amarga visão de mundo. Ele ataca o dinheiro, os mecanismos de ascensão ao poder, o casamento e o mau uso da tecnologia. Trata-se de uma uma peça engraçada, mas o cômico de Dürrenmatt envolve um sentido trágico que o espectador vai descobrindo aos poucos. 

"Dürrenmatt não é um otimista em relação ao gênero humano e não tem nenhuma ilusão sobre o homem. Onde quer que viva, sob que bandeira se esconda, o homem sempre acaba sucumbindo: ao poder, ao dinheiro, às instituições. Uns esmagam, outros sao esmagados e a decantada liberdade, proposta em tantas revoluções, não existe. Para Dürrenmatt, a liberdade só pode ser encontrada na arte." (A Visita da Velha Senhora, Coleção Teatro Vivo, Abril Cultural, 1976)