Pequena parada de insucessos


No showbizz, o sucesso é algo árduo e delicadíssimo — e, por isso mesmo, muito almejado. A linha que o separa do fracasso é tênue e difícil de ser mantida. Seja na TV, no cinema ou na música, inúmeros são os casos de artistas talentosos que atingiram o ápice e, logo em seguida, estavam por baixo. Mas engana-se quem pensa que isso só acontece com iniciantes. Mesmo entre artistas experientes e consagrados, é comum conhecer o sucesso retumbante em um ano e, no seguinte, o desprezo imposto por um fracasso. Como diz o ditado, "o sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão". 

Como o foco deste post é a música, reuni seis exemplos de cantores ou grupos que conseguiram sucesso mundial com hits pelo mundo todo e que, de um ano para o outro, foram praticamente banidos das paradas de sucesso ou não conseguiram chegar nem perto dos êxitos anteriores. Alguns desses artistas recuperaram o sucesso posteriormente. Outros, extinguiram-se gradativamente. De um jeito ou de outro, todos são muito talentosos e bem conhecidos. Vale lembrar que o fato desses álbuns terem sido fracassos comerciais não significa que não possam ter seus méritos.

Elton John - Victim of Love (1979)


O 13° álbum da admirável carreira de Elton John é totalmente diferente de qualquer coisa que ele já tenha gravado. Pouco conhecido do grande público, foi um retumbante fiasco. Lançado em uma época difícil na carreira de Elton, Victim of Love é aquele trabalho que tanto os fãs como o próprio artista preferem ignorar. O LP anterior, A Single Man (1978), não fizera o megasucesso que seus álbuns faziam até meados anos anos 1970, mas também não chegou a fazer feio. A canção de maior destaque foi, curiosamente, a instrumental Song for Guy. Mas 1978 foi o auge da febre disco que assolou o planeta e Elton não queria ficar para trás. Em 1979, o mundo ainda vivia a onda disco, apesar de ela já mostrar sinais de declínio. Mesmo assim, Elton não quis perder o bonde. 

No livro Elton John - A Biografia (Companhia Editora Nacional, 2011), o autor David Buckley explica: "Cercado pela música disco, era simplesmente natural que alguém tão observador das tendências da época quanto Elton John fizesse a sua tentativa. Infelizmente, o resultado foi um desastre. Gravado no Musicland, em Munique, e no Rusk Sound Studios, em Hollywood, e lançado em outubro de 1979, tudo no álbum Victim of Love foi equivocado. Da capa terrível, passando pelas fotos promocionais que exibiam o implante de cabelo malsucedido de Elton, às musicas de duração exageradamente longa, que mal saíam da primeira marcha, o álbum foi um projeto bem-intencionado que morreu na praia."

Talvez Elton tenha chegado um pouco atrasado para surfar na onda disco, ou então, simplesmente, seu estilo não se adaptou ao novo movimento. Trata-se de um LP atípico na carreira do cantor e compositor: é o menor deles, com apenas 36 minutos. O autor de sua biografia explica novamente: "Elton chamou Pete Bellote, produtor britânico que vivia em Munique, para produzir o álbum. Bellote havia trabalhado com Giorgio Moroder em alguns compactos de Donna Summer, incluindo o clássico de 1977 I Feel Love, uma fusão entre o som do Kraftwerk e o soul americano. Contudo, Elton disse que dessa vez não queria se envolver no processo de composição. Isso acabou sendo o tendão de Aquiles do álbum, pois, por mais que Bellote tenha tentado, ele não conseguiu reunir o tipo de material adequado para o estilo e a voz de Elton. As sete faixas — seis compostas em colaboração com Bellote mais uma regravação de Johnny B. Goode — fizeram Elton parecer um convidado no álbum de outra pessoa. As críticas foram as piores possíveis. Stephen Holden, da Rolling Stone, concluiu que o álbum "não teve um único suspiro de vida". Colin Irwin, da Melody Maker, escreveu: "Esse álbum não pode de forma alguma ser apenas considerado um tédio. Há momentos em que ele é completamente insuportável."


Nenhuma turnê foi feita para divulgar Victim of Love, e nenhuma de suas faixas sequer chegou a ser tocada em shows por Elton.


James Taylor - Flag (1979)


Em 1977, James Taylor estava em ótima fase. Além dos vários sucessos que havia emplacado ao longo daquela década, JT, seu LP naquele ano, trazia um de seus maiores hits: Handy Man, além de outros como Your Smiling Face e Secret O' Life. O álbum seguinte foi Flag, lançado em maio de 1979. Era o nono da carreira do cantor e compositor. A julgar pela trilha de sucessos anteriores, era de se esperar que Flag continuasse naquele bem-sucedido caminho. Mas não foi o que aconteceu.


O álbum foi mal recebido, apesar de ter gerado um hit com a versão cover que o cantor fez para Up on the Roof, composta por Gerry Goffin e Carole King e gravada originalmente pelo conjunto The Drifters no começo da década de 1960. Mas Flag, no geral, foi considerado um disco confuso. Incluía ainda outra versão cover, Day Tripper, dos Beatles, que também passou batida. O crítico Stephen Holden, da Rolling Stone de 28 de junho de 1979, detonou: "Se JT [o LP anterior] trouxe o tipo de pessoa refinada, sexy e bem-humorada que todos queríamos conhecer, Flag removeu o glamour e deixou à mostra a essência endurecida de um forasteiro hostil. Nenhuma das novas canções tem a sagacidade irresistível de Handy Man ou o delicioso prazer irônico de Secret O' Life. Em vez disso, Flag oferece o sombrio autorretrato de um deprimido crônico carregando nas costas seu problema com as drogas, pois Taylor acumula, incansavelmente, outros medos a seu próprio desespero."


Chic - Real People (1980)


Fundado pelo guitarrista Nile Rodgers e pelo baixista Bernard Edwards, o Chic foi um dos grupos de maior sucesso da chamada era disco, na segunda metade da década de 1970. O álbum de estreia, em 1977, trazia dois grandes sucessos, Everybody Dance e Dance, Dance, Dance. O segundo LP, C'est Chic (1978), representou o auge da carreira do grupo, com seu maior hit, Le Freak. Foi o único compacto da Alantic Records a vender 6 milhões de cópias e um dos dois únicos que chegaram ao topo da parada de sucessos da Billboard três vezes. E o álbum ainda tinha I Want Your Love, outro grande sucesso. Em 1979, o LP Risqué trouxe mais um hit eterno, Good Times. Até aquele ano, o Chic já havia lançado sete compactos de ouro (1 milhão de cópias), seis de platina (2 milhões de cópias), três de platina dupla e um de platina tripla. Isso só nos Estados Unidos, sem contar o resto do mundo, onde haviam vendido o dobro daquela quantia. Mas na segunda metade de 1979, foi declarada uma espécie de "caça às bruxas" para a disco music.

"Tudo começou com uma brincadeira de um DJ de uma rádio local que havia sido demitido depois que a rádio deixou de tocar rock e passou a tocar disco, o que acabou virando um movimento chamado Disco Sucks [a disco é uma droga]", explica Nile Rodgers em seu excelente livro Le Freak - Autobiografia do Maior Hitmaker da Música Pop (Zahar, 2015). De repente, a irresistível febre que havia tomado conta do mundo tornara-se execrável e devia ser violentamente combatida. "Era como se estivéssemos em uma lenda gótica cheia de elfos, dragões, cavaleiros e reis", conta Nile em sua autobiografia. "Um grupo continuava a sujar o trono sob a autoridade sombria da disco (a música de negros, gays, mulheres e latinos), enquanto o outro grupo tentava devolver o trono ao legítimo governante (os brancos)."

Em junho de 1980, o Chic lançou seu quarto álbum, Real People. Mas o grupo tornara-se uma espécie de bode expiatório do movimento Disco Sucks e passara a representar tudo que deveria ser varrido da face Terra, em termos de música. Assim, apesar de conter alguns compactos dignos de lembrança como Rebels Are We e 26, o LP, em comparação ao sucesso dos dois anteriores, foi praticamente nulo. "O movimento Disco Sucks havia sido tão tóxico que as pessoas da própria indústria — que estavam vendendo um monte de discos de dance music — tinham medo de ser associadas com qualquer coisa relativa à disco (...)."

O curioso é que Nile e Bernard, a talentosa dupla de músicos/compositores/produtores, produziam, paralelamente ao Chic, outros artistas de sucesso como Diana Ross (cujo álbum de 1980, Diana, foi o mais vendido da carreira da cantora) e Sister Sledge (com os hits We Are Family e He's The Greatest Dancer, de 1979, entre outros). O grupo acabou se separando poucos anos depois, mas Nile Rodgers tornou-se um dos maiores produtores de música pop, tendo ressuscitado a carreira de David Bowie com o álbun Let's Dance (1983) e alavancado a de Madonna com Like a Virgin (1984), só para citar dois entre as dezenas de exemplos.


Bee Gees - Living Eyes (1981)


Outro exemplo de grupo que foi severamente boicotado pela própria indústria que o havia elevado à categoria de sensação mundial, os Bee Gees também sofreram na pele a repressão à disco music no comecinho dos anos 1980. Seu 16° LP, Living Eyes, lançado em outubro de 1981, foi a pá de cal na vasta carreira de hits do trio. Mesmo tentando se desvencilhar do rótulo da discoteca, o grupo não conseguiu emplacar com seu novo álbum. As vendas mundiais não passaram de 750 mil cópias, um número pífio se comparado aos 16 milhões que seu disco anterior, Spirits Having Flown, vendera em 1979. Isso sem falar na trilha sonora de Saturday Night Fever (1977), a mais vendida da história na época.

Living Eyes foi o último disco do grupo lançado pelo selo da RSO Records (que seria adquirido pela Polydor e depois extinto). O boicote à disco music continuava forte e muitas rádios simplesmente não estavam tocando os álbuns dos Bee Gees em 1981. A faixa-título do LP foi a escolhida para a divulgação do novo trabalho, mas passou em branco.

Os próprios Bee Gees consideraram o LP fraco, por ter sido gravado sob pressão de sua gravadora, numa época em que o grupo precisava repensar sua direção. Em 1984, Barry Gibb, o líder do trio, admitiu: "Estávamos, obviamente, com medo de Living Eyes. Não era o tipo de álbum que deveríamos ter lançado naquele ponto. Era mais melancólico, não tinha muita energia. Mas estávamos tentando mudar, nos distanciar dos falsetes e fazer algo um pouco diferente. Sabíamos dos riscos quando o fizemos."


Resultado: a carreira do grupo deu uma estagnada e os irmãos Gibb passaram a trabalhar em projetos solo ou produzindo outros artistas. O álbum Guilty (1980), de Barbra Streisand, é um bom exemplo dessa época. Tornou-se o disco mais vendido da carreira da cantora. Os Bee Gees só conseguiriam recuperar seu prestígio como grupo muitos anos depois.


Kim Carnes - Voyeur (1982)


Stephen Thomas Erlewine, do site AllMusic (também conhecido como All Music Guide ou AMG), disse sobre Kim Carnes e o álbum Voyeur: "O problema com o sucesso é continuá-lo". O crítico ressalta ainda que Kim teve grande dificuldade de alcançar o sucesso de Mistaken Identity (1981), seu LP anterior, que trazia o hit Bette Davis Eyes, maior sucesso de sua carreira e premiado como música do ano pela Billboard em 1981.

Voyeur é o sétimo álbum de Kim Carnes, descrito por ela como "mais consistente" que seu anterior. Não só a gravadora, EMI, como os críticos, esperavam que seria um LP de sucesso imediato, como seu antecessor. Pop/rock caprichado, pós-new wave, muitos sintetizadores casados com melodias que tinham tudo para emplacar. Lançado em setembro de 1982, Voyeur recebeu críticas contraditórias, com algumas em sua defesa e outras que afirmavam que ele não fazia jus ao padrão de sucesso alcançado com Mistaken Identity, que havia sido nomeado a álbum do ano no Grammy Award e foi um dos maiores discos de 1981.


Mas Voyeur não teve o mesmo destino. O álbum não causou grande impacto e acabou ficando perdido no meio do caminho, apesar de Kim ter consolidado seu prestígio como cantora e compositora ao longo da década de 1980.


Blondie - The Hunter (1982)


No final dos anos 1970 e início dos 1980, o Blondie ganhou as paradas de sucesso mundo afora e se destacou como um dos pioneiros nos gêneros new wave e punk rock. Fundado pela vocalista Debbie Harry e seu marido, o guitarrista Chris Stein, o grupo emplacou vários sucessos entre 1977 e 1981. O auge foi o LP Parallel Lines (1978), com um dos maiores hits da banda: Heart of Glass. Os álbuns seguintes, Eat to the Beat (1979) e Autoamerican (1980), também vieram recheados de hits e consolidaram ainda mais o prestígio do Blondie. Mas The Hunter, o álbum seguinte, lançado em maio de 1982, acabou fracassando. Não fez nem a metade do sucesso dos anteriores. Era o sexto LP do grupo e se tornou o último daquele período. 

The Hunter era um álbum levemente conceitual, de acordo com o release da gravadora, na época. A música de trabalho escolhida foi Island of Lost Souls, que não causou impacto. Curiosamente, a faixa foi regravada em 1990 por Mara Maravilha com o título Na Ilha dos Sonhos Perdidos, e foi incluída em seu LP Deixa a Vida Rolar, daquele mesmo ano.


A temática predominante nas canções de The Hunter era a procura, a busca e a caça. Mas comparado aos três discos anteriores do Blondie, todos produzidos por Mike Chapman, The Hunter foi uma grande decepção, tanto para a crítica quanto para o público. Seis meses após seu lançamento, a banda se dissolveu. O grupo só voltaria a gravar em 1999.

O terror em episódios da Amicus - Parte 2


Continuando o post anterior, mais três tesouros esquecidos do gênero "terror em episódios", produzidos no começo dos anos 1970 pela Amicus.



A Cripta dos Sonhos (Vault of Horror, 1973)
Direção: Roy Ward Baker




Assim como Contos do Além, este aqui também é baseado em histórias da EC Comics. Cinco desconhecidos entram no elevador de em um moderno edifício de escritórios de Londres. Todos estão descendo e vão parar no subsolo, sem que ninguém tenha apertado o botão correspondente àquele andar. Ao saírem, descobrem-se em uma espécie de salão de clube, e a porta do elevador se fecha atrás deles. Sozinhos e sem muito o que fazer enquanto aguardam alguma ajuda. Enquanto tomam drinks e conversam, cada um resolve contar seu pesadelo recorrente. Na primeira história, Midnight Mess, Harold Rodgers (Daniel Massey) leva sua irmã Donna (Anna Massey) para um vilarejo e a mata para poder ficar com sua parte da herança. Após cometer o crime, descobre que o lugar é um ninho de vampiros e que sua irmã pode não estar tão morta quanto ele pensava. No segundo episódio, The Neat Job, Arthur Critchit (Terry-Thomas) é um homem com mania de limpeza que exibe sua esposa-troféu, mas descobre que ela não é deusa da limpeza doméstica que ele esperava. Suas constantes reclamações levam-na à loucura, fazendo com que ela finalmente prove quão organizada e metódica pode ser. This Trick’ll Kill You, a terceira historia, mostra Sebastian (Curd Jürgens), um mágico que mora com sua mulher na Índia e tenta encontrar truques novos para seu show. Depois de ver uma garota fazer uma corda erguer-se no ar apenas tocando uma flauta, ele a convida para sua casa e a mata com a ajuda de sua esposa. Sebastian e a esposa tentam aprender o truque sozinhos, mas a corda tem ideias próprias. Na quarta história, Bargain in Death, Maitland (Michael Craig) é enterrado vivo como parte de um plano elaborado com seu amigo Alex (Edward Judd) para receber o seguro de vida, mas é enganado por ele. Dois jovens médicos subornam o coveiro para roubar um cadáver para seus estudos. Maitland sai do caixão apavorado, em busca de ar, e o plano todo degringola, com consequências trágicas. No último episódio, Drawn and Quartered, Moore (Tom Baker) é um pintor inglês pobre que vive no Haiti e descobre que seus parceiros o estão enganando. Procura, então, um mago vodu que lhe dá uma poção capaz de fazer seus quadros ganharem vida e matar um a um os traidores.


Terror e Loucura (Tales That Witness Madness, 1973)
Direção: Freddie Francis



Uma das minhas antologias de terror favoritas da Amicus. Em um moderno hospital psiquiátrico, o Dr. Tremayne (Donald Pleasence) recebe a visita do inspetor Nicholas (Jack Hawkins), que procura uma solução para quatro casos aparentemente insolúveis. No primeiro deles, Mr. Tiger, Paul (Russell Lewis), um garoto solitário com um companheiro imaginário — um tigre — leva seus pais, que já não se dão bem, a desentendimentos ainda mais sérios. No segundo caso, Penny Farthing, Timothy (Peter McEnery), proprietario de um antiquário, herda quinquilharias antigas de um tio sem saber que elas mudariam sua vida. A alma do tal tio Albert induz Timothy a andar em uma antiga bicicleta, que o transporta para o século passado, fazendo com que Timothy coloque a vida de sua esposa Ann Beatrice (Suzy Kendall) em perigo. Na terceira história, Mel, Brian Thompson (Michael Jayston) vive em aparente felicidade com sua esposa Bella (Joan Collins), até que um dia acha uma velha arvore morta no bosque e a traz para casa, atraído por sua forma e aparência. Da ao tronco o apelido carinhoso de Mel, acomodando a estranha e bizarra no centro de sua sala de estar. Cada vez mais atraido por Mel, Brian desperta o ciúme da esposa, que vai ficando em segundo plano devido à obsessão do marido por Mel. No último caso, Luau, a ambiciosa e elegante agente literária Auriol (Kim Novak) tenta seduzir seu cliente Kimo (Michael Petrovich), que se mostra interessado em sua bela e jovem filha Ginny (Mary Tamm). Auriol planeja um suntuoso luau a Kimo. Mas quem assume a organizaçao do luau é Keoki (Leon Lissek), sócio de Kimo. Na verdade, a festa será uma cerimônia secretamente armada por Kimo e seu sócio para assegurar à mãe de Kimo, que está morrendo, a passagem para o "paraíso". Por meio de um sacrifício a um deus havaiano, Kimo deve dedicar a morte de uma virgem à tal divindade. No epílogo, o filme caminha para um desfecho aterrador. No Brasil, chegou a ser lançado em vídeo com o nome Testemunha da Loucura.


Vozes do Além (From Beyond the Grave, 1974)
Direção: Kevin Connor



Com histórias baseadas nos contos do inglês Ronald Chetwynd-Hayes, nesta antologia Peter Cushing é o proprietário aparentemente inofensivo de um pequeno antiquário em Londres. Seu olhar misterioso e sub-reptício dá a dica de que boa coisa não há de sair de sua empoeirada loja. No primeiro episódio, The Gatecrasher, Edward Charlton (David Warner) compra um antigo espelho e o coloca em sua sala. Ao apresentá-lo aos amigos, durante uma reuniãozinha íntima, vê surgir o rosto de um morto dentro do espelho, que lhe diz que precisa de sacrifícios humanos. No segundo episódio, An Act of Kindness, Christopher Lowe (Ian Bannen) é o frustrado marido de uma dona de casa sempre insatisfeita e hostil. Sem o respeito da mulher e do filho, Lowe acaba passando mais tempo na rua, longe das cobranças de sua família. Numa dessas andanças, conhece Jim Underwood (Donald Pleasence), um pobre soldado aposentado que vive de vender fósforos e cadarços na porta do antiquário. Tentando impressionar o amistoso ex-soldado, Lowe conta que também fora um soldado muito bem condecorado. Para dar credibilidade à sua pequena mentira, rouba do antiquário uma antiga medalha do exército. A partir dali, Lowe fica amigo de Underwood e de sua solitária filha Emily (Angela Pleasence). O que o ingênuo Lowe não imaginava é que ele era muito mais o enganado do que o enganador. A terceira história, The Elemental, mostra Reggie Warren (Ian Carmichael) trocando a etiqueta de preço de uma caixinha de prata do antiquário e encontrando, logo que sai da loja, uma vidente, a Madame Orloff (Margaret Leighton), que lhe revela fatos estranhos. Na última sequência, The Door, o escritor William Seaton (Ian Ogilvy) adquire uma bela e antiga porta ornamental, de madeira entalhada, do antiquário. Instala a porta em seu escritório, mas descobre que ela, além de exercer grande fascínio sobre ele, também se abre para um misterioso mundo desconhecido.

O terror em episódios da Amicus - Parte 1


No comecinho dos anos 1970, um subgênero tornou-se muito popular entre os apreciadores de filmes de terror: o terror em episódios. A Amicus, produtora inglesa fundada pelos americanos Max Rosenberg e Milton Subotsky, especializou-se neste tipo de produção. Assim como sua rival, a também britânica Hammer, a Amicus explorava o terror e o fantástico. Quase sempre trabalhavam com os mesmos atores e diretores — que também  participavam das produções da Hammer, como Christopher Lee e Peter Cushing, e os diretores Freddie Francis e Roy Ward Baker. 


Os filmes eram divididos em episódios, com um fio condutor que costurava a trama. Quatro ou cinco histórias distintas, cada uma com duração média 20 minutos, eram apresentadas dentro de um contexto (um asilo, um manicômio, uma loja de antiguidades, uma casa etc.).

Por conta das sucessivas reprises nas madrugadas da televisão, entre as décadas de 1970 e 1990, essas antologias fizeram bastante sucesso no Brasil, embora, na maioria daz vezes, não chegassem a ser lançadas em vídeo aqui (provavelmente porque quando houve a explosão do VHS no Brasil, na década de 1980, esses filmes já estivessem datados). Fora da programação de TV há muitos anos, os filmes, apesar de hoje quase esquecidos, possuem uma fiel legião de fãs.

"A Casa Que Pingava Sangue" (1970)
"A Casa Que Pingava Sangue" (1970)

"Asilo Sinistro" (1972)
Modestos e até meio ingênuos se comparados às atuais produções de gênero, os filmes de terror em episódios da Amicus tinham um grande mérito: as histórias eram sempre sombrias, intrigantes e assustadoras. Não pelo que era mostrado, mas sim pelo que era contado, já que quase tudo era apenas sugerido, sem banhos de sangue explícitos nem carnificina. 

Foi na TV que descobri esses filmes, na adolescência, quando eles já faziam parte das velharias exibidas nas madrugadas das emissoras. Separei seis desses filmes, que considero ótimos. Neste primeiro post, três dessas pérolas esquecidas para os  admiradores do estilo.


A Casa que Pingava Sangue (The House That Dripped Blood, 1970)
Direção: Peter Duffell



Um dos melhores do gênero. O roteiro é de Robert Bloch, mesmo autor de Psicose (Psycho). Aqui, uma casa é a protagonista e o cenário para quatro histórias diferentes. Na primeira, Method for murder, o escritor de romances de terror Charles Hillyer (Denholm Elliott) e sua esposa são os inquilinos. O escritor é perseguido por um estripador, que se trata de um personagem criado por ele próprio para um de seus livros. Na segunda, Waxworks, Philip Grayson (Peter Cushing) e seu amigo Neville Rogers (Joss Ackland) impressionam-se com uma figura de um museu de cera, modelada à imagem da mulher do dono do museu, que decapita aqueles que por ela ficam fascinados. Na terceira história, Sweets to the sweet — minha favorita — o inquilino da casa é o viúvo John Reid (Christopher Lee), que se muda para lá com sua filhinha. Contrata uma babá para cuidar da garota, mas o que ele teme é que a filha tenha herdado da falecida mãe os poderes de feiticeira. Por isso mantém a garota reclusa. Na última história, The cloak, o veterano ator Paul Henderson (Jon Pertwee), de tanto aperfeiçoar-se em filmes de terror, acaba tornando-se um vampiro de verdade toda vez que usa uma capa comprada de um velho. Lançado em DVD no Brasil.


Contos do Além (Tales From The Crypt, 1972) 
Direção: Freddie Francis



Esta antologia foi baseada em cinco histórias em quadrinhos publicadas nas revistas Tales from the crypt e The vault of horror, na década de 1950. Cinco desconhecidos vão com um grupo turístico visitar velhas catacumbas. O que não se dão conta é de que estão todos mortos. Separados do grupo principal, encontram-se em uma sala com o misterioso guardião de uma cripta, que detalha como cada um deles morreu. Na primeira história, And all throught the house, Joanne Clayton (Joan Collins) assassina o marido na noite de Natal e é ameaçada por um psicopata vestido de Papai Noel. Em Reflection of death, Carl Maitland (Ian Hendry) abandona a família para fugir com a amante, mas sofre um terrível acidente de carro. Em Poetic justice, o bondoso velhinho Arthur Grimsdyke (Peter Cushing) suicida-se vítima das calúnias do vizinho milionário James Elliott (Robin Phillips), mas depois se vinga desse homem sem coração. Em Wish you were here, o inescrupuloso empresário Ralph Jason (Richard Greene) e sua mulher Enid (Barbara Murray) descobrem uma estatueta chinesa, que promete conceder a quem possuí-la a realização de três desejos. Mas os resultados são sinistros. Em Blind alleys, os cegos de um asilo, cansados de sucessivos maus-tratos, preparam uma macabra e intrincada vingança para o cruel administrador da instituição, o major William Rogers (Nigel Patrick).


Asilo Sinistro (Asylum / House of Crazies, 1972)
Direção: Roy Ward Baker



Neste aqui, mais uma vez, Robert Bloch escreveu o roteiro, com base em uma série de seus próprios contos. O Dr. Martin (Robert Powell) vai a um isolado manicômio, para uma entrevista de emprego com o Dr. Lionel Rutherford (Patrick Magee). O Dr. Rutherford revela seu plano pouco ortodoxo para determinar se Martin é adequado ao cargo de doutor da instituição. Um dos internos do manicômio é o Dr. B. Starr, o ex-chefe do asilo, que teria sofrido um colapso mental e passou a integrar o grupo de doentes. Martin então é desafiado pelo Dr. Rutherford a entrevistar os internos para descobrir qual deles seria o Dr. Starr. Pode ser um homem ou uma mulher. Se ele acertar, será contratado para o cargo. Martin entrevista um de cada vez, tentando adivinhar qual deles é, de fato, o Dr. Starr. Esse é o fio condutor da trama, que nos apresenta os pacientes "incuravelmente insanos". Na primeira história, Frozen fear, a interna Bonnie (Barbara Parkins) narra o complô para assassinar a esposa de seu rico amante Walter (Richard Todd). Mas o interesse da esposa de Walter por práticas de vodu acaba atrapalhando os planos dele com a amante. Na segunda história, The weird tailor, o alfaiate Bruno (Barry Morse) conta que se viu forçado a aceitar um pedido inusitado de um cliente, o Sr. Smith (Peter Cushing). Do contrário, seria despejado de sua loja caso não pagasse o aluguel em uma semana. O enigmático Sr. Smith encomendou um elaborado terno, que deveria ser confeccionado sob regras estritas com um misterioso tecido. Mas o trato não saiu como planejado. Em Lucy comes to stay, Barbara (Charlotte Rampling) relata a Martin que esteve em um asilo antes e, depois de sua alta, foi acompanhada de perto, em casa, pelo irmão George (James Villiers) e uma enfermeira. A entendiante recuperação é aliviada pelas visitas da espevitada amiga Lucy (Britt Ekland). Mas a influência de Lucy acaba sendo desastrosa. Na última sequência, Mannikins of horror, Martin entrevista o Dr. Byron (Herbert Lom), que está trabalhando na fabricação de um pequeno autômato, um robô em miniatura cuja cabeça é a imagem da sua própria, e mostra a Martin vários outros modelos. Byron explica que o interior do robô é orgânico, contendo inclusive uma versão em miniatura de suas próprias vísceras. Terminadas as entrevistas, Martin deve dar sua resposta o Dr. Rutherford. No Brasil, o filme foi lançado em VHS pela Globo Video. Recentemente saiu também em DVD aqui, com o nome O Asilo do Terror.


Páginas amareladas de um Brasil distante


Na década de 1940, a editora Saraiva desenvolveu um projeto para popularizar a leitura no Brasil. Nascia, assim, a Coleção Saraiva, "publicação mensal que constitui uma homenagem à memoria de Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva", fundador da firma, como era explicado nos próprios livros.




Com modesta divulgação na época, a iniciativa mostrou-se frutífera e atravessou as décadas de 1950 e 1960, com grande sucesso e representação para a cultura do país. Como já acontecia com a Editora Clube do Livro, a proposta da Saraiva era lançar livros de escritores brasileiros e estrangeiros, com recursos gráficos de qualidade e preços acessíveis. Brochura, papel imprensa e distribuição em larga escala: com essa fórmula, autores importantes e bem conhecidos como Alexandre Dumas, Voltaire, Dostoivéski e José de Alencar misturavam-se a nomes mais novos como Maria José Dupré, Orígenes Lessa, Lucia Miguel Pereira e Alberto Leal. 



Uma vez por mês, a partir de julho de 1948, era comercializado um livro pelo então moderno sistema de assinaturas. O primeiro foi O Rei Cavaleiro, do historiador e ensaísta Pedro Calmon, sobre a vida de D. Pedro I. A coleção chegou a mais de 230 títulos diferentes, com capas de forte apelo popular, coloridas, criadas em sua maioria pelo ítalo-brasileiro Nico Rosso, ilustrador e desenhista de histórias em quadrinhos. Inicialmente ele dividia a tarefa com outros profissionais, mas a partir de 1949 tornou-se o capista exclusivo da coleção, que duraria até 1972.

Nico Rosso


Charles Dickens, Machado de Assis, Máximo Gorki, Raul Pompéia, Malba Tahan, Oscar Wilde, Robert L. Stevenson, José de Alencar, Assis Brasil, Honoré de Balzac... São centenas de autores, dos mais diversos, pelos quais se tem uma ideia da qualidade das obras que eram publicadas. 

Os exemplares tinham tiragens de até 50 mil livros — número altíssimo para a época — e leitores de várias classes sociais. Vale lembrar que as livrarias daquele tempo nem de longe assemelhavam às megastores de hoje e tampouco contavam com a infinidade de títulos nacionais e estrangeiros disponíveis atualmente. O público leitor também era menor, razão pela qual a Coleção Saraiva teve um papel importante na popularização desse hábito no Brasil. Além de destacar autores clássicos, os nacionais ganharam visibilidade.



Títulos hoje muito conhecidos como Éramos Seis (Maria José Dupré) e O Feijão e o Sonho (Orígenes Lessa) ficaram conhecidos graças à popularidade da coleção. Outros perderam-se no tempo, mas constituem um retrato precioso do período, como Confidências de Dona Marcolina (Galeão Coutinho), Em Surdina (Lucia Miguel Pereira), Sedução da Europa (Cassiano Nunes), O Banco de Três Lugares (Maria de Lourdes Teixeira), A Ladeira da Memória (José Geraldo Vieira) e muitos outros, hoje praticamente esquecidos ou fora de catálogo. Acho particularmente fascinante mergulhar nesse universo de obras que perderam-se no tempo. Fica a dica para os ratos de sebo, neste mês em que a Coleção Saraiva completaria 68 anos.