5 novelas obscuras da TV Manchete


Mania de Querer (1986-87)
De Sylvan Paezzo



Vanessa (Nívea Maria) é uma brasileira que estuda Administração de Empresas nos EUA. Para sobreviver, trabalha como acompanhante (garota de programa, para ser mais direto). Lá conhece Ivan (Marcelo Picchi), engenheiro especialista em computação. Mas Vanessa esconde de Ivan seu ofício. Os dois começam a namorar e voltam para o Brasil, como marido e mulher. A notícia desagrada Margô Nogueira (Lélia Abramo), a avó dominadora de Ivan, que não vê a desconhecida com bons olhos. Ivan começa a trabalhar para  Angelo Sá (Carlos Augusto Strazzer), empresário dono de uma grande financeira, cuja mania é colecionar fotos de garotas de programa que conheceu no exterior. Em uma dessas fotos, reconhece a esposa de seu funcionário e passa a chantageá-la. Vanessa tem medo de contar a verdade para Ivan e aceita as chantagens de  Angelo. O triângulo amoroso está formado. Para piorar, Ivan apresenta distúrbios psiquiátricos. Nívea Maria e Carlos Augusto Strazzer não foram até o final da novela (ambos pediram rescisão de contrato em solidariedade ao diretor Herval Rossano, que havia sido demitido). O foco da trama passou, então, para os dramas de Lúcia (Aracy Balabanian). Apesar de contar com nomes de peso no elenco, é uma novela pouco (ou nada) lembrada.


Olho por Olho (1988-89)
De José Louzeiro, com base no argumento de Wilson Aguiar Filho



Após o assassinato do patriarca Horácio Falcão (Henrique Martins), sua esposa Ana (Georgia Gomide) e os quatro filhos — Justo (Flávio Galvão), Máximo (Mário Gomes), Caio (Caíque Ferreira) e Júlio (Nehemias Demutcha) — juram vingança. Depois de acabar com dois dos matadores do pai, a família se muda para o Rio de Janeiro para localizar o terceiro homem que participou do assassinato. Justo envolve-se com o capitão Flores (Jonas Bloch), ligado à repressão da época do regime militar, e Antônio Barjal (Herson Capri), um empresário mafioso. Máximo, por sua vez, se alia a Rico (Alexandre Frota) e passa a frequentar o submundo da prostituição masculina. Nesse cenário está Paula (Beth Goulart), prostituta por quem Máximo se apaixona. Caio envolve-se com Débora (Zaira Zambelli), uma mulher mais velha e cleptomaníaca. O elenco contou ainda com a presença de um travesti, Cláudia Celeste — interpretando o travesti Dinorá — coisa rara nas nossas novelas. Depois da boa repercussão de Corpo Santo (1987), a Manchete investiu novamente no clima policial e na marginalidade carioca, mais uma vez com roteiro de José Louzeiro. "Só que não deu certo", como explicou Ismael Fernandes no livro Memória da Telenovela Brasileira (Brasiliense, 1997). "Nem sempre as boas ideias resultam em boas telenovelas".


Amazônia (1991-92)
De Denise Bandeira e Jorge Duran



Em 1991, a Manchete queria dar continuidade ao grande sucesso que Pantanal fizera no ano anterior. Amazônia prometia ser uma sucessora à altura, mas provou ser um dos projetos mais frustrantes da história da telenovela brasileira. A trama aconteceu em dois tempos simultaneamente: uma parte se passava em 1899 e a outra no futuro, em 2010. A proposta era unir dois séculos, o final do XIX e o começo de XXI, através da história da Amazônia. No futuro, Milla (Cristiana Oliveira) é uma jovem jornalista que troca o Rio de Janeiro por Manaus, em busca de aventura. Envolve-se com Lúcio (Marcos Palmeira), chefe de uma gangue de trambiqueiros do Porto de Manaus. O rapaz tem visões, em que surgem as tramas de 1899, com a exploração dos seringais amazônicos dominando a cena. A ideia não vingou. Diante do retumbante fracasso, a emissora tentou mudar a estratégia e lançar uma segunda fase (Amazônia — Parte 2) para recuperar a audiência e compensar o prejuízo. Mas não houve jeito e a novela foi um dos maiores fracassos da dramaturgia da Manchete, piorando ainda mais a crise pela qual a emissora passava.


74.5 — Uma Onda No Ar (1994)
De Chico de Assis



Produção independente da TV-Plus, apresentada pela TV Manchete, com argumento de Domingos de Oliveira. Em Pedra da Lua, cidade à beira-mar, estilo cartão postal, o jornalista Álvaro (Cecil Thiré) mantém a rádio 74.5 no ar, conhecida por espalhar esperança e alto astral. Após o término do casamento com Caíque (Raul Gazolla), Luiza (Letícia Sabatella), neta do radialista, volta para Pedra da Lua para recomeçar uma nova vida. Apaixona-se por Miguel ( Angelo Antônio), um ex-namorado que mora num barco e leva turistas para passear. Nem essa "reedição" do casal Taís e Beija-Flor empolgou o público. A novela passou praticamente batida. O tema de abertura foi I Don't Wanna Fight, de Tina Turner. Parece que nos anos 1990 era moda usar temas internacionais em aberturas de novelas, vide Despedida de Solteiro (Globo, 1992) e O Amor Está no Ar (Globo, 1997).


Brida (1998)
De Jayme Camargo
Baseada no best-seller homônimo de Paulo Coelho



Apesar de obscura, Brida é uma novela até hoje muito lembrada por ter sido a última da Manchete, e também pelo final abrupto. Estreou em agosto de 1998 às 19 horas, mas, um mês depois, teve o horário mudado para as 22h20. A novela começou a ser escrita por Jayme Camargo. A partir do capítulo 15, a romancista Sônia Mota (filha de Nelson Rodrigues) e Angélica Lopes continuaram. Na Irlanda do século XVII, a jovem Brida (Carolina Kasting) é perseguida por um bruxo. Mesmo depois de 300 anos, na encarnação atual, o bruxo continua a persegui-la, já que Brida é a única pessoa com poderes para destruí-lo. Brida é filha de uma família rica e está noiva de Lorens (Leonardo Vieira). Seu pai é um dos sócios da Aurea, importante empresa da qual seu mago arquirrival, Vargas (Rubens de Falco) é um dos principais empregados. Vargas vai fazer tudo para dominar Brida. Sem saber que o braço direito de seu pai é na realidade o bruxo que a atormentara em encarnações passadas, a jovem passa por vários perigos nas mãos de Vargas. Nem o experiente diretor Walter Avancini conseguiu salvar a conturbada novela, que culminou com o fim da Manchete. 

Por conta da crise financeira da emissora, os atores e a produção da novela estão sem receber seus salários há um mês e meio. Eles se recusaram a gravar os três capítulos finais. O capítulo 54, de sexta, ficou sendo o último da novela. Cada núcleo da trama terá seu desfecho narrado por um locutor, que contará o final da novela com imagens congeladas dos atores. (Folha de S. Paulo, 17 de outubro de 1998)



As voltas de Travolta


Carismático, obstinado, dedicado, talentoso... Não faltam adjetivos para descrever John Travolta, que completa hoje 62 anos. Seu nome ainda chama a atenção nos quatro cantos do planeta, ainda que sua carreira não esteja mais no auge. (Recentemente virou até meme na internet). 

O meme "John Travolta confuso"
De símbolo sexual nos anos 1970 a ator reverenciado pela crítica nos anos 1990, reconhecido por sua indiscutível versatilidade nos mais variados papéis no cinema, John foi dançarino da Broadway na primeira metade da década de 1970, e alcançou visibilidade nos EUA com a série de TV Welcome Back, Kotter. Mas a fama mundial veio em 1977, com Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever), filme que o lançou como um dos maiores astros de Hollywood. “Na época, eu pensava: será que quando essa loucura toda passar, ainda vou conseguir trabalho?”, disse o ator, anos depois.


"Ele [Travolta] não era assim tão desconhecido. Já tinha feito Grease na Broadway e conseguira bom público com a série de TV Welcome Back, Kotter. Não foi surpresa para mim o sucesso", explicou o produtor Robert Stigwood, em entrevista à revista Veja de 2 de maio de 1979. Stigwood produziu Os Embalos de Sábado à Noite e Grease — Nos Tempos da Brilhantina, dois filmes que marcaram a história do cinema e a própria carreira de Travolta.

O estrondoso sucesso de Os Embalos — que desencadeou no mundo inteiro a moda das discotecas — valeu a Travolta uma indicação ao Oscar de Melhor Ator e uma popularidade invejável nos EUA — suas fãs organizaram uma manifestação de protesto contra a Academia de Hollywood, que premiara Richard Dreyfuss por A Garota do Adeus.  (Astros & Estrelas e Seus Filmes em Vídeo, Nova Cultural, 1991)

John na série de TV Welcome Back, Kotter (1975)
Fenômeno de um tempo em que o star-system era coisa do passado e Hollywood já não jogava mais sua força a serviço dos atores e atrizes (como acontecia até os anos 1950), o nome de Travolta tornou-se tão grande (ou até maior) que o de seus filmes. Mas, com a mesma facilidade com que eleva um artista à condição de astro, Hollywood costuma virar as costas para muita gente. O que é menos comum é um ator ter sua carreira considerada “sepultada” e, muito tempo depois, “ressuscitar” com sucesso e reconhecimento.




No caso de Travolta, sua modéstia pode tê-lo ajudado a passar pelo momento de estagnação sem que ele tivesse se afundado em drogas ou escândalos. O ator sempre se mostrou conformado com essa sina de às vezes ser um astro, às vezes não. 

A estreia no cinema veio com um papel pequeno, porém marcante, em Carrie, a Estranha (1976). No ano seguinte, estourou com Saturday Night Fever e, logo depois, Grease (1978), fazendo par com Olivia Newton-John. Parecia que nada seria capaz de deter tamanho sucesso. Até que veio Vivendo Cada Momento (Moment by Moment), no final de 1978. Pela primeira vez, Travolta estrelou um drama água-com-açúcar, que em nada lembrava seus musicais. O par, dessa vez, foi com Lily Tomlin, uma consagrada comediante fazendo uma incursão no drama. O desastre foi completo.

Vivendo Cada Momento (1978)
O fã-clube juvenil de John Travolta sairá no mínimo irritado com Vivendo Cada Momento, dramalhão cor-de-rosa dirigido por Jane Wagner e estrelado por Lily Tomlin e pelo discutível bailarino e impecável canastrão — aqui, pela primeira vez, sem dançar um passo sequer. O erro óbvio do filme foi trocar a mágica discoteca de Os Embalos de Sábado à Noite por uma repisada história de amor entre moço pobre e madame rica (...).
Travolta, fora de seus travolteios, não aguenta 5 minutos em cena, mesmo quando aposta em seu sex-appeal passeando uma minúscula sunga — e, com Travolta fora de combate, o filme perde sua principal atração. (Veja, 9 de abril de 1980)

Ele já havia perdido a noiva em 1977, a atriz Diana Hyland (sua mãe no telefime O Rapaz da Bolha de Plástico), e a mãe, Helen, em 1978 (ambas mortas de câncer). Em 1979, foi convidado a estrelar Gigolô Americano (American Gigolo, 1980), mas, deprimido, recusou. Coube a Richard Gere o papel.

Diana Hyland e John Travolta


Apesar da “bola fora” que havia sido Vivendo Cada Momento, em 1980 Travolta ainda mantinha o status de astro em ascensão. Cowboy do Asfalto (Urban Cowboy) pode não ter feito o sucesso esperado, mas não chegou a ser propriamente um desastre.

(...) Travolta prova logo de saída que pode representar um cowboy, a partir do momento em que aparece como um garoto ingênuo deixando sua casa em busca da cidade grande. Não ocupa intempestivamente a tela como fez em Os Embalos de Sábado à Noite. Entra calmamente, com os olhos azuis esperançosos mas preocupados, o clássico garoto do interior.
Diante de nossos olhos, Travolta cresce de menino a homem: é um papel que pede olhares travessos, raivas impetuosas e desejos desarticulados — e ele não faz um movimento em falso. (Veja, 11 de março de 1981)

Cowboy do Asfalto (1980)
Em 1981, graças a um convite do diretor Brian De Palma, Travolta aceitou um papel que mostrou sua maturidade como ator, no filme Um Tiro na Noite (Blow Out): "John Travolta sem enfeites e muito convincente" (Veja, 21 de outubro de 1981). 

Apesar disso, os críticos pareciam olhá-lo com certa desconfiança, como se ele ainda tivesse que provar a que veio. “A atuação de Travolta foi muito elogiada, mas o público parecia não se encantar mais com seu charme (...).” (Astros & Estrelas e Seus Filmes em Vídeo, Nova Cultural, 1991)


Seus trabalhos seguintes não ajudaram: o ator protagonizou dois fiascos no mesmo ano: Os Embalos de Sábado Continuam (Staying Alive) e Embalos a Dois (Two of a Kind), ambos de 1983. O primeiro era a continuação de Saturday Night Fever, dirigida por um improvável Sylvester Stallone, com Travolta exibindo corpo e agilidade de bailarino clássico. O segundo, uma tentativa de reativar o par romântico com Olivia Newton-John. Mas nem o carisma do casal foi capaz de salvar o filme. O público e a crítica não queriam deixar o rótulo dos “embalos” para trás. Travolta parecia condenado a viver aprisionado em seu papel de símbolo sexual dançante. O mesmo sucesso que o elevara à categoria de ídolo mundial o aprisionava a um estigma difícil de ser apagado. 

Foto de capa da revista People (7 de março de 1983)

Os Embalos de Sábado Contionuam e Embalos a Dois, ambos de 1983
Dois anos depois, o ator voltou às telas em Perfeição (Perfect, 1985), ao lado de Jamie Lee Curtis. Mas o filme não causou impacto e, àquela altura, após uma sucessão de fracassos, John Travolta já era considerado um “ex-galã”.

O garotão John Travolta já completou os seus 31 anos, mas ainda conserva aquele jeito de colegial traquinas com que atuou no aterrorizante Carrie, a Estranha ou do dançarino que rodopiava ao som dos Bee Gees em Os Embalos de Sábado à Noite. Para quem gosta de Travolta, Perfeição oferece mais de 2 horas de frugal entretenimento. (Veja, 20 de novembro de 1985)
Perfeição (1985)
A década de 1980 não foi mesmo generosa com Travolta. Entre 1985 e 1989, não deu uma única entrevista, pelo simples motivo de que nenhum jornalista o procurou. Desanimado, mas sem se deixar abalar, o ator encontrou na Cientologia o conforto que parecia buscar. Passou a dedicar-se ainda com mais força a seus hobbies favoritos: pilotar aviões e criar cavalos.

Olha Quem Está Falando (1989)
Até que ressurgiu em Olha Quem Está Falando (Look Who’s Talking, 1989). A despretensiosa comédia fez inesperado e estrondoso sucesso. Embora não tenha recuperado o status de superastro que Travolta detinha uma década atrás, serviu para mostrar que o ator continuava disposto a prosseguir com sua carreira, sempre simpático e bem-humorado. Em 1991, casou-se com a atriz Kelly Preston, com quem viria  a ter três filhos.

Mas a “grande” volta de Travolta foi mesmo em 1994, em Pulp Fiction — Tempo de Violência, de Quentin Tarantino, verdadeiro fenômeno no cinema e na carreira do ator. Palma de Ouro em Cannes, indicação ao Oscar, elogio do público, da crítica e de Tarantino, para quem o repugnante personagem Vincent Vega ficou humano e simpático graças à contribuição pessoal do ator. “Diferentemente de um Jack Nicholson, que tende a ofuscar quem está à sua volta, Travolta se comporta com modéstia, de maneira que todos brilhem.” (Veja, 1º de março de 1995).

Veio então uma onda de contratações para o astro: O Nome do Jogo (Get Shorty), Fenômeno (Phenomenon), A Última Ameaça (Broken Arrow), A Outra Face (Face/Off) e vários outros filmes na segunda metade da década de 1990, a época mais produtiva de sua carreira.

Pulp Fiction (1994)
Pulp Fiction (1994)

“Essa ‘volta por cima’ lembra um pouco o que foi para mim, cinco anos atrás, o primeiro da série Olha Quem Está Falando, em termos de sucesso. Mas agora os comentários têm sido mais elogiosos, porque Tempo de Violência tem uma credibilidade artística muito maior”, disse Travolta, em entrevista a José Emílio Rondeau (Set, março de 1995).

Distante da velha imagem de galã juvenil dos anos 70, a carreira de Travolta entrou em uma boa fase, que continuou na década de 2000. No entanto, a morte do filho Jett, de 16 anos, em 2009, foi um golpe duro de ser superado. “A verdade é que eu não sabia se conseguiria ultrapassar. A vida já não tinha qualquer interesse para mim e demorei muito tempo a aceitar e a melhorar”, disse o ator, durante uma entrevista coletiva em Londres, anos depois. Novamente, a Cientologia o manteve centrado. “A Cientologia é um conjunto de filosofias que ajudam a lidar com a vida”, explicou ele, em entrevista para a revista Seleções, em junho de 2005. “Não é apenas algo em que se acredita, mas uma tecnologia manipulável.” 


Apesar dos altos e baixos, John Travolta é hoje um ator de reconhecido talento. O fato de ser sempre lembrado pelos velhos tempos de Os Embalos de Sábado à Noite e Nos Tempos da Brilhantina não o incomoda. Nessas quatro décadas, provou que é capaz de mostrar outras facetas no cinema. E não é de ficar remoendo insucessos: “Tento me arrepender apenas o suficiente para aprender e não fazer o mesmo da outra vez. Sempre me sinto melhor quando penso em qual foi a minha contribuição numa determinada situação.”




Saudades daquelas mulheres


Lá se vão 13 anos desde que Mulheres Apaixonadas estreou e deixou o país ligado na trama de Manoel Carlos. Nem faz tanto tempo assim, mas as expectativas e cobranças em relação às novelas mudaram bastante de lá pra cá. Na época, saíram muitas declarações na imprensa dizendo que aquela seria a última novela de Maneco. Penso que ele teria fechado com chave de ouro (com o perdão do clichê). Na minha opinião, foi a última grande novela do autor. Talvez seu estilo, hoje, já não encontre um público tão cativo quanto antes.


A parceria com o diretor Ricardo Waddington, que havia dirigido suas novelas anteriores (Laços de Família, em 2000-2001, Por Amor, em 1997-98 e História de Amor, em 1995-96), além da minissérie Presença de Anita (2001), continuou com êxito.


Apesar de atento a tabus, o texto de Manoel Carlos não se distanciava da vida cotidiana. Maneco era capaz de segurar e manipular o telespectador que achava que já tinha visto de tudo em matéria de telenovela, simplesmente mostrando as paranoias de seus personagens da classe média carioca economicamente bem-sucedida. Um deleite para o público.


Dessa forma, Mulheres Apaixonadas coroou a vitória do estilo do autor: seu realismo nada tinha a ver com as novelas de conteúdo político-social que aparecem vez por outra. Manoel Carlos fez sim, apologia a diversas causas politicamente corretas, mas este nunca foi o objetivo central da novela.


Se, na literatura, o Naturalismo está ligado ao Realismo, na televisão, esses estilos também andam juntos. Mas na tevê, a grande associação do Naturalismo está na relação com o cotidiano, o dia a dia. Um texto realista, na televisão, está mais centrado na ação, e todas as cenas e conversas vão necessariamente trazer informações novas ao espectador. Já um texto naturalista preocupa-se com o cotidiano dos personagens, o que, futuramente, vai ocasionar alguma ação. Porém nem todas as cenas têm a preocupação de acrescentar algo novo ao público e, sim, aproximar a vida do personagem à vida do espectador.


Maneco incorporava como nenhum outro novelista essa “realidade cotidiana”, vista em suas telenovelas: o casal de velhinhos que caminha no calçadão, a empregada que vai à padaria de manhã, a criança que vai para a escola, a mãe que dá conselhos à filha adolescente, o marido que não tem tempo para sair com a esposa etc.


É improvável que se possa conceber uma novela totalmente “naturalista” ou exclusivamente “realista”. Um estilo complementa o outro. No entanto, a tendência da maioria dos autores é a de um texto dinâmico, com muita ação, reviravoltas, golpes e situações inverossímeis — ou verossímeis no universo delimitado da teledramaturgia.



As tramas das novelas de Manoel Carlos, e especialmente de Mulheres Apaixonadas, são revestidas de cotidianidade, compondo regras de comportamento, de parentesco, de afetos e desafetos, e organizando estas relações de uma forma que diz respeito ao sistema de sociabilidade o público. Mas em momento algum vemos tramas rocambolescas, golpes de sorte mirabolantes, planos maquiavélicos ou muita ação (no sentido de aventura) nas novelas de Maneco. Talvez por isso seu estilo era o que mais se diferencia dos demais.


Nas novelas de Manoel Carlos (até Mulheres Apaixonadas) não havia grande disparidade entre ricos e pobres. Todos estavam num patamar digno. Alguns mais ricos, outros apenas vivendo bem, mas nenhum era realmente pobre a ponto de morar no subúrbio ou na favela.

A presença obrigatória de uma Helena é outra marca registrada do autor, que não dispensa uma personagem com esse nome — sempre a heroína da trama. Conflitos entre mãe e filha também são recorrentes, assim como a abordagem de problemas que envolvem um casal e a relação familiar no convívio diário, jovens que apreciam, leitura, boa música, e crianças precoces, só para citar alguns exemplos típicos.



Trivialidades sim, mas que davam um sabor de familiaridade e identificação com o público. Tinha-se a sensação de estar acompanhando não uma novela, mas a vida de amigos, vizinhos, parentes... novelizada. Tudo muito bem arrematado com o verniz refinado e os diálogos simples, porém sofisticados do autor.

Manoel Carlos gostava de explorar bem cada situação. A morte da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli), em Mulheres Apaixonadas, é um bom exemplo: Fernanda se prepara para sair de casa; Fernanda pega as contas que precisa pagar; Fernanda sai à rua; Fernanda leva um tiro; Fernanda é socorrida e levada pela ambulância; o médico fala com a família; os vários dias de agonia no hospital; a morte; o velório; o enterro. O autor não “queimava cartucho”, ao contrário. Desenvolvia cada situação ao limite. Quando o telespectador pensava que uma situação havia chegado ao final, se surpreendia diante de uma nova abordagem. Dias depois o tema ainda era debatido pelo público e pela mídia.

Fernanda (Vanessa Gerbelli) é atingida por uma bala perdida


Pop-up original do site oficial da novela, em 2003
Em tempos de reality shows, a “realidade” em uma telenovela é um conceito que pode variar muito de telespectador para telespectador. Para alguns, a realidade representada na novela deve coincidir com a realidade social das “pessoas comuns” (por exemplo, problemas “reais” como desemprego, violência urbana, déficit habitacional etc. e não os estereotipados “problemas dos ricos”). Para outros, a realidade deve ser reconhecível, isto é, comparável com a do meio em que vivem. E ainda para outros, o mundo apresentado na novela deve ser provável, verossímil, ou seja, ser “normal”.


Em Mulheres Apaixonadas, Manoel Carlos comportava-se como um cronista que estivesse observando um grupo de pessoas movimentando-se em uma cidade, ou melhor, em partes dessa cidade. No caso, o bairro do Leblon, onde o autor mora há anos, é seu local de trabalho. Dali ele tira de sua própria experiência o material que será idealizado e estilizado em suas telenovelas. Não significa que esse “realismo” por ele imitado na novela seja o retrato infalível da vida real, mas tudo era mais ou menos homogeneizado e visto pelo público como a realidade, ainda que apenas uma parcela dos consumidores de novela vivam no Rio e, em escala ainda menor, no Leblon. E as situações eram aceitas e tidas como possíveis de acontecer em âmbito nacional.


Os capítulos de Mulheres Apaixonadas eram cheios de situações que se repetiam ciclicamente, mas não se desenvolviam de fato. Os diálogos circundavam temas e faziam referências ao mundo fora da novela, que na novela era entendido como o mundo “real” dos personagens. Tanto que, no começo, a imprensa criticou o ritmo exasperadamente lento de Mulheres Apaixonadas e chegou a considerar seus diálogos como inócuos ou sem nada a acrescentar à trama. Apesar disso, os elevados índices de audiência mostraram que a novela — de poucos acontecimentos e muitos personagens — caiu no gosto do grande público. Os consumidores se encantaram exatamente pela “normalidade” da trama.

Revista Veja (19/03/2003)
(Clique para ampliar o detalhe)

Manoel Carlos se diz inspirado pelo estilo realista. Interessam-lhe situações palpáveis, que tratam de temas pertinentes à vida e ao cotidiano do telespectador. Não é por acaso que Mulheres Apaixonadas foi, como suas outras novelas, repleta de cenas com ações cotidianas, locações reais e conversas sobre coisas e fatos concretos. Muito do que acontecia no país durante a novela era comentado e vivenciado pelos personagens (violência urbana, preconceito, catástrofes naturais e crises políticas, entre outras coisas).


Em entrevista à jornalista Lílian Fernandes, para o jornal O Globo de 10 de outubro de 2003, Maneco afirmou:


"Todas as minhas novelas trataram dos fatos mais corriqueiros da vida, como bater na porta do vizinho para pedir um ovo ou um pouco de pó de café emprestados. Claro que este cotidiano recebe um tratamento dramatúrgico e que depende da carpintaria de cada autor isso dar certo ou não. Tanto quanto possível, faço novela com a ajuda dos jornais, das histórias que vivi e que ouvi contar. A vida cotidiana é pura novela, e novela que o público gosta de ver" — diz o autor, do alto da média de 52 pontos de audiência registrada nacionalmente no mês de setembro, e embalado pelos ibopes acima dos 56 pontos desta última semana de exibição. (O Globo, Segundo Caderno, 10/10/2003)


As manchetes dos jornais e revistas da época davam dicas do clima “realista” da novela, em que ficção e realidade se misturavam:


“Manoel Carlos faz novela realista — O realismo que Manoel Carlos tenta dar ao seu novo folhetim é de impressionar. As pessoas bebem cafezinho num balcão e pagam a conta. O dia ganha cronologia de vida real.” (Estadão, 18/02/2003).


“Mulheres Apaixonadas é marco na tradicional estratégia de novelas” (Folha de S. Paulo, 03/08/2003).


“Realismo de Manoel Carlos dói de verdade” (Jornal de Brasília, 01/10/2003)

“Casa que abriga atores idosos comemora boa fase depois de virar cenário de Mulheres Apaixonadas (Jornal de Brasília, 02/10/2003).


Incontáveis foram as matérias como as citadas acima, durante todo o período de exibição da novela.

Veja, 09/07/2003
Veja, 09/07/2003

Tal construção deu ao telespectador a possibilidade de sentir que o tempo em Mulheres Apaixonadas andava junto com o tempo que público estava vivendo. Este fato em si dá a dimensão específica do “realismo do dia a dia” proposto por Manoel Carlos e que, atualmente, é difícil de ser levado ao ar em uma novela.


A estrutura de Mulheres Apaixonadas lembra a dos seriados norte-americanos: várias tramas paralelas que, em determinados momentos, assumiam pesos semelhantes entre si. Esta é mais uma das características de Manoel Carlos, o que, no caso dessa novela, atingiu seu ápice. Normalmente, em suas histórias, há uma protagonista chamada Helena, cujo conflito/problema constitui a espinha dorsal da trama. Em Mulheres, Helena não foi o centro da trama. Pela primeira vez, a personagem esteve no mesmo patamar dos outros, o que causou certo estranhamento da crítica e até mesmo dos telespectadores, acostumados às novelas anteriores de Maneco, em que as Helenas ocupavam uma espécie de lugar central na história.

As irmãs Hilda (Maria Padilha), Helena (Christiane Torloni) e Heloísa (Giulia Gam)
Mulheres Apaixonadas reuniu em uma só história o desejo do autor de retratar diferentes perfis femininos e suas paixões. Mas foram muitos os temas fortes nessa novela: a violência doméstica, o lesbianismo, o preconceito social contra idosos, o alcoolismo, o romance entre homens e mulheres com grande diferença de idade, o ciúme excessivo, a violência urbana, a traição e até o câncer de mama. Uma vitrine que mostrou vários personagens marcantes e até hoje muito lembrados pelo público.





Conhecemos as pessoas no dia a dia aos poucos, e assim foram os personagens ao longo dos 203 capítulos, entre 17 de fevereiro e 10 de outubro de 2003, que também se mostraram aos poucos e ainda vão permanecer por muito tempo na memória do público.


Para a ficha técnica e mais detalhes sobre Mulheres Apaixonadas, acesse o site Teledramaturgia.



O site oficial da novela, em 2003

A injusta cruzada contra Cruising


Existem polêmicas capazes de alavancar a atenção que um filme recebe. Também existem aquelas que sepultam a obra impiedosamente. Foi o caso de Parceiros da Noite (Cruising, 1980), longa de William Friedkin que completa agora 36 anos. Um dos diretores mais badalados da década de 1970, Friedkin já tinha, em seu currículo, Operação França (The French Connection, 1971) e O Exorcista (The Exorcist, 1973), dois filmes emblemáticos daquela década. Depois do estrondoso sucesso de O Exorcista, sua carreira entrou numa fase de produções menos expressivas. Até que, em 1979, surgiu a ideia de filmar Cruising.

William Friedkin e Al Pacino nas filmagens de Parceiros da Noite (Cruising)
O filme teve como inspiração uma história real: uma série de assassinatos de homossexuais, ocorridos em Nova York, entre 1962 a 1979. Outra fonte foi o romance A Paquera (Cruising, 1970), de Gerald Walker. Para o roteiro, Friedkin aproveitou o esqueleto narrativo do livro, mas modificou totalmente a abordagem, baseando-se em pesquisas de campo e muitas conversas com pessoas da vida real.

O livro que inspirou o filme
No filme, o policial Steve Burns (Al Pacino) é escalado para investigar os assassinatos brutais de homossexuais, que estavam ocorrendo em Nova York. Achar o serial killer não seria fácil. Mas, motivado pela ideia de crescer dentro da corporação, o policial aceita o desafio de se passar por gay e se infiltrar nos guetos onde as vítimas eram escolhidas: clubes de sadomasoquismo da cidade. Com seu tipo físico semelhante ao das vítimas, Burns era a isca ideal.

Antes mesmo da estreia, em fevereiro de 1980, o filme já gerava polêmica e era rechaçado dentro e fora das comunidades gays. Talvez nem o próprio Friedkin imaginasse que causaria tamanho rebuliço como quando decidiu fazer Cruising. Ativistas gays americanos se lançaram em uma campanha agressiva contra a obra, alegando que um filme sobre um maníaco que matava homossexuais carregava uma visão moralista, preconceituosa e homofóbica. Até jornais importantes, como o Village Voice, aderiram ao boicote. Várias panfletagens em favor dos gays chegaram a ser feitas contra o filme nas filas dos cinemas.

A revista Manchete de 25 de agosto de 1979 trouxe uma matéria sobre as conturbadas filmagens, que estavam acontecendo em Nova York, na época:

Das primeiras páginas dos jornais americanos à imprensa brasileira ou europeia, o assunto ganha ampla divulgação — enquanto grupos gays internacionais também fazem novas demonstrações, dando ainda maior publicidade ao filme. Jerry Weintraub, o produtor, talvez até por tudo isso, tem-se mantido na maior calma e limitou-se a dizer: "A versão deles é que estamos fazendo um filme contra os gays. Mas Cruising não é a história de homossexuais, e sim um thriller cuja ação se passa numa comunidade gay.

Revista Manchete (25/08/1979)
A coisa toda respingou em Al Pacino, um dos atores mais talentosos de sua geração, acostumado a papeis de grande sucesso. Depois do fracasso de Cruising, sua carreira despencou e ele levou anos para se refazer do “trauma”.

A verdade é que o filme não tem a intenção de dizer que os gays são seres obscuros e pervertidos. O foco do filme é um gueto específico — o dos clubes de sadomasoquismo e bares de 'pegação' da época. Um mundo dentro de outro mundo.

Vale lembrar que era o final dos anos 1970, ainda não havia AIDS e a comunidade gay começava a se modelar. Tateando um lugar na sociedade, quase sempre às escondidas, era comum que os gays se esgueirassem em ruas mal frequentadas ou parques desertos durante a noite, para dar vazão aos desejos sexuais reprimidos. Em Nova York, nas vizinhanças mais decadentes, surgiram clubes para homossexuais em busca de sexo anônimo e realização de fantasias sadomasoquistas, especialmente envolvendo sexo grupal, roupas e acessórios de couro.




É exatamente nesse sombrio universo, de extrema promiscuidade e catarse coletiva, que o policial Steve Burns, interpretado por Al Pacino, mergulha. Burns não fazia ideia de como podia ser difícil a vida de um detetive infiltrado no submundo em questão. Ainda mais um submundo cheio de complexos códigos próprios, onde um policial heterossexual e 'careta' como ele dificilmente conseguiria transitar com naturalidade. Aliás, Steve é introspectivo, não tem muita facilidade em articular frases e passa boa parte do tempo calado, o que confere ao filme um clima de permanente solidão (mesmo nas carregadas cenas dos abafados e lotados bares de paquera gay).

William Friedkin abriu mão da narrativa clássica — a perseguição e a consequente captura do assassino — e optou por se concentrar no modo gradual, quase imperceptível, como a experiência vai alterando a visão de mundo e os hábitos do policial, levando-o a questionar sua própria sexualidade (ainda que sem entender direito) e seus limites morais.

O termo cruising, em inglês, pode se referir tanto a “dar uma volta”, de carro, de moto ou a pé, como a “sair à caça”, no sentido sexual. A segunda conotação começou a ser difundida na década de 1970 e virou uma gíria comum entre os homossexuais da época. Exatamente um ano antes do começo das filmagens de Cruising, o Village People lançou seu mais famoso álbum, intitulado justamente Cruisin’. O LP incluía o até hoje conhecidíssmo hit Y.M.C.A. O grupo ficou muito famoso e fez enorme sucesso nas discotecas do mundo todo. Os integrantes encarnavam personagens que normalmente povoavam as fantasias gays e faziam alusão a símbolos de masculinidade: um policial, um cowboy, um operário, um motociclista, um índio norte-americano e um soldado. (A maioria dos personagens do filme, diga-se de passagem, lembra versões mais ‘pesadas’ dos integrantes do Village People. Hoje o visual é datado e caricato, mas nos anos 70 era muito comum entre os gays.)

Na época em que Cruising foi filmado, entre agosto e setembro de 1979, o cantor norte-americano Smokey Robinson lançou a canção Cruisin’, que, apesar de ter o mesmo nome do álbum do Village People, nada tinha a ver com o grupo. A faixa de Robinson também virou hit, apesar de seu significado ser o tradicional, de “passear” ou “navegar”, e não ter nenhuma conexão com a gíria gay.

De um jeito ou de outro, o termo cruising foi bastante difundido na época. No caso do longa, seu título virou sinônimo de algo a ser condenado. Hoje, mais de três décadas depois, é possível assisti-lo com um olhar distanciado das questões da época. A atuação de Al Pacino é irrepreensível, como sempre, e o ator fez com que seu personagem realmente parecesse confuso e assustado e, muitas vezes, pouco à vontade. Fisicamente, Pacino deu uma turbinada nos músculos e fez permanente, aparecendo pela primeira vez com cabelos crespos.  Apesar de um tanto quanto lento, há sempre algo acontecendo no filme e no rumo da história. Muita coisa ficar no ar, talvez devido aos vários cortes que Cruising sofreu em suas filmagens, sem falar nas mudanças do roteiro. Talvez o diretor tenha deixado tantas coisas sem explicação de forma proposital, seja no desenrolar do caso ou na própria personalidade de Burns, que vai se tornando cada vez mais ambígua, à medida que ele se mescla ao obscuro cenário e seus frequentadores.

Al Pacino de cabelos cacheados em Cruising
A atriz Karen Allen, que interpreta a namorada de Steve Burns, não tinha conhecimento do roteiro antes de trabalhar no filme. William Friedkin preferiu que ela ficasse sem saber o que acontecia com o personagem de Al Pacino. Mais uma calculada estratégia para que o clima de dúvida pairasse dentro e fora e Cruising.

Karen Allen e Al Pacino em Cruising
Mesmo para os padrões atuais, o filme tem cenas fortes e bastante ousadas. Grande parte dos figurantes eram frequentadores reais de bares de pegação e clubes gays da época, o que conferiu um realismo extraordinário e, por vezes, até assustador à narrativa. Quanto a esse aspecto, penso que a revolta dos gays não se justifica, pois o filme foi absolutamente fiel na apresentação dos tipos, mesmo estereotipados, desse grupo especifico de homossexuais (ainda que eles não representassem todos os gays).

A crítica da Folha de S. Paulo de 20 de maio de 1981 foi implacável já no título: “Homossexuais numa versão inacreditável”. Para a época, era um retrato realmente chocante de um submundo até então pouco (ou nada) conhecido da grande população:
Todos os homossexuais americanos foram ver o filme, ainda que a maioria deles tenha saído revoltada. Houve protestos, petições indignadas e até passeatas que só fizeram aumentar os lucros e provocaram a introdução de um letreiro, antes do início do filme, explicando: "Não nos colocamos contra o mundo homossexual, apenas mostramos um pequeno segmento dele".

Quando aluguei a fita e vi o filme pela primeira vez, há muitos anos, tive certa dificuldade em diferenciar um personagem do outro, pois todos eram parecidos entre si. Tanto fisicamente quanto no modo de se vestir. Friedkin escolheu filmar os assassinatos em ambientes cada vez mais escuros, de forma que se torna difícil identificar o rosto do matador. Vemos o assassino sempre na penumbra, vemos sua roupa, seus acessórios e até partes de seu rosto, em close, mas nunca o vemos claramente.

Ao longo dos anos, fui assistindo ao filme outras vezes e me familiarizando com os detalhes. E comecei a ter a sensação de que o assassino era interpretado por atores diferentes a cada cena. Depois de assisti-lo dezenas de vezes, voltando, analisando, dando pausa e revendo, descobri que, de fato, o ator que interpreta o assassino variava a cada cena. Daí a dificuldade, nas primeiras vezes, em diferenciar quem era vítima e quem era o serial killer.

Em algumas cenas, um determinado ator vive o assassino. Em outra cena, o ator que tinha interpretado a vítima é mostrado como o assassino. E esse revezamento segue ao longo do filme, mas de forma bastante sutil. Só mesmo após assistir muito atentamente, várias vezes, é que minhas desconfianças tiveram confirmação. Como se a intenção de Friedkin fosse justamente a de nos confundir, ou de nos dizer que a identidade do assassino não é a questão-chave. E que, uma vez que alguém se dispõe a uma experiência dessa, como a do policial Burns, infiltrado em um mundo paralelo quase impossível de ser imaginado, nunca mais será o mesmo.



Perto do fim do filme, a identidade "definitiva" do assassino é revelada. Mas as tramas paralelas ficam sem explicação. Algumas pistas, no entanto, são dadas. Cabe ao espectador imaginar ou tentar deduzir os possíveis desfechos. Cruising se mostra um misto de thriller, filme policial, mistério, slasher e drama psicológico. A ação muda seu ritmo ao longo da história, como se buscasse um ponto, sem, no entanto, encontrá-lo. A Folha de S. Paulo [20/05/1981] não perdoou: “Depois de 100 minutos de hesitação, é natural que o diretor não saiba como terminar o filme. Por isso, ele o encerra de qualquer jeito, sem final, causando uma nova e derradeira frustração.”


O resultado foram três indicações ao Troféu Framboesa de 1981: Pior Diretor (William Friedkin), Pior Filme (Jerry Weintraub) e Pior Roteiro (William Friedkin).

No Brasil, o VHS do filme foi lançado em 1991. Por causa do tema polêmico, a Warner levou vários anos para tomar coragem e lançar Parceiros da Noite em DVD. William Friedkin tentou lançar o DVD com a versão original, incluindo 40 minutos de cenas excluídas pela censura americana, mas o tal material havia sumido misteriosamente do estúdio. Ninguém sabe o que aconteceu. Aqui, o DVD veio sob o selo da Lume, sem extras. Ainda hoje há especulação sobre os 40 minutos de cenas não utilizadas, que permanecem inéditas. Se elas acrescentam explicações importantes à historia, ninguém (além do diretor) sabe.

DVDs brasileiros de Cruising
Em 2013, o ator James Franco e o roteirista Travis Matthews escreveram e dirigiram o documentário fictício Interior. Leather Bar. No filme, a dupla tenta recriar os tais 40 minutos de cenas descartadas (que incluíam, supostamente, cenas explícitas de sexo) que se perderam após o lançamento de Cruising. A ideia do projeto não deixa de ser interessante, mas ele não acrescenta nada ao filme original e nem às perguntas deixadas sem resposta.
Para a gente, pareceu mais interessante retomar um filme polêmico que fracassou na bilheteria do que um clássico" — disse Matthews, quando esteve em São Paulo, em 2013, para apresentar o filme no festival Mix Brasil. "Sempre, quando alguém revisita o passado, busca como referência algo considerado perfeito. Nós não queríamos isso. Nosso interesse foi fazer um filme que usasse Cruising como ponto de partida para explorar o quanto avançamos desde então em termos de censura e em termos da representação da sexualidade gay no cinema. (O Globo, 06/11/2013)


Travis Matthews e James Franco

Mesmo que, ainda hoje, com a passagem do tempo e as mudanças de perspectivas, Parceiros da Noite permaneça incômodo, longe de ser facilmente digerido, o filme merece redenção. É, sem dúvida, um dos mais intrigantes e perturbadores mergulhos psicológicos mostrados no cinema.