E seu nome é Jonas


A Rede Globo tinha acabado de exibir o capítulo da novela Água Viva naquela noite de sábado, 31 de maio de 1980. Foi quando o telefilme E Seu Nome é Jonas (And Your Name Is Jonah) estreou na tevê brasileira, às 21h30. Havia feito sua estreia na tevê americana há pouco mais de um ano (28 de janeiro de 1979). Na época, não era comum que um filme chegasse à nossa tevê tão rápido. E, não menos rápido, ele se tornou um clássico dos telefilmes, tendo sido bastante reprisado ao longo daquela década.


Era a história de Jonas, um menino de 9 anos, internado, ainda pequeno, em uma instituição para crianças com deficiência mental. Mas tudo não passara de um grande erro de diagnóstico, já que o garoto era apenas surdo-mudo e não retardado. Chocados e consternados, os pais precisam reparar o erro da forma que puderem. O filme mostra a luta do casal (interpretado por Sally Struthers e James Woods) para tentar recuperar a audição do menino, ensiná-lo a falar e integrá-lo à sociedade. As barreiras logo surgem, aumentando as dificuldades, tanto dentro quanto fora de casa.

Jeff Bravin, Sally Struthers e James Woods



O curioso é que Jeffrey Bravin, o garoto que interpretou Jonas, é surdo na vida real. Jeff foi escolhido para o papel após várias entrevistas com outros garotos surdos dos Estados Unidos. O filme tornou-se emblemático por mostrar a delicada situação de forma realista, com todas as suas dificuldades, sem soluções mágicas ou final milagroso. Bravin se comunicava com o elenco e a equipe por meio da linguagem dos sinais e de leitura labial. No final das filmagens, ele e Jeremy Licht, de 7 anos (que interpretava seu irmão Anthony), já haviam se tornado amigos. A revista Life de 1º de fevereiro de 1979 confirmava que Jeff era perfeito para o papel:

Inicialmente os produtores estavam preocupados com a escalação de uma criança surda e ainda ator novato para o papel-título. Mas quando viram Jeff em ação, ficaram impressionados e maravilhados. Ele entendia intuitivamente como usar os gestos e movimentos para interpretar Jonas, uma criança retraída, o contrário do que ele é de verdade. Ao final das filmagens, o entusiasmado Jeff já tinha ensinado ao elenco e à equipe como se comunicar por meio dos sinais. Ficaram emocionados com a habilidade especial de Jeff, de "ouvir" sem o auxílio da audição e de "conversar" sem a fala. De sua parte, Jeff disse que curtiu a experiência de atuar, mas, no geral, prefere se tornar um jogador de basebal.

Jeff e Bernard Bragg ensaiando uma cena

Jeff ensinando à Sally Struthers alguns sinais
O filme, dirigido por Richard Michaels, foi inovador. Pela primeira vez, vários personagens foram interpretados por atores surdos-mudos de verdade, o que garantiu ainda mais o realismo da narrativa (que tinha tudo para cair no melodrama banal, mas resultou em um filme tocante). A relação de amizade de Jonas com o avô é explorada de forma comovente. O sofrimento da mãe, amorosa, mas angustiada por sentimentos de culpa, também. A dificuldade do pai em lidar com a situação dificulta ainda mais as coisas. Ele não consegue ficar perto e nem se afastar totalmente. As divergências entre linhas de tratamento opostas também dividem os pais de Jonas: ensinar a linguagem dos sinais ao filho ou forçá-lo a tentar falar?

Após a exibição do filme, a revista People de 5 de fevereiro de 1979 destacou o talento do jovem ator:

(...) Quando o nova-iorquino Jeffrey Bravin, 9, fez sua bem aclamada estreia no fim de semana passado, no filme da CBS E Seu Nome é Jonas, sobre o isolamento de um garoto surdo, o elenco, incluindo Sally Struthers, virou seu maior fã. "Caí de amores por ele", disse Sally, que viveu sua mãe no filme e ainda se corresponde com ele, meses depois. O diretor Richard Michaels acrescenta: "Com Jeff descobri a diferença entre ouvir e escutar". Michaels se refere não apenas ao roteiro, mas à própria vida do garoto: Jeff faz parte da quarta geração da família Bravin a nascer com a surdez.
Excelente aluno e atleta, Jeff curtiu a experiência de ser astro de TV, apesar de compreender a dificuldade que seria seguir uma carreira de ator. Mas ele não será esquecido. O diretor Michaels diz: "Essa foi a experiência mais extraordinária em comunicação que já vivenciei".

Membro atuante e engajado na comunidade de surdos-mudos, Jeff Bravin tornou-se, em 2014, diretor executivo da American School for the Deaf (ASD), a mais antiga escola integral para surdos dos Estados Unidos. "Em suma: Servirei de modelo para as crianças surdas aqui", disse ele, ao assumir o cargo. "E vai ser um sinal muito claro de que uma pessoa surda pode exercer esse tipo de função. Isso provavelmente não teria sido possível alguns anos atrás." Fundada em 1817, em Hartford, Connecticut, a ASD atende alunos surdos de todas as idades.

Jeff Bravin atualmente

Mesmo tendo sido produzido há quase quatro décadas, as barreiras apresentadas no filme ainda são atuais. A parte tecnológica do tratamento pode ter evoluído, mas os medos, inseguranças e preconceitos por falta de conhecimento continuam presentes. É comum que telefilmes abordando doenças ou limitações físicas tornem-se datados (e até caricatos) após certo tempo. Não é o caso de E Seu Nome é Jonas. Talvez, por isso, a história relatada no filme continue tocante. 


Jeff no filme, em 1979, e atualmente

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Para quem se interessa por telefilmes de temática parecida com a de E Seu Nome é Jonas, no começo do ano fiz um post sobre O Amor é Mais Forte.

A trilha não oficial de A Gata Comeu e outras novelas


Postagens sobre novelas ou trilhas sonoras de novelas parecem agradar a um número maior de leitores do que quando escrevo sobre outros assuntos (filmes obscuros, livros, artistas etc.). Como o blog é uma salada de temas que me atraem — independentemente de sua popularidade — nem sempre consigo agradar a todos. Mas fico feliz quando determinado post empolga os leitores e gera inspiração para que eu escreva outros semelhantes. Por isso, atendendo à sugestão dos amigos Nilson Xavier e Jorge Duarte Jr., fiz mais um post sobre trilhas "não oficiais" de novelas antigas. Músicas e temas usados no decorrer das novelas, mas que não fizeram parte de suas trilhas sonoras oficiais.

Por ser um assunto que me diverte bastante, geralmente pesquiso e tento dar nome aos bois. São muitas as novelas e as músicas "perdidas" dentro delas. Por isso, normalmente faço esse tipo de postagem com novelas que ja assisti, pois fica mais fácil, obviamente, identificar canções e temas quando se assiste à novela. Fiz isso com Selva de Pedra, Dancin’ Days, Água Viva e Vale Tudo. Agora farei um apanhado de novelas, incluindo algumas que não vi e outras às quais assisti, com destaque para A Gata Comeu (atualmente em exibição no canal Viva).


Comecemos pela queridinha de praticamente todos os noveleiros, dos mais jovens aos mais velhos: A Gata Comeu. Tanto os LPs nacional quanto internacional, cheios de hits da época, foram muito populares e eram presença obrigatória em todas as festinhas de 1985. As faixas foram, na maioria, muito bem utilizadas na novela de Ivani Ribeiro e são até hoje associadas aos divertidos personagens e à trama em si. 

O duo inglês Wham!, formado por George Michael e Andrew Ridgeley, teve sua (rápida) cota na novela. No capítulo 9, Wake Me Up Before You Go Go, hit de 1984 extraído do álbum Make It Big, embalou Gláucia (Bia Seidl) e Rafael (Eduardo Tornaghi) na discoteca.

Para complementar a narrativa, algumas músicas incidentais foram muito executadas ao longo de A Gata Comeu, mas não fizeram parte de sua trilha sonora oficial. Entre essas faixas, temos Il gatto, Rag del Commissariato e Indagine di Amedeo, compostas por Ennio Morricone para o filme italiano Il Gatto (1977), do diretor Luigi Comencini. As três músicas instrumentais são muito usadas nas cômicas cenas de Tetê (Marilu Bueno) e Gugu (Cláudio Corrêa e Castro). Todas estão na trilha sonora oficial do filme, estrelado por Ugo Tognazzi (de A Gaiola das Loucas), Mariangela Melato e Michel Galabru (também de A Gaiola das Loucas).


Outra faixa instrumental de Morricone usada na novela foi Brasiliana, tocada em algumas cenas dos primeiros capítulos, em especial naquela em que os participantes da excursão descem da lancha para a ilha. A música faz parte da trilha original do filme A Gaiola das Loucas (La Cage aux Folles, 1978), de Edouard Molinaro.


Do LP Sleepwalk (1982), do guitarrista de smooth jazz e jazz fusion norte-americano Larry Carlton, a faixa You Gotta Get it While You Can foi usada logo na primeira cena da novela, pouco antes da primeira aparição do professor Fábio (Nuno Leal Maia) e seus alunos.



I Need a Man, do compositor francês Francis Lai, faz parte da trilha oficial do filme Bilitis (1977), drama erótico dirigido por David Hamilton. A faixa instrumental, que tem uma pegada funk, é usada em cenas de certa tensão de A Gata Comeu.



E por falar nele, Francis Lai já havia tido outra de suas composições usada em uma novela: Aujourd’hui C’est Toi, canção feita para o filme Um Homem, uma Mulher (Un homme et une femme, 1966), de Claude Lelouch. A faixa foi utilizada na novela Carinhoso (1973), de Lauro César Muniz, mas não fez parte de sua trilha sonora. Na mesma novela, Theme From The Mack, de Willie Hutch, era usado como tema da vinheta de "estamos apresentando". A música originalmente faz parte da trilha do filme The Mack (1973), de Michael Campus.


Trilhas de Um Homem, Uma Mulher (1966) e The Mack (1973)
Voltemos para os anos 1980: Guerra dos Sexos (1983), de Silvio de Abreu. Marco da comédia anárquica na teledramaturgia brasileira, a trama brincava com clichês e situações do cinema e da tevê. As músicas usadas para a trilha incidental foram várias, mas três foram marcantes: The Raiders March (Indiana Jones Theme), tema de Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981), primeiro filme da saga Indiana Jones, dirigido por Steven Spielberg. A imponente música embalou as aventuras de Charlô (Fernanda Montenegro) nos primeiros capítulos, quando a personagem pilotava avião e fazia outras estripulias.



Da trilha original composta por John Morris para a comédia Alta Ansiedade (High Anxiety, 1977), de Mel Brooks, o tema High Anxiety Main Title abriu o primeiro capítulo de Guerra dos Sexos. Outros temas incidentais do filme (que não entraram nem na trilha sonora do filme e nem da novela) foram repetidamente usados em cenas de suspense ou embate em Guerra dos Sexos.


Da série de televisão norte-americana Missão Impossível (Mission: Impossible, que foi ao ar de 1966 até 1973 pela rede CBS), a novela pegou emprestados dois temas. Jim on the Move era muito usada nas cenas de espionagem envolvendo Veruska (Sônia Clara) e suas tramoias. The Plot também foi usado em cenas que brincavam com armação de estratégias militares lideradas por Charlô. A trilha sonora de Missão Impossível é bastante conhecida e foi composta por Lalo Schifrin.


Voltando à era das big bands, I'm Getting Sentimental Over You, imortalizada pelo lendário trompetista, compositor e maestro norte-americano Tommy Dorsey, era a música que Charlô adorava. Mas a personagem evitava escutar o disco, já que essa faixa trazia recordações de um baile do passado e de seu "odiado" primo Otávio (Paulo Autran). A canção foi lançada em 1933 e sua versão mais famosa é a gravada por Tommy Dorsey e sua orquestra.



Passando para o lado pop, a canção 40 Grados (Que Calor de Loco) fez enorme sucesso no Brasil e ganhou destaque nas rádios. Gravada originalmente pelo grupo uruguaio Los Iracundos e lançada em 1982, a faixa chegou aqui em 1983 e foi incluída em Guerra dos Sexos, como tema das cenas calientes de Vânia (Maria Zilda) e Ulisses (José Mayer). Curiosamente, a música não fez parte da trilha oficial da novela, provavelmente por ter estourado depois que os LPs já estavam fechados, ou por questões burocráticas de aquisição de direitos. O fato é que entrou na novela, tornou-se extremamente popular, apesar de não ter feito parte de nenhuma das trilhas. Em 1984, quando o SBT exibiu a novela mexicana Chispita, pegou carona no sucesso de 40 Grados e tratou de incluí-la no LP brasileiro da novelinha. Creditada ao grupo Los Maneros, a canção prolongou seu sucesso no Brasil por mais um ano. (Tanto Chispita quanto sua trilha sonora brasileira tornaram-se extremamente populares na época).




Em Cambalacho (1986), também de Silvio de Abreu, o tema principal de Psicose (Psycho, 1960) era usado com frequência nas cenas de suspense, principalmente naquelas em que Andreia (Natália do Vale) cometia seus crimes e armações. Psicose, de Alfred Hitchcock, teve sua trilha composta — e imortalizada — por Bernard Herrmann e virou referência em matéria de terror e suspense. Quase dez anos depois de Cambalacho, os indefectíveis instrumentais de Psicose foram utilizados em mais uma novela de Silvio de Abreu, A Próxima Vítima (1995), tanto nas várias cenas de suspense quanto na vinheta de encerramento dos capítulos.



Um dos temas de Psicose era usado nas vinhetas de encerramento de A Próxima Vítima

Ainda em novelas de Silvio de Abreu, em Jogo da Vida (1981-82) a faixa Violet Steals Body, do filme Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5), era usada como tema incidental de suspense, além de outras do mesmo filme. Dirigido por Colin Higgins, o longa teve sua trilha composta por Charles Fox e fez enorme sucesso. Da mesma trilha, Judy's Fantasy foi usada em Guerra dos Sexos.


E, para finalizar, em Brilhante (1981-82), de Gilberto Braga, o tema da vinheta de "estamos apresentando" não era nenhuma faixa da trilha sonora da novela e sim a música Home Computer, do Kraftwerk, o famoso grupo musical alemão de música eletrônica. A composição fazia parte do álbum Computer World, lançado em maio de 1981 pelo grupo.



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Obrigado a Jorge Duarte Jr. pela indicação de nomes de canções em A Gata Comeu e a João Lima Jr. pela indicação da trilha de Como Eliminar Seu Chefe.

Além da trilha oficial de Selva de Pedra (1972)


É curioso observar como as novelas de antigamente se apropriavam de músicas pré-existentes para utilizá-las como trilha incidental das tramas. Essas muito comuns "músicas de fundo", como também são conhecidas, pontuam as narrativas e criam um ambiente para as cenas. Especialmente nas novelas da primeira metade dos anos 1970, muitos desses temas eram tirados de trilhas de filmes americanos ou europeus da época. As músicas incidentais de Selva de Pedra formam uma verdadeira miscelânea de trilhas de filmes estrangeiros daquele período.

Os LPs nacional e internacional de Selva de Pedra
Naqueles tempos de recursos limitados, quando a venda de discos de novelas ainda não havia atingido o ápice da popularidade, era comum ouvir, a cada capítulo, canções que não faziam parte da trilha oficial da novela, mas que estavam muito presentes na trama. No caso de Selva de Pedra (1972-73), uma novela emblemática, de grande sucesso e com o mais marcante tema romântico das telenovelas brasileiras — Rock and Roll Lullaby — não foi diferente. 


Os LPs nacional e internacional de Selva de Pedra vieram recheados de sucessos que marcaram época. Das faixas importadas, além da já mencionada Rock and Roll Lullaby, de B. J. Thomas, canções de Michael Jackson, The Supremes, Giorgio (Moroder) e Françoise Hardy, entre outros, fizeram enorme sucesso. Até faixas instrumentais — muito populares na época — viravam hits. Sleepy Shores, do compositor e orquestrador britânico Johnny Pearson, é um bom exemplo. Pearson comandou a orquestra do programa de TV britânico Top of the Pops por 16 anos e teve várias de suas composições usadas como temas de séries e telefilmes.


À frente da Johnny Pearson Orchestra, Pearson alcançou altas colocações na parada britânica em 1972, com Sleepy Shores, tema da série de televisão Owen, M.D. (1971–73). Para a trilha internacional de Selva de Pedra, o maestro, compositor e arranjador brasileiro Waltel Branco providenciou uma regravação de Sleepy Shores bem fiel à original. No comando da Free Sound Orchestra, ele interpretava e compunha faixas para as novelas da Globo, especialmente na primeira metade da década de 1970. "Tenho música em todas as trilhas internacionais dessa época. É que estão assinadas por W. Blanc, Bianco e por aí vai", explica Branco no livro Teletema, de Guilherme Bryan e Vincent Villari (Dash Editora, 2014). "Como eram trilhas internacionais, não podia pôr nome brasileiro. Daí inventamos a Free Sound Orchestra, que em português quer dizer Orquestra Som Livre. Eu sou o responsável por tudo que aparece como Free Sound Orchestra."

O LP original da Johnny Pearson Orchestra (1972)
O compacto da Free Sound Orchestra (1972)
Houve até uma pequena confusão quando saiu a primeira leva de LPs Selva de Pedra internacional, em 1972. Sleepy Shores, composta por Johnny Pearson, aparecia em gravação da Free Sound Orchestra. "Na primeira edição do disco, a faixa, que embala a dor de Fernanda [Dina Sfat] após ser abandonada no altar por Cristiano [Francisco Cuoco] e o desespero que a conduz à loucura, aparece com o título If You Want More e o crédito de composição a Waltel Branco e Antônio Faya. Na edição seguinte, o erro é corrigido e a canção surge com seu título original e com o crédito ao devido autor." (Teletema, de Guilherme Bryan e Vincent Villari. Dash Editora, 2014).

Compacto A Taste of Excitement, lançado no Brasil em 1972

Outra faixa instrumental muito tocada na novela (e que também fez parte da trilha internacional oficial) foi A Taste of Excitement, da orquestra britânica Carnaby Street Pop Orchestra And Choir, liderada por Keith Mansfield. Originalmente composta para o obscuro filme Taste of Excitement (1969, do diretor Don Sharp), a faixa que também dava nome ao filme entrou para o LP internacional de Selva de Pedra e se tornou um dos temas mais marcantes da trama. O álbum da Carnaby Street Pop Orchestra And Choir havia sido lançado na Inglaterra, em 1969. Apesar de ser hoje um disco bem raro, suas faixas são instantaneamente reconhecidas por qualquer brasileiro por um simples motivo: a Rede Globo, a partir dos anos 1970, passou a utilizar várias delas em seus programas e novelas. 

Além de A Taste of Excitement compondo a trilha internacional de Selva de Pedra, a música Drum Diddley tornou-se o tema da vinheta de "estamos apresentando" da novela (embora não tenha entrado no LP). Outra faixa da orquestra, Dr. Jeckle and Hyde Park, também foi ouvida na trama. Rebatizada apenas de Hyde Park aqui no Brasil, a faixa foi imortalizada ao virar também tema do programa Esporte Espetacular, em 1973, e continua até hoje. 

Vinheta "estamos apresentando"


A Taste of Excitement chegou a ser lançada em compacto aqui no Brasil (com Drum Diddley no lado B). Apesar de instrumental, fez tanto sucesso que ganhou uma gravação em português, com letra e tudo, cantada por Agnaldo Rayol: Na Selva de Pedra. A versão em português, composta por Nazareno de Brito, saiu no LP Imagem, lançado por Rayol em 1972. Afinal, capitalizar em cima de algo que está fazendo sucesso não é coisa de hoje. Ainda mais tratando-se de Selva de Pedra, telenovela que hipnotizou o Brasil e conseguiu a façanha de obter 100% de audiência, quando a personagem de Regina Duarte foi desmascarada.


The London Theme (1969), o álbum original da Carnaby Street Pop Orchestra And Choir, de onde saíram essas três faixas (A Taste of Excitement, Drum Diddley e Hyde Park), não foi lançado no Brasil na época. Estranhamente, a gravadora Top Tape adquiriu os direitos em 1978 e lançou o LP aqui, com quase dez anos de atraso. E tratou de rebatizá-lo de A Taste of Excitement, com nova capa, totalmente diferente da original, e ainda com a ordem das músicas trocada.

O álbum original da Carnaby Street Pop Orchestra and Choir (1969)
O mesmo álbum, lançado no Brasil em 1978, com capa diferente e ordem das músicas alterada
Boa parte da música Hyde Park foi usada no capítulo em que a artista plástica Rosana Reis (personagem de Regina Duarte) volta de Paris e é apresentada à sociedade carioca, em uma exposição com suas obras. No petit comité realizado depois, a canção Family Affair, hit de 1971 do grupo norte-americano de funk Sly and the Family Stone, também é escutada na festinha (embora não faça parte da trilha oficial da novela). 

A exposição da artista plástica Rosana Reis (Regina Duarte)


Além das faixas dos LPs nacional e internacional, várias outras eram executadas na trama de Janete Clair. Da trilha sonora do filme Ladrão que Rouba Ladrão (Dollar$, 1971), a novela pegou emprestada cinco faixas: Snow Creatures, Candy Man e Money Runner (muito usadas em cenas de suspense ou tensão), e também Rubber Ducky e Kitty With the Bent Frame, todas compostas especialmente por Quincy Jones para o filme. Dirigido por Richard Brooks, o longa foi estrelado por Warren Beatty e Goldie Hawn.

Quincy Jones


Trilha sonora do filme Ladrão que Rouba Ladrão (Dollar$)
Da trilha sonora do filme Sol Vermelho (Soleil Rouge, 1971), dirigido por Terence Young e estrelado por Charles Bronson, Alain Delon e Ursula Andress, mais cinco faixas foram tomadas emprestadas para criar climas em Selva de Pedra: Commanches e Les Roseaux En Feu, muito utilizadas em cenas de suspense, além das dramáticas Le Sabre, L’enterrement, Samourai e da apoteótica Vers La Montagne. Todas compostas por Maurice Jarre para a trilha sonora oficial do filme.


Trilha sonora do filme Sol Vermelho (Soleil Rouge)
Um terceiro filme, também de 1971, teve suas músicas usadas na novela. Da trilha sonora de Sacco e Vanzetti, composta por Ennio Morricone, foram usadas como temas de suspense Nel Carcere e E Dover Morire, além das pungentes Libertà Nella Speranza e Speranze Di Libertà. O filme, do diretor italiano Giuliano Montaldo, é baseado na história real dos imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, presos em 1922, acusados de participação em um assalto e assassinato de dois empregados de uma firma em Boston. 

Ennio Morricone


A "trilha não oficial" de Selva de Pedra ainda teve Nadia's Theme, composta por Barry De Vorzon e Perry Botkin Jr. em 1971. Originalmente intitulada Cotton's Dream, a música já havia sido composta pela dupla como tema incidental para o filme Abençoai as Feras e as Crianças (Bless the Beasts and Children, 1971), de Stanley Kramer. A música também se tornou o tema da soap opera (telenovela) americana The Young and the Restless, que estreou em 1973 na CBS. Toda essa salada de temas instrumentais enriqueceram as cenas e o tom dramático de Selva de Pedra, numa época em que as tramas tinham trilhas incidentais fortes e muito bem utilizadas (às vezes até em excesso).  




Para saber mais sobre a novela Selva de Pedra, acesse o site Teledramaturgia.