Embalos de uma trilha eterna


Os Bee Gees nos anos 1960
Não me canso de falar sobre Os Embalos de Sábado à Noite, um dos meus filmes favoritos. Com a trilha sonora, imortalizada pelos Bee Gees, não poderia ser diferente. O curioso é que pouco antes do filme, o grupo estava em baixa. Os irmãos Gibb — mais conhecidos como Th Bee Gees — haviam experimentado o doce (e também amargo) sabor do sucesso, no final da década de 1960, com uma série de hits: New York Mining Disaster 1941, To Love Somebody, Massachusetts, Words, I've Gotta Get a Message to You e vários outros. A partir do começo da década de 1970, o sucesso deu os primeiros sinais de diminuição. As divergências entre os irmãos começaram a prejudicar o andamento do grupo. Brigas à parte, continuaram gravando e lançando discos. Canções românticas e baladas melancólicas compunham o repertório do grupo. Por volta de 1974, o trio não causava mais a euforia de antes. "Vale lembrar que, àquela altura, estávamos praticamente acabados", explicou Barry Gibb, líder do grupo, em 2007. "O som dos Bee Gees já estava gasto. Precisávamos achar algo novo."

Uma inesperada reviravolta mudou definitivamente não só a história dos Bee Gees, como também da própria cultura de massa mundial. Robert Stigwood, empresário do grupo, trabalhava na produção de um filme, marcado para estrear em 1977 e inspirado em um artigo da revista New York, publicado em junho de 1976 pelo jornalista Nik Cohn. Mas até aquele ponto, com as filmagens já em andamento, o longa não tinha título definido e nem trilha sonora. Stigwood, então, encomendou aos Bee Gees as canções.

Robert Stigwood (camisa listrada) e os Bee Gees
De uma tacada só, o grupo compôs e gravou Stayin' Alive, Night Fever e More Than a Woman. "Saturday Night [Noite de sábado]. Esse era o nome do filme até que os Bee Gees incluíram na trilha uma música chamada Night Fever [Febre da noite]", explica Rodrigo Rodrigues, autor do Almanaque da Música Pop no Cinema (editora Leya, 2012). "Pronto, filme e música se misturaram de tal forma que ficou difícil separar o áudio do vídeo. Assim nascia o clássico Saturday Night Fever. O longa foi baseado num artigo da New York Magazine, chamado Tribal rites of the new Saturday night [Ritos tribais da nova noite de sábado], que falava da febre da música disco que tomava conta dos jovens americanos."

A revista New York com o artigo que inspirou o filme
Enquanto o filme era finalizado, os Bee Gees compuseram temas adicionais para a trilha. "Quando começaram a ensaiar com John Travolta as danças para o filme, usavam nossa canção You Should Be Dancing, que tinha sido lançada no ano anterior", explicou Robin Gibb, em entrevista ao Observer Music Monthly (janeiro de 2008). "Estávamos mixando um álbum ao vivo na França e Robert nos telefonou e perguntou se não tínhamos nenhuma outra música para contribuir. Acabamos compondo cinco faixas."

Stigwood incluiu também canções já lançadas em discos recentes do grupo: Jive Talkin' (do álbum Main Course, de 1975) e You Should Be Dancing (do álbum Children of the World, de 1976). Essas faixas, que representavam uma nova fase na carreira dos Bee Gees, recolocaram o trio nas paradas de sucesso. Foram nesses dois discos que surgiu o famoso falsete (registro vocal agudo) de Barry Gibb, que alguns anos depois se tornaria marca registrada do grupo. Estava prestes a explodir o fenômeno da disco music.

Os LPs Main Course (1975) e Children of the World (1976)
Quando o filme estreou nos EUA, em dezembro de 1977, a trilha sonora já havia sido lançada. Valendo-se do uso de diversos canais de comunicação, como o rádio e a televisão, as canções de Saturday Night Fever viraram hits instantaneamente. O álbum, lançado no mesmo ano, foi um dos precursores do hoje muito comum cross-media marketing.

"Dá pra dizer que o auge da carreira dos irmãos Gibb está ligado às trilhas de cinema. O álbum com os temas de Os Embalos de Sábado à Noite é um dos discos mais vendidos da história, com quase 40 milhões de cópias", explicou Rodrigues. Para mostrar a febre disco nos Estados Unidos, o filme pegou carona no sucesso recente que os Bee Gees haviam voltado a fazer, com o som 'repaginado' do grupo (que se tornaria emblemático durante a febre da disco music).

A trilha sonora, que também incluía sucessos de Kool & The Gang, The Trammps e K.C. & The Sunshine Band, entre outros, foi o disco mais vendido da história até o lançamento de Thriller, de Michael Jackson, cinco anos depois. Mesmo assim, o Oscar de 1978, estranhamente, torceu o nariz para o sucesso da trilha de Saturday Night Fever, que não recebeu nenhuma indicação. A única trilha sonora que a superou em número de vendas foi a do filme O Guarda-Costas (The Bodyguard), em 1992. 




Mas o LP de Saturday Night Fever ganhou o Grammy de 1978 na categoria Álbum do Ano. A trilha tornou-se, com o passar dos anos, um disco obrigatório e atemporal nos mais diversos círculos musicais. E ainda abriu caminho para uma nova onda de filmes apoiados no sucesso das trilhas sonoras, que dominaram a década de 1980, como Flashdance - Em Ritmo de Embalo (1983), Footloose - Ritmo Louco (1984) e Dirty Dancing - Ritmo Quente (1987).


Foram 15 discos de platina, só nos EUA. O álbum de Saturday Night Fever ficou na parada de sucessos da Billboard até o fim do ano de 1980. No Brasil, a trilha também ficou em primeiro lugar, assim como nos países da América do Norte, Europa, Ásia e África do Sul.

A edição original do LP Saturday Night Fever (RSO Records), de 1977, foi lançada em um álbum duplo de vinil. Em 1993, a Globo/Polydor relançou o álbum em vinil duplo e, em 1996, a PolyGram brasileira o lançou em CD duplo. Em 1998, comemorando os 20 anos de lançamento do álbum, a PolyGram lançou uma nova edição com todas as músicas em um só CD.

A reedição brasileira da Globo/Polydor (1993)

A reedição em CD duplo
A edição com todas as faixas em um único CD
Algumas das canções compostas para o longa acabaram não entrando nem no filme e nem na trilha. A versão de If I Can't Have You dos Bee Gees foi deixada de lado e, em seu lugar, a canção foi dada a Yvonne Elliman, cuja gravação se tornou um dos grandes sucessos do disco. A versão dos Bee Gees acabou virando o lado B do compacto Stayin' Alive (1977) e, depois, foi incluída na coletânea Bee Gees Greatest (1979). Emotion foi dada a Samantha Sang e tornou-se o único sucesso da cantora. (Our Love) Don't Throw it All Away, gravada pelos Bee Gees, também ficou de fora da trilha de Saturday Night Fever. Dada a Andy Gibb, irmão caçula dos Bee Gees, tornou-se hit imediato. A versão dos Bee Gees foi parar no álbum Bee Gees Greatest. Warm Ride, que também fez parte das sessões de gravação da trilha do filme, não foi usada. Acabou gravada pelo grupo Rare Earth e lançada em 1978. Em 1980, Andy Gibb também a gravou e a lançou em seu álbum After Dark.




Aqui no Brasil, a música de Os Embalos de Sábado à Noite foi muito utilizada na novela Dancin' Days (1978-79), de Gilberto Braga. Como na época, possivelmente, a Globo ainda não tinha permissão para usar as canções originais na novela, elas foram regravadas pelo cover brasileiro Flowers e tocadas na discoteca da novela. Na mesma época, a CID (Cia Industrial de Discos) — gravadora que se especializou em lançar coletâneas de sucessos internacionais em versões cover a preços populares — tratou de lançar um LP "genérico" de Saturday Night Fever, com covers de quase todas as faixas da trilha original, e ainda incluindo Emotion. As faixas foram cantadas pelo cover brasileiro Saturday Band (provavelmente uma banda de estúdio contratada especialmente para regravar as músicas da trilha sonora do filme). É até possível que os músicos fossem os mesmos do grupo Flowers, também da gravadora Square/CID. 

A versão "genérica" da trilha, lançada no Brasil

Para a trilha de Dancin' Days, um pot-pourri com as canções de Saturday Night Fever e outros sucessos dos Bee Gees foi especialmente gravado pelo grupo Harmony Cats: Dancin' Days Medley. Na época, foi um dos carros-chefe do LP internacional da novela.


Outras novelas brasileiras pegaram carona no grande sucesso do momento. Também em 1978, How Deep Is Your Love, dos Bee Gees, fez parte da trilha internacional da novela Te Contei?. No final do ano anterior, Emotion, de Samatha Sang, também já tinha entrado na trilha de Sem Lenço, Sem Documento. Em 1979, (Our Love) Don't Throw It All Away, de Andy Gibb, foi tema internacional da novela Feijão Maravilha.



Ilha da fantasia (só que não)


Esse é um daqueles irresistíveis telefilmes desbotados das madrugadas. Antro de Milionários (Haunts of the Very Rich) estreou na tevê americana em setembro de 1972 e foi bastante reprisado ao longo daquela década. Aqui no Brasil, foi exibido pela Globo durante os anos 1970 também. Mas faz tempo que caiu no esquecimento. Felizmente, graças ao YouTube, é possível desenterrar esses pequenos tesouros obscuros.

Os veteranos Lloyd Bridges e Cloris Leachman encabeçam o elenco, que conta também com figurinhas fáceis das produções televisivas americanas como Tony Bill, Robert Reed e Donna Mills.

Os filmes para a tevê, sobre os quais falo aqui no blog com frequência, já estão em desuso há alguns anos. Mas na década de 1960 e principalmente na de 1970, quando ABC, CBS e NBC — as três grandes emissoras de tevê americanas da época — começaram a produzir seus próprios filmes para esse público caseiro, os telefilmes tinham enorme audiência e repercussão. Não eram muito longos e eram bem mais baratos. Podiam ser vistos no horário nobre e, geralmente, duravam no máximo 90 minutos. Com isso, os canais não ficavam presos aos grandes estúdios de Hollywood.


Em Antro de Milionários, um grupo de turistas grã-finos voam para um misterioso resort paradisíaco, o Portals of Eden. Recebidos por Seacrist (Moses Gunn), espécie de mordomo e anfitrião, os ricos visitantes passam o tempo relaxando e sendo paparicados no referido paraíso tropical. Mas após a primeira noite, uma grande tempestade deixa os hóspedes isolados na ilha onde se situa o hotel, sem energia elétrica e sem comunicação com o mundo externo. Para piorar, a equipe de funcionários do resort — formada por nativos da própria ilha — também desaparece, deixando os visitantes abandonados à própria sorte, cheios de mistérios e perguntas sem resposta. Logo se dão conta de que podem estar muito perto da morte e precisam se organizar para pensar em um meio de buscar socorro. A comida está estragando, a água potável acabando e as tensões crescem entre os hóspedes, assim como as suspeitas mútuas.




Nesse contexto, os problemas de cada um começam a emergir. Dave Woodrough (Lloyd Bridges), por exemplo, é um mulherengo de meia-idade, à procura de mais uma conquista. O alvo escolhido dessa vez foi Ellen Blunt (Cloris Leachman) solteirona carente e preocupada com a própria aparência. O reverendo John Fellows (Robert Reed) é um homem atormentado por conflitos em sua espiritualidade e fé. Annette Larrier (Anne Francis) é uma esposa infeliz, viciada em antidepressivos e estimulantes. Al Hunsicker (Edward Asner) tem um passado duvidoso e por aí vai. No decorrer da história, também ficamos sabendo que cada um dos "convidados", direta ou indiretamente, escapou da morte por pouco. Coincidência?

O reverendo John Fellows (Robert Reed)
Cloris Leachman e Lloyd Bridges
Paul Wendkos (1925-2009) era um exímio diretor de séries de tevê (Havaí 5-0, Dr. Kildare, Os Intocáveis, entre muitas outras) e um dos pioneiros a fazer carreira na direção de telefilmes. No cinema, dirigiu, entre outros, Balada Para Satã (The Mephisto Waltz, 1971), estrelado por Alan Alda e Jacqueline Bisset. 

Antro de Milionários não chega a ser um clássico dos telefilmes, mas tem uma premissa interessante e atuações convincentes, além de similaridades com a série Lost (2004-2010). A história hoje pode estar meio batida, mas não deixa de ser divertido assistir a um telefilme simples, capaz de prender o telespectador em um clima de medo e espanto até o final surpreendente.


Um filme recente, já nos circuitos fechados da TV. Trata-se da história de sete pessoas em férias, numa ilha tropical, e o comportamento que cada um assume quando as situações começam a ser marcadas pela violência. (Folha de S. Paulo, 24/07/1974) 
Teledrama do tarimbado Wendkos. Ação ambientada num "idílico refúgio tropical", com pessoas vendo seu sonho se transformar  em pesadelo. (Folha de S. Paulo, 02/03/1979)



Ídolos, inimigos, admirações e arranhões


Aguinaldo Silva, ontem de manhã, indagou no twitter "quem era Ana Paula, sobre quem tanto comentavam". Caí na besteira de responder que era "uma dessas participantes de BBB vivendo seus 15 minutos de fama e que daqui a um mês, provavelmente, ninguém mais se lembraria". Pronto. Isso foi o suficiente pra despertar a ira dos deuses.


Cometi uma falta gravíssima: blasfemei contra uma ex-participante do Big Brother Brasil idolatrada por centenas de milhares de brasileiros, a maioria adolescentes e jovens (a julgar pelos tweets que recebi). Ao longo do domingo, fui xingado, hostilizado e lembrado, dezenas de vezes — em tom acusatório — de que Ana Paula é sim FAMOSA e que permanecerá famosa, que havia sido contratada pela Rede Globo, pela Rede TV!, que vai ter quadro fixo em programa de tevê etc. e tal. Sem falar naqueles que, furiosos, me chamaram a atenção para ex-participantes de BBB que ainda são famosos. 

Tudo bem, isso eu admito. Entre centenas de ex-BBBs, existem uns três ou quatro que se destacam, na mídia, por seu talento ou trabalho — não por serem "ex-BBBs", essa estranha categoria almejada por tantos brasileiros. Grazi Massafera é um ótimo exemplo de jovem que participou do reality show, se sobressaiu, estudou, batalhou e hoje é uma atriz respeitada, dedicada, talentosa e uma figura extremamente carismática e elegante. Jean Wyllys também está aí, assim como Sabrina Sato. 

Não acompanho mais o programa (e deixo claro que NÃO condeno quem o acompanha). Já tive minha fase de assistir e torcer, mas depois da quinta ou sexta edição, perdi o interesse. Hoje, quando assisto, são trechos, além das constantes chamadas e reportagens na tevê.  Pelo que vi de Ana Paula, ela mostrou ter bastante carisma com o público. Agitou o programa, normalmente bem monótono e repetitivo. Virou uma espécie de 'anti-heroína' do reality. Adorada por muitos e repudiada por outros tantos. 


Sinceramente, não consigo ver nela uma Grazi ou uma Sabrina, nem outra celebridade que realmente vá construir uma carreira sólida na tevê, no jornalismo, na política ou em outra profissão de visibilidade pública. Posso estar redondamente enganado, claro, mas até o presente momento é assim que penso. Isso, creio eu, ainda me é permitido expressar.

O que me assustou foi a virulência com que desconhecidos me hostilizaram no twitter, por causa da minha frase sobre "os 15 minutos de fama". Fãs alucinados, feito hordas de zumbis de filme de terror, começaram a me xingar e a me passar sermão, como se eu tivesse cometido um atentado gravíssimo ao arranhar a imagem da musa deles. Até de hater me chamaram. (Moderno demais pra mim). Fiquei surpreso, pois nem acompanho o programa e tampouco torço contra ou a favor de ninguém ali. Estou longe de ser um hater. Resultado: depois de receber insultos o dia inteiro (a maioria de perfis duvidosos e fakes), acabei deletando o tweet, cansado de receber baboseiras.

Essa historinha me lembrou um episódio ocorrido há dez anos, quando eu passeava pelo interior da Alemanha. Estava batendo perna em Freiburg, me deleitando com aquela delícia de cidadezinha, quando avistei, entre os transeuntes, Mick Hucknall, vocalista do Simply Red. Ele vinha andando com uma mulher, que julguei ser sua namorada ou esposa.

Sempre gostei muito da banda, tenho vários CDs, fui a shows etc. Como admirador, não resisti e me aproximei, timidamente. Estava com minha câmera fotográfica e me apresentei como fã, expliquei que era do Brasil e que estava ali a passeio, e perguntei se não poderia tirar uma foto com ele. A mulher que o acompanhava foi extremamente simpática e sorriu, demonstrando achar o fato divertido. Mas nunca vou me esquecer da expressão de aborrecimento de Mick, visivelmente contrariado. Na mesma hora senti profundo constrangimento por tê-lo abordado, ainda que de forma polida e discreta. Senti que o havia importunado. E não tiro sua razão, pois mesmo ali, numa cidadezinha da Alemanha, um fã (do Brasil!) o havia reconhecido e pedido uma foto. Bem, ele aceitou e a mulher que estava com ele tirou nossa foto. Agradeci e tomei meu rumo. 

Senti um misto de orgulho, por ter conseguido uma foto com meu ídolo, e também uma pontada de decepção, por ele ter se mostrado com cara de poucos amigos. Compreendo que pode ter sido coisa de momento. Ele pode ter se sentido invadido, ou simplesmente não estava a fim de dar atenção a nenhum fã naquela hora especificamente. O motivo não importa. Em todas as entrevistas que li ou vi na tevê, Mick sempre foi elegante e descontraído. Nos shows, sempre se mostrou simpático. Minha admiração pela banda e pelo vocalista não diminuiu, mas sua imagem foi levemente arranhada. Como um disco que você curte muito, mas que ganhou um arranhãozinho inesperado. Você ainda aprecia, mas quando ouve o pulo da agulha, se lembra de que naquele trecho há um arranhado.

A foto com Mick Hucknall, tirada em 2006
Lembrei desse episódio ontem, após os ataques que recebi no twitter, e fiquei pensando sobre a idolatria, muitas vezes cega, que os fãs sentem por seus ídolos. Não "arranhei" a imagem de Ana Paula ao predizer que ela estava vivendo seus 15 minutos de fama. Quem sou eu, um simples anônimo, para arranhar a imagem de uma celebridade com tantos seguidores? Os próprios ídolos, cedo ou tarde, se encarregam de arranhar, mesmo que de leve, a própria imagem. Mas me espanta o fato de alguém como Ana Paula, que apareceu há menos de três meses na mídia, como participante de reality show, já ter atraído tamanho exército de seguidores e defensores radicais (coisa que, aliás, é bem comum nesses tempos de agressividade gratuita em redes sociais). Quando falei dos "15 minutos de fama" da ex-participante do programa, foi de forma genérica, tomando como base 90% dos participantes anteriores, que, após o término do programa, caem no esquecimento. Não tive intenção alguma de afrontar os ardorosos fãs da moça, que se sentiram atacados e feridos de morte, tamanha foi a intensidade da rezinga.

As pessoas são livres para idolatrar quem quiserem, venerar e amar incondicionalmente os ídolos escolhidos como objetos de adoração. Mas não deviam se mostrar tão cegas e tacanhas por conta disso. Admirar um artista (ainda que hoje em dia 'ex-BBB' também entre na categoria 'artista') é problema de cada um. Se a fama vai durar, são outros quinhentos. Mas assim como todos são livres para adorar quem quiserem, poderiam também ter um mínimo de educação e respeito ao se dirigirem uns aos outros nas redes sociais. É clichê pedir isso, eu sei. A internet parece ter aberto uma caixa de Pandora, em que as pessoas, escondidas por trás de uma tela de computador, se sentem compelidas a despejar toda sorte de ofensas, hostilidades e ataques, seja nas redes sociais ou em simples comentários de blogs. Infelizmente, hoje, coleciona-se 'inimigas'. 


Os valores estão trocados. Nesse ponto, o sucesso da ex-BBB é patente: vários de seus fãs (agindo como fanáticos) ao me atacarem ontem, provaram que espelham-se em sua musa para, orgulhosos, gabarem-se de colecionar 'inimigos'. (Muito embora eu não esteja entre esses inimigos. Não torço nem pelo sucesso e muito menos pelo insucesso da moça. O que me assustou foi a enxurrada de grosserias que recebi.) 

Grande parte dos internautas querem ser reconhecidos pelo número de pessoas com quem batem boca nas redes sociais. Querem 'aparecer', não importa a que preço. Como li em uma crônica do Manoel Carlos, há alguns anos: "As pessoas não aspiram mais a um trabalho, mas a uma projeção. Não querem ser respeitadas, mas invejadas." Vai entender...

Luminosa coleção


A adaptação para o cinema de O Escaravelho do Diabo, com estreia prevista para breve, tem sido aguardada com grande expectativa. Clássico da série Vaga-Lume, o livro de Lúcia Machado de Almeida faz parte da memória afetiva de várias gerações de brasileiros que cresceram lendo a inesquecível coleção da editora Ática.

As edições das décadas de 1950 e 1970 de O Escaravelho do Diabo
Lançada na virada de 1972 para 1973, as obras eram voltadas para o público infantojuvenil, apesar de nem todos os livros serem exatamente “infantis”. Alguns tinham até temas bem maduros. Ao longo do tempo, a coleção passou por algumas alterações no layout, mas suas capas e ilustrações permanecem marcantes até hoje. Exemplos não faltam de que a Vaga-Lume era muito mais do que uma simples coleção de livros infantis. Chegou a ter por volta de 100 títulos em catálogo — de autores como Orígenes Lessa, Marcos Rey, Luiz Puntel, Maria José Dupré e vários outros.


Alguns foram escritos sob encomenda, especialmente para a coleção. Outros, já existentes (mas quase esquecidos), foram reeditados e ganharam novo destaque. Foi o caso de O Escaravelho do Diabo, publicado originalmente em folhetim, na revista O Cruzeiro, em 1956. 

Entre especulações acerca de seu possível fim, a coleção se mantém de pé — bem menor e graficamente remodelada — ainda que hoje sem a representação que tinha para os jovens de duas ou três décadas atrás. "Os tempos mudaram e, com o passar dos anos, ela se tornou uma coleção simples, tradicional. Não sei se ela corresponde ao modelo de sensibilidade do jovem de hoje", comentou Fernando Paixão, editor de uma das fases áureas da série, em entrevista para o jornal Estadão (26 de setembro de 2015).

É um pena que os jovens de hoje fiquem por fora da riqueza de tantas obras da nossa literatura, presentes na coleção da editora Ática. Os enlatados tomaram o lugar de tradicionais autores nacionais que faziam a cabeça da garotada até a década de 1990 e que hoje são desconhecidos para esse público.

Quando se fala da Vaga-Lume, é difícil citar um livro favorito. São tantos os títulos marcantes que é preciso fazer um apanhado. Por isso escolhi dez que marcaram muito minha infância e pré-adolescência. E mesmo assim, a seleção não foi fácil, pois a tendência era esticar cada vez mais a lista. Mas me ative a esses dez:


O Feijão e o Sonho (1938/1981) - Orígenes Lessa


Publicado pela primeira vez em 1938, o livro conquistou, no ano seguinte, o Prêmio Antônio de Alcântara Machado, da Academia Paulista de Letras. Ultrapassou a marca das cinquenta edições e chegou a ser adaptado para a teledramaturgia, com grande popularidade. No começo da década de 1980, passou a fazer parte da coleção Vaga-Lume. A trama gira em torno do poeta Campos Lara, um sonhador, voltado para o seu ideal de criação e disposto a todos os sacrifícios para viver de sua arte, a literatura. A esposa, Maria Rosa, é uma mulher corajosa e batalhadora, de pés no chão, inconformada com a falta de senso prático do marido e sua 'alma de artista'. Sempre às voltas com o trabalho da casa e a criação dos filhos, Maria Rosa vive a exigir de Campos mais empenho e menos sonho, o que faz com que a relação do casal seja conturbada.
"É a história de um poeta, em que nos sentimos um pouco retratados todos nós que, fazendo versos, romance ou jornalismo, não somos capazes de realizar na vida prática o que tão facilmente alcançam os fazendeiros, os comerciantes, os industriais, os felizardos que nasceram sob o signo de Mercúrio e, multiplicando zeros, chegam rapidamente aos milhões. Ideais, sonhos, simples anseios, a fatalidade de pensar, a desgraça de escrever, a adoração de bem do belo — olvidado ou inatingível, o feijão que simboliza a matéria, a necessidade, a alimentação, o vestuário, a casa e, portanto, o proprietário, o armazém, o judeu das prestações, em suma: o dinheiro." (Rubens do Amaral - Folha de S. Paulo, 1º de junho de 1938)


Éramos Seis (1943/1973) - Maria José Dupré


É o livro da coleção pelo qual tenho mais carinho, pois foi presente de minha tia mais querida, já falecida. Conta a história de Dona Lola, uma batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade de sua família, cuja história também ficamos conhecendo. Dona Lola é casada com o severo Júlio, com quem tem quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. A narrativa perpassa cerca de duas décadas, começando nos anos 1920 e terminando nos anos 1940, durante a II Guerra Mundial. São comoventes as passagens que narram as alegrias e tristezas da família, sempre pela ótica da bondosa Dona Lola. Conquistas, perdas, dramas e alegrias vão sendo desfiados ao longo dos anos. A prosa de Maria José Dupré é simples, mas extremamente envolvente e apaixonante, ainda que a história carregue boa dose de melancolia. Publicado originalmente em 1943, com grande sucesso, foi adaptado para o cinema argentino e para a tevê brasileira, em duas ocasiões. O romance ganhou uma enorme sobrevida ao ser incluído na coleção Vaga-Lume, no começo da década de 1970. Traduzido para o sueco, o francês e o espanhol, Éramos Seis recebeu o Prêmio Raul Pompéia, de 1944, pela Academia Brasileira de Letras. 


O Escaravelho do Diabo (1956/1972) - Lúcia Machado de Almeida


Em uma pequena cidade no interior de São Paulo, Hugo, irmão de Alberto, recebe um misterioso pacote com um escaravelho dentro (espécie de inseto que lembra um besouro). Mas não dá muita importância ao fato. No dia seguinte, Hugo é encontrado morto, com uma espada espanhola cravada em seu peito. Alberto, inconformado com a morte do irmão, resolve descobrir o mistério do assassinato. Na verdade, trata-se de uma série de assassinatos. Mas a única pista que Alberto tem sobre os crimes é que as vítimas são sempre ruivas e recebem um escaravelho pelo correio antes de morrer. Ele precisa descobrir o que está por trás dessas mortes antes que outros moradores da cidade se transformem em vítimas. Qual a relação entre ruivos e escaravelhos? Quem será o próximo? Um dos títulos mais irresistíveis da coleção. Natural de Nova Granja, interior de Minas Gerais, a autora notabilizou-se principalmente por seus livros da série Vaga-Lume, que fizeram muito sucesso nos anos 1980.


Tonico (1977) - José Rezende Filho


Tonico, um garoto de 13 anos, sonha com uma vida independente. De família pobre do subúrbio do Rio de Janeiro, vê sua vida mudar de uma hora para outra após a morte do pai. Os estudos e brincadeiras vão conviver também com exigências de gente grande, como o trabalho e outras responsabilidades. Tonico mora com duas irmãs, a mãe e a avó. Começa, então, a ganhar um pequeno sustento como engraxate, percorrendo as ruas com o amigo Carniça, garoto negro que desde os seis anos trabalha nas ruas da Zona Sul carioca. Visto com péssimos olhos pela mãe de Tonico, Carniça torna-se pouco a pouco sua figura paterna. O livro mostra cruamente a realidade das famílias pobres do nosso país, mas não a pobreza glamourizada de hoje e sim a do Brasil de quatro décadas atrás, quando o trabalho infantil ainda era algo veladamente 'aceitável' e as famílias pobres tinham muito menos acesso a bens materiais. Diante da necessidade e da pobreza extrema, as crianças viam-se obrigadas a trabalhar, expondo-se a todo tipo de risco. No caso de Tonico, seus trabalhos nem eram dos mais pesados, embora sua rotina exaustiva o obrigasse a trabalhar durante o dia e estudar à noite. A vida do amigo Carniça, por outro lado, era realmente mais perigosa e nada saudável. Ele não estudava e seus trabalhos de engraxate e entregador de jornais em trens o expunham a todo tipo de violência e insegurança. O livro ganhou uma continuação, Tonico e Carniça. Infelizmente o autor faleceu sem finalizá-lo. Coube a Assis Brasil, amigo pessoal do autor, reunir as anotações e ideias de Rezende Filho e concluir a história.


O Mistério do Cinco Estrelas (1981) - Marcos Rey


A trama se passa no Emperor Park Hotel, um luxuoso hotel cinco-estrelas de São Paulo, que hospeda muitas pessoas importantes. Um dia, quando vai levar uma encomenda para um renomado hóspede permanente, o Barão, Léo acha o corpo de um homem em baixo da cama do quarto. Chama a polícia, mas fica intrigado e resolve investigar o caso por conta própria também, com a ajuda dos amigos Gino, Ângela e Guima. Em meio a muitos sustos e apuros, a investigação paralela à da polícia leva o leitor a suspeitar de todos os que aparecem ao longo do livro. Maior sucesso da Vaga-Lume, O Mistério do Cinco Estrelas já vendeu mais de 3 milhões de exemplares. “O Marcos achava que não sabia como escrever literatura para jovens", disse Palma Donato, viúva do autor, em entrevista ao site G1 [10/03/2015]. "Ele tinha medo de acabar colocando um copo de uísque na mão de um personagem”. Superada a resistência inicial, o escritor terminou por criar um romance policial digno dos clássicos de Agatha Christie. O trio de detetives juvenis criado por Marcos Rey (Leo, Gino e  Ângela) também aparece em outros livros do autor para a coleção, como O Rapto do Garoto de Ouro (1982), Um Cadáver Ouve Rádio (1983) e Um Rosto no Computador (1994).


Meninos sem Pátria (1981/1986) - Luiz Puntel


Lançado originalmente em 1981 pela editora Brasiliense, só entrou para a coleção Vaga-Lume cinco anos depois. É a história de Ricardo e Marcão, filhos de um jornalista perseguido por questões políticas, durante o regime militar. Os dois precisam fugir do Brasil com seus pais. A família, que antes morava na cidade de Canaviápolis, nos anos 1960, passou a ser perseguida após o pai publicar uma coluna social no jornal em que trabalhava. Forçados ao exílio, vão primeiro para a Bolívia e depois para a França. A história é simples e muito cativante, mesmo quando ainda não se entende direito o que é ditadura ou regime militar. A narrativa é feita pelo filho mais velho e, assim, acompanhamos o crescimento e o amadurecimento da família, suas relações, registros e readaptação a novas realidades sociais e culturais. O próprio autor comenta, no prefácio do livro: “Quando foram publicados Deus Me Livre! e Açúcar Amargo, estive em muitas escolas, conversando com os alunos, falando sobre essa necessidade fisiológica que é o escrever. Deparei com as mesmas carinhas de espanto e medo. E agora não eram apenas brasileiros, mas nicaraguenses, argentinos, bolivianos, angolanos, portugueses, uruguaios, chilenos, vietnamitas, todos fugindo de golpes de esquerda e de direita, indistintamente. É para esses garotos, esses meninos sem pátria que o livro é oferecido.”


Um Cadáver Ouve Rádio (1983) - Marcos Rey


O garoto Muriçoca corre para a entrada de um prédio em construção, procurando se proteger da chuva. Atraído pelo som de um frevo, sobe as escadas e se depara com o corpo de um homem caído de costas, ensanguentado. O cadáver encontrado é de Alexandre, mais conhecido como Boa-Vida, um sanfoneiro de quem todos gostavam. Quem o matou e por quê? E o rádio ligado na cena do crime? Essa é a premissa do livro, mais um irresistível romance policial juvenil de Marcos Rey, imbatível no gênero. Leo, Gino e  Ângela, o jovem trio de detetives, resolve investigar o crime, como já haviam feito em O Mistério do Cinco Estrelas. De cara, acharam a arma do crime, uma espécie de sabre chinês, com desenhos orientais no cabo, o que os leva a vários suspeitos. Foi o primeiro livro da coleção Vaga-Lume que li e, nos anos seguintes, não parei mais.


Sozinha no Mundo (1984) - Marcos Rey 


Este é meu favorito de Marcos Rey e um dos que mais gosto da Vaga-Lume. Maria Paula, a Pimpa, é uma menina de 14 anos que perde a mãe, dona Aurora, quando estão se mudando de Serra Azul para São Paulo. Aurora, já doente, acaba morrendo no ônibus. Com a morte da mãe, a jovem fica sozinha no mundo. Seu único parente vivo agora é tio Leonel. Por isso a menina precisa encontrá-lo com urgência. Pimpa possui uma oncinha de pelúcia, Lila, que é sua grande amiga e a acompanha por toda a trama. O bichinho foi um presente que seu pai mandou quando abandonou ela e a mãe, no passado. Na viagem para São Paulo, Pimpa conhece Noel e Berenice, que a ajudam no que podem. Até que aparece uma suposta assistente social, tentando levá-la embora a qualquer custo. Por que aquele repentino interesse em ajudar a pobre menina? Mesmo perseguida pela tal assistente social, Pimpa precisa vencer as dificuldades de viver só em uma grande metrópole. Apesar do viés de drama, a história não deixa de apresentar uma grande dose de suspense, com enredo comovente e também envolvente.


Açúcar Amargo (1986) - Luiz Puntel


Em 1984, os boias-frias de Guariba, a 60 km de Ribeirão Preto, cruzaram os braços e iniciaram uma greve que se espalhou rapidamente por todo o Brasil. Reivindicavam  condições de trabalho digno, com carteira assinada e transporte seguro. Esse foi o ponto de partida que serviu de inspiração a Luiz Puntel para contar a história de Marta. A jovem teve sua vida transformada após um trágico acidente, que culminou na morte de seu irmão. Abalado, seu pai, Pedro, decide mudar de cidade e viver da colheita da cana. Ele culpa Marta pela perda do filho e a impede de estudar. Decidida, a jovem vai atrás de seus sonhos e enfrenta a dura realidade da vida como boia-fria, ao mesmo tempo em que lida com as mudanças e desejos típicos da adolescência. Aos poucos, ela vai entendendo a necessidade e a importância da luta social para conquistar seus direitos. Os livros de Luiz Puntel abordam principalmente problemas sociais e procuram mostrar as diferentes expressões culturais do povo brasileiro. Para ele, “escrever é conscientizar” e sua literatura deve ajudar na formação de jovens cidadãos mais críticos e proativos. Mas ele faz isso de forma instigante e interessante, sem didatismos chatos e sem esquecer de contar uma boa história.


Enigma na Televisão (1986) - Marcos Rey


Uma série de assassinatos de pessoas famosas começa a acontecer nos estúdios da TV Mundial, grande emissora de televisão. Em meio a atores decadentes, atrizes em ascensão e jornalistas apaixonados por livros, Ivo, um jovem e corajoso repórter, segue as pistas da ameaçadora trama armada pelo assassino. Inicialmente, a suspeita recai sobre a Liga das Sentinelas, clube de senhoras que combatem a exibição do que elas classificam como "obscenidades". Como é de costume, muitos outros suspeitos irão surgir. Paralelamente à polícia, Ivo e a continuísta Renata decidem desvendar o enigma da televisão. O pano de fundo da história é muito interessante e curioso, com os bastidores de uma emissora de televisão, o conflito de gerações entre artistas jovens e veteranos, a confusão entre ficção e realidade e outros temas recorrentes nesse meio. Novamente, Marcos Rey se mostrou um exímio mestre na arte do romance policial juvenil, ao bolar um enredo com situações surpreendentes, culminando no irresistível final inesperado.

Um clássico dos telefilmes


Dia desses meu querido Pedro Tapajós perguntou se eu me lembrava de um filme que passava na Sessão da Tarde, sobre uma professora de crianças autistas que lida com uma garota rebelde e agressiva. Respondi que sim, era a continuação de outro filme, A Circle of Children.


Um dos telefilmes mais marcantes e elogiados (embora hoje, praticamente esquecido), exibidos na tevê durante a década de 1970, foi O Amor é Mais Forte (A Circle of Children, 1977) — o título tipicamente piegas não podia deixar de seguir a tradição dos nomes em português. Dirigido por Don Taylor, com roteiro assinado por Steven Gethers e Mary MacCracken (também autora do livro homônimo), o filme mostrava o difícil começo e a subsequente adaptação de uma professora a uma turma de crianças com necessidades especiais. 

Mary (Jane Alexandre, à esquerda) chega à escola


Jane Alexander é Mary MacCracken, a professora em questão. Lidando com uma separação recente, ela não se contenta em virar apenas mais uma divorciada de classe média alta. Quer dar um novo rumo à sua vida, fazer algo que a desafie e a gratifique. Decide voluntariar-se para o trabalho com crianças autistas. 

Mary assume a árdua missão de estagiar para substituir a experiente Helga (ótima interpretação de Rachel Roberts), professora mais velha, que está prestes a mudar de escola. Mas Helga não se convence facilmente da capacidade de Mary. Mesmo com a inicial descrença e certo ressentimento de Helga, Mary consegue, ao longo do filme, provar sua competência, paciência e determinação no trato com as crianças.

Helga (Rachel Roberts)
Seus esforços são recompensados quando ela se aproxima de Brian (Matthew Laborteaux), um garoto autista de 8 anos, e consegue, aos poucos, se comunicar com ele e ensiná-lo a se comunicar com os outros. Laborteaux era uma criança bem conhecida na tevê americana, nos anos 1970. Aqui no Brasil, é mais lembrado por seu papel em A Maldição de Samantha (Deadly Friend, 1986), que protagonizou depois de crescido.

Brian (Matthew Laborteaux) e Mary (Jane Alexander)
Brian (Matthew Laborteaux)
O livro autobiográfico A Circle of Children, publicado nos EUA em 1974, é sobre a experiência da "verdadeira" Mary ao lidar com crianças tão perturbadas emocionalmente a ponto de não conseguirem inserir-se na sociedade. É a história de uma mulher cujo envolvimento com essas crianças mudou não apenas a vida das crianças em questão, mas também sua própria vida.


Sinopse da Folha de S. Paulo do final da década de 1970
Curiosidades: a garotinha de Halloween (1978), Kyle Richards, interpreta uma das alunas da professora Mary. Kyle era figurinha fácil na TV americana dos anos 70 e 80. 

Kyle Richards em A Circle of Children e Halloween
Outra atriz mirim que interpreta uma das alunas de Mary é a garotinha Michelle Stacy, da impagável cena de Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu (Airplane!, 1980), em que o garoto pergunta se ela aceita um café. Ela aceita e então ele pergunta se ela vai querer com creme. Ao que ela responde: "Não, obrigada. Eu tomo puro. Feito meus homens." (Em inglês: No, thank you. I take it black, like my men.)

Jane Alexander e Michelle Stacy em A Circle of Children
Michelle Stacy em A Circle of Children e Apertem os Cintos
O Amor é Mais Forte foi indicado ao Emmy de 1977 e teve uma continuação igualmente elogiada: Lovey: A Circle of Children, Part II (1978). Na tevê brasileira, foi exibido com o nome de Crianças Bem Amadas. Na sequência, Mary, mais segura e experiente, assume uma nova turma. Dessa vez o foco foi Hanna (Kristine McKeon), uma agressiva garota autista, de aspecto selvagem, dada a ataques violentos de raiva. Novamente, Mary precisou usar toda sua sensibilidade para chegar até Hanna, compreendê-la e socializá-la.


Hanna (Kristine McKeon)
Mary (Jane Alexander) e Hanna (Kristine McKeon)
Sinopse da Folha de S. Paulo, começo da década de 1980
Filmes como esses — simples, porém marcantes — geralmente acabam esquecidos nas camadas mais distantes e desbotadas da nossa memória afetiva. De vez em quando é bom desenterrá-los.