Segredos femininos


Amizades, Segredos e Mentiras (Friendships, Secrets and Lies) estreou na tevê americana em 3 de dezembro de 1979, no canal NBC, e foi alardeado como "o primeiro filme para a tevê com elenco e equipe de criação formados totalmente por mulheres". Não há um só homem visto entre os personagens do filme, nem entre os figurantes. 


Baseado no romance The Walls Came Tumbling Down, de Babs H. Deal, escrito uma década antes, o filme é o produto típico de uma época em que grandes transformações começavam a acontecer para as mulheres. A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres ganhava força, tanto profissional como socialmente, e a mulher divorciada começou a ser menos vista como um tabu. (Aqui no Brasil, também em 1979, estreou na tevê o seriado Malu Mulher, que tornou-se emblemático sobre esse assunto e fez enorme sucesso.)

O romance, publicado originalmente em 1968

Apesar de tratar-se de um drama, a história guarda um mistério que permeia todo o filme. Em uma pacata cidadezinha, quando o antigo prédio de uma irmandade — a Casa Kappa, da Universidade de Arconia — é demolido, o esqueleto de um bebê é encontrado na ventilação do edifício. Com a ajuda da perícia especializada, fica determinado que o bebê provavelmente fora jogado ali há cerca de 20 anos. Como a ventilação do prédio só foi aberta uma única vez nesse período, a dedução da época em que o crime foi cometido fica ainda mais precisa. Na ocasião, somente seis moças estavam nas dependências da irmandade, durante aquele verão.


Todas elas ainda vivem na mesma cidadezinha. A notícia causa alvoroço e as fofocas se espalham pelo lugar. Na verdade, apesar de terem estudado juntas e convivido por um bom tempo, não chegaram a ser amigas íntimas. Agora, já maduras, as seis mulheres acabam se reaproximando e remexendo nos respectivos passados. Antigas mágoas, desafetos, inseguranças, sonhos e lembranças afloram, ameaçando a união do grupo e afetando a vida particular de cada uma: Martha (Cathryn Damon), Maria Alice (Shelley Fabares), Joana (Tina Louise), Edith (Stella Stevens), Sandy (Paula Prentiss) e Ruth (Loretta Swit). O elenco, cheio de nomes conhecidos dos telefilmes americanos, conta ainda com Sondra Locke no papel de Jesse, a jovem repórter que põe lenha na fogueira e pretende descobrir qual das mulheres foi a responsável pelo “crime” de 20 anos atrás.

Em sentido horário: Martha, Maria Alice, Edith e Joana
Sandy (à esquerda) e Ruth 

Jesse
Martha, recém abandonada pelo marido, que a trocou por uma mulher bem mais jovem, é a chefe de Jesse no jornal local. Joana, mãe de uma adolescente, é uma viúva bonita e neurótica, que se entrega à bebida para aliviar a dor de sua vida vazia. Sandy é uma despachada professora de balé, moderna, com humor ácido e divorciada, que cria sua pequena filha sozinha. Edith, ingênua e meio infantil, dona de uma salão de beleza, é casada há vários anos com o mesmo homem, que quando bebe a espanca. Ruth é a mais centrada de todas; mãe de uma penca de crianças, adora a função de cuidar dos filhos e do lar e é compreensiva, amiga e ponderada. E, por fim, a reservada Maria Alice, que trabalha numa loja de roupas e tem uma vida sobre a qual as amigas pouco sabem.


A temática do grupo de amigas dos tempos do colégio que se reencontram 20 anos depois e relembram o passado (com consequências no presente) lembra bastante o enredo da novela Elas por Elas, de Cassiano Gabus Mendes, exibida pela Globo em 1982. Será que Cassiano assistiu ao filme na época? As similaridades levam a crer que isso não está fora de cogitação. Mas Amizades, Segredos e Mentiras também funcionaria bem nas mãos de Manoel Carlos.

Arte da novela Elas Por Elas (1982)

Arte do filme Amizades, Segredos e Mentiras (1979)
No quesito mistério, o filme cumpre sua função. A autora do aborto só é revelada nos minutos finais e é quase impossível descobrir qual delas cometeu o crime, já que as pistas apontam para diversas direções. Mas, se por um lado a ideia de fazer um filme só com mulheres foi algo inovador e ousado na época, por outro, trouxe certas limitações. Um exemplo: na cena em que o marido de Edith a espanca, não vemos o marido, apenas Edith gritando e chorando, enquanto cai  e se esgueira pelos cantos da sala. Vemos a atriz olhar para a câmera, como se estivesse confrontando o marido, cambalear para fora do campo de visão da câmera, quando apenas ouvimos os barulhos dos tapas do marido (que nunca é visto ou ouvido), e depois a atriz reaparece novamente no ângulo da câmera, agora com as marcas do espancamento.

Edith (Stella Stevens) apanha, mas não vemos o marido agressor

Tirando alguns poucos momentos incômodos como esse, o filme suscita boas discussões, do ponto de vista feminino. Mesmo que alguns assuntos soem datados hoje, outros ainda permanecem polêmicos, como o aborto.



Bem recebido de maneira geral, Amizades, Segredos e Mentiras também despertou críticas pouco condescendentes, como essa do jornal The Milwaukee Sentinel de 1.º  de dezembro de 1979:

O elenco e a equipe de produção, ambos só de mulheres, tentaram modelar uma história de mistério com uma mensagem sobre compaixão, novos papeis sociais para as mulheres, igualdade e amadurecimento. Mas só conseguiram criar uma produção descuidada, cheia de diálogos vazios, caracterizações bidimensionais e situações totalmente irreais. (Greg Moody)

E essa outra, do Lakeland Legender de 3 de dezembro de 1979: 

Dirigido por Ann Zane Shanks e Marlena Laird, o filme não consegue evitar algumas cenas ridículas. Em uma delas, a personagem de Tina Louise, devastada, perambula pelo salão de beleza no que parece ser a cena da loucura de Ofélia, ao que a amiga pergunta, docemente: "Tem certeza de que você está bem?". (...) (John O'Connor)

Joana (Tina Louise): "Tem certeza de que você está bem?" 
O filme é hoje muito raro e já está fora da grade de programação das tevês mundo afora há vários anos. Eu o assisti na extinta Rede Manchete, em 1994, e o gravei na ocasião. Muitos anos depois, mandei passar a fita para DVD, antes que se deteriorasse de vez. Graças a isso, vez por outra, assisto a essa deliciosa obscuridade da tevê. Como diz uma das próprias personagens do filme: "Às vezes é preciso encobrir as coisas. Um dia a gente tira pra fora, antes de guardar de novo e, dessa vez, para sempre."



Vidas roubadas, noivas no mar, mulheres de areia...



Já dizia o químico francês Lavoisier: "Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma". No cinema e na tevê também é assim. Vira e mexe romances, dramas, guerras, tragédias e comédias são refilmados, remodelados, adaptados ou modernizados. A novela Mulheres de Areia é um ótimo exemplo de remake que deu muito certo. Tão certo que já está em sua quarta exibição e continua mobilizando o público e fazendo sucesso. Atualmente no canal Viva, a novela de Ivani Ribeiro foi exibida pela Globo em 1993 e se tornou um dos maiores sucessos do horário das seis. Mas era, na verdade, um remake da novela originalmente apresentada na TV Tupi, em 1973, também com grande sucesso.

Voltando ainda mais no tempo, mesmo a primeira versão da novela não teve um enredo totalmente original. Ivani Ribeiro usou como inspiração o filme Uma Vida Roubada (A Stolen Life), de 1946, estrelado por Bette Davis e dirigido por Curtis Bernhardt. O longa, por sua vez, era uma refilmagem de Stolen Life, produção britânica de 1939 dirigida por Paul Czinner. Acontece que mesmo a primeira versão era baseada no livro Uloupeny Zivot, romance do escritor tcheco Karel J. Benes (1896–1969), publicado em 1935. Ou seja, difícil saber quando se originou a ideia da trama de gêmeas com identidades trocadas. Como é possível ver, quanto mais voltamos no tempo, mais nos deparamos com o remake do remake.

O livro (à esquerda) e a primeira versão do filme (à direita)
Uma Vida Roubada é um filme marcante na carreira de Bette Davis, embora seja constantemente ofuscado por outros mais comentados e lembrados. Foi seu último grande sucesso da década de 1940 e o também o último filme da atriz a dar lucro para a Warner Brothers (durante o contrato de Bette com o estúdio, de 1932 a 1949).


Bette não quis fazer Alma em Suplício (Mildred Pierce, 1945). Joan Crawford topou, ganhou um Oscar e reergueu sua carreira, que na época andava meio em baixa. Bette preferiu estrelar Uma Vida Roubada. Com esse filme, realizou uma se suas maiores ambições: interpretar um papel duplo que lhe dava a oportunidade de ser tanto boa quanto má.

Sempre lutando por mais qualidade nas produções dos filmes e dos roteiros, a atriz pediu a Jack L. Warner (presidente da Warner Bros.) que a deixasse ser a produtora do filme — função até então inédita em sua carreira. Por um lado, era uma forma de Bette controlar todos os detalhes do processo de produção e, por outro, um reconhecimento dos Warner aos milhões que a atriz lhes trouxera nos últimos sete anos. 

Bette Davis como as gêmeas Kate e Pat em Uma Vida Roubada (1946)


O enredo era irresistível: Bette Davis interpretou as gêmeas Kate e Pat. A doce e meiga Kate se apaixona por Bill (Glenn Ford), um homem simples, de bom coração e sem grandes ambições. Mas é a ardilosa e sedutora Pat quem manipula a situação e desperta o interesse do rapaz, casando-se com ele. Kate, covardemente, se retrai e entra em depressão. Até que, um dia, passeando de barco juntas, as duas sofrem um acidente no mar, durante uma tempestade inesperada. Pat morre e Kate sobrevive. Confundida com Pat, Kate acaba assumindo o lugar da irmã e passa a viver sua paixão por Bill.

Glenn Ford e Bette Davis em Uma Vida Roubada
A produção era complicada e o estúdio ficou surpreso por Bette querer produzir seus próprios filmes. Julgavam que ela seria incapaz de enfrentar todos os grandes problemas. Tais problemas incluíam o espantoso total de trinta e seis cenários, um farol construído em Laguna Beach, três scripts combinados e uma cena assustadoramente difícil numa tempestade durante a qual a irmã perversa morre afogada. Sem falar no problema de combinar as tomadas nas quais uma das gêmeas acende o cigarro da outra, ou lhe afaga os cabelos. Herb Lightman [que foi cineasta e editor da American Cinematographer Magazine] explica de que modo o diretor de fotografia Sol Polito conseguiu o que queria:
"A cena de Bette acender o cigarro da outra gêmea era conseguida fazendo a Srta. Davis interpretar a cena diante de uma doublée, que lhe acendia o cigarro e fazia os outros movimentos a curta distância. Posteriormente, o rosto da doublée era 'apagado' e a cabeça da Srta. Davis literalmente colocada em seus ombros." (Bette Davis, de Charles Higham. Francisco Alves Editora, 1983)

Bette se dava muito bem com a roteirista Catherine Turney e chegou a colaborar com vários toques no roteiro. "Tínhamos intermináveis conversas no camarim de Bette a respeito de cada cena", disse Turney. "Às vezes o pessoal da equipe se zangava, porque não sabia o quanto de bom resultava dessas conversas. Curt [o diretor] concordou conosco em que deveríamos mostrar profunda motivação nos personagens. Não conservamos nada da primeira versão do filme, exceto a cena em que o cão não reconhece a gêmea boa, que se faz passar pela irmã perversa depois que esta morre afogada."


Mesmo com todas as limitações técnicas da década de 1940, o efeito das gêmeas na tela é convincente e muito bem executado, associado à interpretação impecável de Bette Davis. O resultado foi notável.

O maior problema do filme foi a grande cena da tempestade. Bette e sua doublée, Sally Sage, tinham que embarcar num barco que era sacudido por fios amarrados no fundo de um profundo tanque no estúdio. O tanque estava cheio de água agitada por enormes máquinas de vento que provocavam ondas de cinco metros de altura. As dimensões do tanque eram as de uma piscina olímpica. Bette e Sally não só precisavam agarrar-se ao barco, como também Sally era obrigada a manter-se de costas para a câmera, a fim de permitir as tomadas sincronizadas. (Bette Davis - Charles Higham. Francisco Alves Editora, 1983)

Com ritmo ágil e vigoroso, Uma Vida Roubada contém dois grandes desempenhos de Bette Davis. A atriz transita entre as duas personagens com impressionante desenvoltura, sem apelar para exageros nem histrionismos. Sua arma foi a sutileza na interpretação, diferentemente da imagem normalmente a ela associada, de geniosa e intempestiva. Infelizmente a Academia fez vista grossa para o grande desempenho da atriz no filme, que estreou há exatos 70 anos. Uma Vida Roubada recebeu apenas indicação para o Oscar de efeitos especiais. 


Ivani Ribeiro, uma das maiores autoras de novelas do Brasil, inspirou-se no filme para escrever Mulheres de Areia. Mas também aproveitou a ideia de uma radionovela de sua autoria, transmitida na década de 1950: As Noivas Morrem no Mar. Mais uma mostra de que as ideias estão sempre sendo recicladas e reaproveitadas.


Quando Mulheres de Areia estreou na Tupi, em março de 1973, ninguém imaginava que a novela entraria para a história da teledramaturgia brasileira. A crítica da Veja de 16 de maio daquele ano atestava isso ao reconhecer o êxito da trama:

“Os ingredientes  usados por Ivani Ribeiro em Mulheres de Areia, na Rede Tupi, não prometiam nada, mas absolutamente nada de diferente. As previsões de mais uma novela inofensivamente boçal, no entanto, falharam. Bem trabalhados por um grupo de atores de primeira categoria, os ingredientes resultaram numa trama razoavelmente densa de problemas emocionais, econômicos e sociais, que aos poucos vai reconquistando o antigo público das novelas das 20 horas, irremediavelmente perdido para a Globo.”

Eva Wilma em Mulheres de Areia (1973)
O casamento de Marcos (Carlos Zara) e Raquel (Eva Wilma)


Em outro trecho, a matéria explicava a sinopse: 

(...) Ivani, em Mulheres de Areia, conta a história de Virgílio Assumpção (Cláudio Correia e Castro), poderoso industrial paulista que interfere drástica e despoticamente na vida de seus filhos: Marcos (Carlos Zara) e Malu (Maria Isabel de Lizandra). Cleide Yáconis, no papel de esposa do poderoso déspota, Gianfrancesco Guarnieri, como Tonho da Lua, um gago neurótico, aparentemente retardado, e Eva Wilma, interpretando ao mesmo tempo os dois papeis das irmãs gêmeas Ruth — a boa e meiga — e Raquel — a má e ambiciosa —, completam o elenco principal. 

Marcos (Carlos Zara), Tonho da Lua (Gianfrancesco Guarnieri) e Ruth (Eva Wilma)

Ruth e Raquel (Eva Wilma)

Edson Braga, diretor da novela, explicou à revista como se dava o processo de filmagem e edição:

"A gente coloca uma espécie de cortina tapando a fita que está sendo gravada, e então só grava metade do tape. Depois, reconstitui-se o mesmo cenário, Eva troca de papel e, do mesmo ângulo, grava-se o outro lado da fita. Nas cenas em que Eva,  interpretando Raquel ou Ruth, tem que tocar no ombro da irmã, usamos um dublê, que aparece sempre de costas".



No final daquele mesmo ano, a Folha de S. Paulo também reconheceu o sucesso e a qualidade da novela:

(...) Conclusão: Mulheres de Areia é indiscutivelmente a telenovela líder de audiência no horário, e essa liderança, conquistada numa estação (Tupi) que estava totalmente por baixo em matéria de audiência, só pode ser resultado de um trabalho plenamente satisfatório para o público: da autora, Ivani Ribeiro, dos atores, Guarnieri, Zara, Lizandra e principalmente Eva Wilma. (Folha de S. Paulo, 11 de dezembro de 1973)

Quando o filme Uma Vida Roubada foi exibido na tevê, pela Tupi, em 1978, a sinopse do jornal foi a seguinte:

Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada (10 de abril de 1978)

Vinte anos depois, Ivani Ribeiro reescreveu Mulheres de Areia para a TV Globo e repetiu o sucesso da versão original. Dessa vez, a autora incorporou a trama central de outra novela sua, O Espantalho, exibida pela Rede Record em 1977. "As histórias de amor são eternas. Muda apenas o jeito de contá-las", explicou Ivani Ribeiro, em entrevista à Folha de S. Paulo de 1º de fevereiro de 1993. "Qualquer folhetim perdura se os sucessivos narradores mesclarem o conflito passional com temas contemporâneos e atualizarem os traços psicológicos dos personagens."

Ivani Ribeiro
Ruth e Raquel (Gloria Pires) no remake de Mulheres de Areia (1993)

Marcos Frota e Gloria Pires em Mulheres de Areia (1993)

Feitos os devidos ajustes e atualizações, o conflito das gêmeas Ruth e Raquel novamente prendeu a atenção do público e fascinou os telespectadores. A matéria da Folha explicou: 

Em 1973, quando escreveu a primeira versão de Mulheres para a TV Tupi, a mesma Ivani fez as irmãs cruzarem o caminho de Marcos. Fez Marcos — bonito, rico, romântico — se apaixonar por elas. E fez da paixão motivo de disputa entre as duas. Exatamente como na versão global. A diferença é que, durante os anos 70, Ruth parecia a madre Tereza de Calcutá e Raquel, um Saddam Hussein de saias. Agora, nem Ruth é tão boa assim, nem Raquel tão má.
"Abandonei o maniqueísmo dos contos de fada e humanizei as gêmeas. Hoje, o público já não acredita em personagens inteiramente bons ou ruins", diz Ivani. Seguindo tal raciocínio, a escritora recheou a nova Mulheres com bofetões de Ruth em Raquel. "Há duas décadas, o máximo que faria era chorar no quarto."
O "lado positivo" de Raquel se manifestará principalmente nas cenas com a mãe, Isaura. "Em 1973, Raquel maltratava a mãe. Agora, vai respeitá-la profundamente", afirma Ivani.
"Ruth se revelará tímida, caseira, meiga. E Raquel, extrovertida, carismática, sensual", define a autora.

Também em 1993, a autora deu uma entrevista para uma edição especial da revista Contigo!, inteiramente dedicada à Mulheres de Areia. Ao ser perguntada sobre o porquê de a novela ter feito tanto sucesso, Ivani respondeu:

Bem, acredito que a trama é perfeita e mexe com o emocional de todo mundo. A espinha dorsal é a familia: duas irmãs, a mãe, o pai. Os conflitos nascem aí... São universais. A partir desse núcleo, comum a qualquer telespectador, parti para uma história de amor. Tudo isso sem deixar de lado o realismo. 
O sucesso não estaria ligado simplesmente ao recurso folhetinesco das gêmeas idênticas?
— Claro que não. Seria muito fácil criar histórias com outros gêmeos, com sósias, pessoas semelhantes. Antes de mais nada, é bom lembrar que o público nao acredita mais em qualquer trama. É preciso ter uma excelente espinha dorsal, compor personagens que se identifiquem com o inconsciente coletivo, com as fantasias dos telespectadores. Desde quando comecei a reescrever a novela, sabia que a magia de Ruth e Raquel era irresistível. Mas só isso não sustentaria Mulheres de Areia. Foi então que pensei na aldeia dos pescadores, no Tonho da Lua… (Especial Contigo! - Mulheres de Areia, 23/08/1993)

Segundo a amiga e colaboradora Solange Castro Neves, o segredo da permanência das obras de Ivani estava no fato de "as tramas de Ivani não terem idade, porque são simples. Retratam o cotidiano do cidadão comum". (Jornal do Brasil, 19 de julho de 1995)

Gloria Pires e a dublê Graziela de Laurentis se preparando para as gravações
A tecnologia também ajudou no remake de Mulheres de Areia, embora a produção tenha sido muito trabalhosa. Antes da estreia, a revista TV Programa, do Jornal do Brasil, trouxe uma prévia de como andavam as gravações da novela, mostrando o casamento de Raquel e Marcos, em que Ruth era a madrinha:

Aqueles poucos minutos que serão vistos no capítulo 26 — a novela deve esterar dia 2 de fevereiro — custaram 11 horas de gravação na Capela da Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Urca. O truque funciona mais ou menos assim: quando as gêmeas Ruth e Raquel, interpretadas pela mesma Glória Pires, precisam dividir o espaço, entram em cena o diretor Carlos Magalhães, responsável pela técnica de unir as duas, e a atriz Graziela de Laurentis, dublê de Glória Pires. "Não sou exatamente dublê. Tenho que decorar todos os textos e contraceno com a Glorinha", corrige Graziela, escolhida pela semelhança com a estrela. "Onde tem Ruth e Raquel, eu estou junto", arremata ela que, no entanto, nunca aparece de frente ou mostra a voz.
(...)
A cena em que Raquel está ajoelhada no altar ao lado do noivo Marcos (Guilherme Fontes), sob o olhar da irmã Ruth, foi gravada primeiro com Graziela vestida de branco. A câmera focalizou a dublê de costas e de perfil, enquanto Glória, num vestido pêssego de Ruth, assistia ao casamento do altar, de frente para a irmã. Encerrada esta etapa, Glória Pires trocou de roupa, voltou vestida de noiva para repetir os mesmos movimentos de Raquel ao lado de Marcos, também em cena. Esta parte, em que é mostrado o rosto da noiva, foi gravada em cromakey, isto é, um fundo azul que permite misturar duas cenas, transformando-as numa só, dando a impressão de que Glória Pires se desdobrou em duas, ocupando lugares diferentes ao mesmo tempo. (TV Programa - Jornal do Brasil, 8 de janeiro de 1993)
Raquel (Gloria Pires) e Marcos (Guilherme Fontes) em Mulheres de Areia (1993)

Além do sucesso aqui no Brasil, ao ser exportada a novela também caiu no gosto dos telespectadores de outros países (mais de 60), a ponto de influenciar o cotidiano e até a política, como explica o especialista em teledramaturgia Mauro Alencar:

“O remake de Mulheres de Areia tornou-se forte arma politica  nas disputadas eleições russas. Boris Yeltsin programou a exibição de um capítulo gigantesco, com três horas de duração, para tentar impedir que seus eleitores viajassem para suas casas de campo (onde geralmente não há televisores) e deixassem de comparecer às urnas. A estratégia deu certo, e a novela estrelada por Gloria Pires ajudou o candidato de Yeltsin a se reeleger com uma diferença de mais de seiscentos mil votos.” (A Hollywood Brasileira - Panorama da telenovela no Brasil, de Mauro Alencar. Senac Rio, 2002)


O filme Uma Vida Roubada, baseado em um livro, ganhou um remake que o eternizou. Mulheres de Areia, baseada em uma radionovela, que por sua vez foi inspirada em um livro, também ganhou um remake que a colocou entre as telenovelas brasileiras de maior sucesso. Prova de que, quando uma história é boa e bem produzida, não importa quanta vezes seja recontada ou reprisada: vai sempre agradar.


Twin Peaks 25 anos depois


Há exatos 25 anos Twin Peaks chegava à televisão brasileira. No domingo, 7 de abril de 1991, a Globo começou a exibir a série que havia se tornado a grande febre da tevê americana no ano anterior. 



A crítica da Folha de S. Paulo (9 de abril de 1991) não poupou elogios, dizendo que a dosagem de tensão, excentricidade, trevas, sexo e humor era perfeita. "A avaliar pelo piloto da série, apresentado anteontem, essa combinação foi engendrada pelo diretor David Lynch com tal entusiasmo e sofisticação artística que simplesmente reduz a cinzas tudo o que antes se fez no terreno da soap opera".

A matéria de duas páginas que a Veja de 17 de abril de 1991 dedicou à série não foi menos elogiosa:

(...) Um programa estupendo, que subverteu os padrões da televisão americana ao apostar no sucesso de uma história enigmática, sombria, povoada de personagens bizarros, mas nem por isso menos fascinantes.
(...)
Uma outra novidade é a postura de David Lynch em relação a seus personagens. Sexo, drogas e algum tipo de rock 'n' roll social fazem parte de qualquer folhetim que se preze. A diferença é que, em Twin Peaks, não se julgam os personagens — apenas se expõe seu comportamento esquisitíssimo como se fosse a coisa mais natural do mundo.


A crítica da Veja foi bem acertada em suas avaliações e previsões:

Mesmo com o talento do diretor e com todos os ingredientes fabulosos da trama, é pouco provável que Twin Peaks repita, no Brasil, o sucesso alcançado nos Estados Unidos — depois do crime solucionado, Lynch esticou, a pedidos,  a minissérie em mais doze novos episódios. (...) Importados a peso de ouro pelas redes brasileiras, seriados famosíssimos como Dallas, Dinastia ou Miami Vice também não conseguiram repetir aqui a carreira de sucesso que tiveram nos Estados Unidos e na Europa.
(...)
A explicação para esse fenômeno é bem mais simples que a trama de Twin Peaks. Há quarenta anos, a televisão brasileira vem produzindo seriados e novelas segundo uma linguagem própria, que é diferente da americana. (...). Mesmo que não venha a fazer um tremendo sucesso, Twin Peaks deixa pelo menos um legado importante. Em meio à maior crise de criação de toda a história da televisão brasileira, o seriado serve como um exemplo de que é possível fazer algo inteligente sem perder audiência. Basta ter talento.

A verdade é que, exibida aos domingos, depois do Fantástico, Twin Peaks sofreu bastante aqui no Brasil. Teve episódios reeditados pela Globo, erros de dublagem e vários cortes (inclusive de capítulos inteiros), para grande decepção do público brasileiro. (Mais informações no post que escrevi há quatro anos.)


Enquanto isso, nos Estados Unidos, a série se aproximava do fim. Pressionados pela ABC, David Lynch e Mark Frost foram obrigados a revelar a identidade do assassino no sétimo episódio da segunda temporada. A partir dali, o público perdeu o interesse e a série se perdeu, apoiada apenas em subtramas irrelevantes. Em junho de 1991, dois meses após ter estreado no Brasil, Twin Peaks chegou ao final nos Estados Unidos.

Jornal do Brasil (13 de junho de 1991)

“Gosto da ideia de uma história contínua, que atrai a pessoa para um universo mais profundo. Entretanto, o assassino de Laura Palmer não era para ser descoberto. O objetivo era ter o mistério flutuando permanentemente sobre a ação”, declarou Lynch em 1997. “Assim que foi desvendado, algo se perdeu.”

Para deixar as coisas ainda mais confusas, o episódio piloto de Twin Peaks foi lançado em VHS no Brasil antes da estreia da série na Globo. Mas essa versão em VHS não corresponde exatamente ao primeiro capítulo como foi visto na tevê. Artur Xexéo explicou na crítica publicada no Jornal do Brasil de 4 de outubro de 1990: “O vídeo que a Warner está colocando à disposição das locadoras nacionais traz basicamente o piloto de 105 minutos que lançou o programa na [emissora] ABC. Mas ele não termina como um primeiro capítulo de novela. David Lynch filmou algumas cenas adicionais para dar uma sensação de conclusão a esta versão em vídeo. Mas nada em Twin Peaks é muito conclusivo. Nem quando David Lynch quer.”



A Veja de 17 de outubro de 1990 também trouxe uma resenha do lançamento: "Ocorre que o Twin Peaks do vídeo lançado agora no Brasil guarda pouco do encanto da série americana. Ele é uma adaptação do piloto da série, feito para exportação, em que a história resulta sem pé nem cabeça. O que nos Estados Unidos foi contado em um piloto e seis capítulos, no vídeo é resumido de forma atabalhoada. Enquanto os americanos passaram dois meses se perguntando sofregamente "Quem matou Laura Palmer" — a personagem-chave da trama —, diante do vídeo fica-se logo sabendo quem é o assassino, só que não se tem a menor ideia do motivo do crime. A fita serve apenas para se ter uma ideia do estilo inovador de Lynch.”

O VHS lançado no Brasil pela Warner
O Guia Especial 1994 (editora Azul, 1994), da revista Set, por sua vez, deu crédito ao lançamento da fita: “A versão em vídeo traz o episodio piloto com um final diferente, misturando o famoso sonho do agente Cooper (do capítulo três) com cenas inéditas, um desfecho falso e incompreensível. Ainda assim, um programa obrigatório — principalmente para os fãs que tiveram de aturar, na TV brasileira, uma dublagem e uma tradução simplesmente escabrosas.”

O guia Vídeo - O Dicionário dos Melhores Filmes (Nova Cultural, 1995), também reconheceu o mérito da fita, mas concluiu: “É provavelmente um filme para amar ou odiar. Não tente entender o final, que faz parte de episódio posterior.”

Em 1992 David Lynch lançou o longa Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk With Me), que também não desvendou nenhum mistério. Pelo contrário, acrescentou outros. Mas mostrou com detalhes o que não podia ser mostrado na tevê: a última semana na vida de Laura, que culminou em seu brutal assassinato. Mas, ao contrário da série, o filme foi um fracasso. Talvez por ter sido lançado após o fim da série, quando não havia mais o interesse do grande público e Twin Peaks já havia perdido o fôlego. Ou então por ser incompreensível para quem não acompanhou o seriado. (Até para quem viu a série, o filme não é facilmente digerível.)

“No entanto, trata-se de um excelente exemplar da obra de Lynch, contendo todos os elementos marcantes de seu universo particular. Recheado de passagens de sonhos, personagens estranhos, ambientes bizarros e imagens bastante perturbadoras, a narrativa é intrigante e misteriosa. O elenco todo trabalha um pouco acima do tom, beirando o exagero, algo que se torna bastante funcional no conjunto, a fim de constituir quase uma realidade paralela na fictícia cidade de Twin Peaks.” (Fernanda Teixeira, “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer”. David Lynch - O Lado Sombrio da Alma. CAIXA Cultural Brasília, janeiro de 2015)

Felizmente as novas gerações que pegaram a era do DVD desde cedo não passaram pela frustrante experiência de ter que esperar anos para poder assistir à Twin Peaks na íntegra. Em 2004 a Paramount lançou um box com a primeira temporada e, em 2007, outro box com a segunda e última. Com isso, quem estava esperando desde 1991 (como foi o meu caso) para desvendar o mistério de Laura Palmer pôde, finalmente, respirar aliviado.





Edições especiais da série foram depois lançadas em outros boxes de DVDs e blu-ray. Para 2017, a tão esperada terceira temporada de Twin Peaks deve se tornar realidade, 26 anos após seu último episódio. As filmagens já estão em andamento, mas nada se sabe ainda sobre os detalhes dessa nova safra.


Com todo o burburinho que a nova temporada vem causando nas redes sociais, a editora Globo pegou carona no revival da série e relançou O Diário Secreto de Laura Palmer, livro escrito por Jennifer Lynch, filha de David Lynch. Lançado originalmente em 1991 pela Globo Livros, o Diário se tornou um ícone entre os adolescentes dos anos 1990 e agora ganhou também versão digital. É o relato, em primeira pessoa, dos acontecimentos marcantes da vida de Laura desde os 12 anos até os dias que antecedem sua morte. Não desvenda o mistério da série. Serve como complemento. "É melhor do que se poderia esperar de um texto escrito às pressas, no embalo do sucesso de uma série de TV." (Folha de S. Paulo, 26 de maio de 1991) 

O Diário em 1991 e a reedição atual
A série segue com uma enorme legião de fãs fieis, tanto antigos como novos, tornando-se cultuada  desde então. Mas a resposta para a pergunta "Quem matou Laura Palmer" ainda intriga muita gente. David Lynch, à sua moda surreal, justifica: “Em Hollywood, toda história é compreendida em seus mínimos detalhes. Mas a vida real é extremamente complicada, então deveria ser permitido aos filmes essa mesma complexidade.”


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Em tempo: O Igor Leoni, do site Twin Peaks Brasil, lembrou que a TV Record também exibiu a série, mas na íntegra, de 1993 a 1995. E ainda foi exibida no extinto canal a cabo TeleUno (que se tornou AXN a partir de 1999).