Sexta básica de (in)utilidades


O "Réveillon"



A mesa

Na casa ainda permanece a decoração de Natal que fica até o dia de Reis (6 de janeiro). Na mesa, porém, tudo se modifica. O luxo na ceia de réveillon não é ostentação. É estilo e requinte. A mesa aparece paramentada com a toalha mais fina. Prata, cristais e porcelanas brilham à luz de velas. Se a mesa for longa, a decoração pode ser complementada por finas peças de porcelana. Nessa noite, as rosas não cedem lugar aos cristântemos nem às flores do campo. Rosas são um detalhe necessário porque, queiramos ou não, a passagem do ano de certo modo nos formaliza. Por quê? Porque as horas dessa noite estão carregadas de nostalgia. Rosas combinam com nostalgia, com intimidade e com o amor fraterno dos amigos.


Organizando uma ceia "buffet" para um grupo maior, as mesinhas receberão toalhas idênticas à da mesa principal e serão decoradas com as mesmas flores. Enfim, tudo igual para não quebrar a perfeita harmonia da noite.




Etiqueta e boas maneiras, de Martha Calderaro
Editora Nova Fronteira, 1983



Itens anteriores da Sexta básica de (in)utilidades:










Então é Natal...


Muito antes da era dos complexos presentes eletrônicos, dos shopping centers e da revolução sexual, os presentes de Natal podiam ser, digamos... inusitados. Presentes comuns na década de 1950, por exemplo, seriam impensáveis nos dias de hoje. Naquele tempo, a lista incluía — sem nenhuma ironia — pacotes de cigarro, aspiradores de pó (para as dedicadas esposas) e até espingardas e revólveres (para toda a família, dos pais aos filhos). Abaixo, alguns anúncios de revistas americanas da época:


"Dos 7 aos 17" - Espingardas eram, aparentemente, o presente perfeito para crianças e adolescentes.




"Não é hora de dar a si mesmo um presente de Natal?" - A fabricante de revólveres Colt oferecia vários modelos. A cara do Natal!




"Nossa, pai... Uma Winchester!" - A cara da felicidade. Afinal, qual criança não vibraria de satisfação ao ganhar de Natal uma... espingarda?




"O presente que todo esportista quer" - E você tinha alguma dúvida? Serve até de decoração para a árvore de Natal.




"Faça desse Natal um Natal Browning" - A fabricante Browning estava certa de que suas espingardas eram o must dos presentes de Natal.




"O presente de Natal de Bob!" - Adivinhe qual é? Isso mesmo, um rifle.




"Pra que lavar a louça depois da ceia de Natal?" - Uma moderníssima lava-louças alardeava as vantagens de tê-la em casa. Um sonho para qualquer esposa da época.




"Ela está apaixonada... E vai amar!" - Sim, um jogo de talheres podia ser o presente ideal para as mulheres que viveram os anos dourados. 




"Na manhã de Natal, ela estará mais feliz com um aspirador de pó" - Era o que anunciava a famosa marca Hoover.




"O cigarro cuja suavidade você pode medir" - Papai Noel foi garoto-propaganda dos cigarros Pall Mall.




"Luckies são suaves para minha garganta", atestava o próprio Papai Noel. Quem duvidaria do bom velhinho?




"Presentes que dizem Feliz Natal a cada baforada..." - Até para o cigarro Camel o bom velhinho fez propaganda.




"Estou enviando Chesterfields para todos os meus amigos" - Até Ronald Reagan dava de presente belos pacotes natalinos do cigarro Chesterfiled, com dedicatória e tudo.




O fenômeno editorial da Era de Aquário


No começo dos anos 1970, uma febre editorial tomou conta do mundo: a Astrologia. O filão, que ganhou força no fim da década de 1960, encontrou seu expoente na figura enigmática de Linda Goodman.

Linda Goodman nos anos 1960

Astróloga e pesquisora norte-americana, Goodman tornou-se um dos nomes mais importantes do esoterismo mundial, após o lançamento do best-seller Seu Futuro Astrológico (1968), o livro que popularizou a Astrologia na Era de Aquário. Originalmente intitulado Linda Goodman's Sun Signs, a obra encabeçou a lista dos mais vendidos do New York Times no mesmo ano em que foi publicado. Até hoje é popular em livrarias mundo afora.



Apesar de atualmente um tanto quanto datado, o livro traz curiosas análises dos diferentes tipos de personalidade, baseadas no horóscopo dos signos do Zodíaco. Foi o primeiro livro de Astrologia a entrar para a lista dos mais vendidos do New York Times.

Nada mal para uma autora que estreava aos 43 anos. Mas, ao contrário do que muitos podem imaginar, Linda era uma mulher excêntrica e reclusa, avessa a badalações. Extremamente dedicada às pesquisas e estudos astrológicos, lançou, em 1978, outro estouro de vendas: Os Astros Comandam o Amor (Linda Goodman's Love Signs). O calhamaço, de 900 páginas, é recheado de frases capazes de chamar a atenção da maioria dos leitores — não sem aquela inconfessável ponta de embaraço — que se aventurarem a folheá-lo:

"Um homem de Gêmeos pode encontrar felicidade com uma mulher de Virgem?"

"A relação entre uma escorpiana e um libriano será um tranquilo mar de rosas ou um eterno estourar de fogos?"

"Se você ê de Touro, ou vai amar ou odiar a pessoa de Escorpião. Não existe meio-termo."


Os capítulos são cheios de menções, que vão do clássico infantil Peter Pan, de J.M. Barrie, a outras fontes como o Evangelho, o pensamento dos Índios do Velho Oeste da América do Norte e o escritor Henry James.

O livro é salpicado por essas controversas visões e filosofias. De cara, começa com várias páginas de citações bíblicas e até mesmo uma carta escrita para sua filha, Sally, falecida em decorrência de uma overdose de anfetaminas em 1973 — uma morte que Linda acreditava ser, na verdade, a tentativa de esconder uma fuga. Tanto que, na carta, ela se dirige abertamente à filha como se esta estivesse viva e lendo o livro em 1978.

Extravagâncias à parte, desde sua primeira edição, Os Astros Comandam o Amor vendeu mais de um milhão de cópias. "Linda basicamente se opunha a lidar com a imprensa", explicou seu ex-assessor de imprensa, Arthur Klebanoff. "A única entrevista concedida à revista People, durante os anos em que trabalhei com ela, focou-se na morte de sua filha e não fez jus à Linda. Na verdade, o fato de Linda ser inacessível acabou virando um atrativo de marketing."

Em 1988, mais um lançamento da autora: Signos Estelares (Linda Goodman's Star Signs). De acordo com o New York Times, as vendas totais de Linda, dos três livros, em 15 línguas diferentes, somam mais de 60 milhões de cópias. Segundo o próprio jornal, "o que diferenciava os livros de Goodman era a combinação de seus insights precisos e seu estilo elegante e acessível."


Das pouco consistentes informações disponíveis sobre a autora, em seus próprios livros, é possível supor que Linda Goodman era uma mulher paradoxal, contraditória. Era mãe orgulhosa de sete filhos — dos quais dois não passaram da infância —, ainda que todos eles tenham se distanciado dela. Era uma patriota ferrenha, embora acreditasse piamente que o Governo norte-americano estivesse por trás de um plano secreto envolvendo a morte de sua filha Sally. Era uma estudiosa franciscana e também simpatizante do Vaticano, apesar de ter sido criada na tradição católica americana — sem contar que foi também considerada herege.

Goodman criticava astrólogos e conselheiros espirituais que cobravam por seus serviços, mas ela própria estava na lista dos autores mais lucrativos de sua geração. Vendeu os direitos da edição de bolso de Seu Futuro Astrológico pela fabulosa soma de 225 milhões de dólares, mas morreu sozinha e sem dinheiro. 

Linda Goodman, perto do fim da vida
Entre os poucos amigos, era considerada tanto carente como reclusa. Era, ao mesmo tempo, celebridade e eremita. Foi da primeira geração de diabéticos e dispor de insulina, mas optou por se tornar uma "frutariana" (pessoa que ingere apenas frutas e sementes cruas), o que pode ter levado à amputação de parte de sua perna, pouco antes de morrer, aos 70 anos. No fim de sua vida, seus filmes favoritos eram ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939) e Irmão Sol, Irmã Lua (Fratello Sole, Sorella Luna, 1972). Ela os exibia regularmente em casa, para seus seletos amigos íntimos. Morreu falida e solitária, em 1995.


Gato por lebre


O nome do ator Robert Englund, à primeira vista, pode não despertar nenhuma lembrança. Mas o personagem imortalizado por ele certamente é conhecido nos quatro cantos do planeta: Freddy Krueger.

Robert Englund
Sua estreia no cinema foi em Buster and Billie (1974), mas Englund só ganharia destaque dez anos depois, ao protagonizar o inesquecível vilão de A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), uma das franquias de terror mais famosas de todos os tempos.

Seu começo de carreira, nos anos 70, foi pouco expressivo. Mas quando ele explodiu, nos anos 80, os distribuidores de fitas não perderam tempo e tentaram faturar com o nome dele. Slashed Dreams / Sunburst é um exemplo. Um dos primeiros filmes do ator, essa obscura e paupérrima produção, originalmente lançada em 1975, não tem NADA de terror. Mas quando A Hora do Pesadelo virou febre, em meados dos anos 80, Sunbusrt ("raio de sol", em inglês) foi resgatado do limbo, rebatizado de Slashed Dreams ("sonhos retalhados") e lançado em vídeo como filme de terror, aproveitando a fama recente de Englund e seu personagem Freddy Krueger.

Até a capa foi feita para fisgar os incautos

A história se passa em um cenário que lembra um pouco o de Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972). Um casal de jovens estudantes resolve visitar um ex-colega que largou tudo para viver no mato, em meio à natureza selvagem. Na procura pelo colega, o casal contempla a paisagem e desfruta dos prazeres da natureza. 

E até difícil dizer do que se trata o filme. Durante quase uma hora, a câmera apenas segue o casal, enquanto sobem e descem montanhas, passam por trilhas e dormem à beira do lago. A impressão é que o diretor saiu filmando a esmo, sem roteiro nem trama. Para piorar, o filme é terrivelmente arrastado e pontuado por músicas chatíssimas (e aparentemente intermináveis), espécie de pastiche de Joan Baez. Uma tentativa de mostrar a busca dos jovens pelo sentido da vida? Ou de ensinar que, mesmo em meio à natureza, é preciso tomar cuidado com possíveis estupradores à espreita? Ou ainda, promover rotas de trilhas no interior da Califórnia do Norte?

O casal sonífero
Claro que o passeio não ficaria por isso mesmo. Para intimidar o insosso casal, aparecem dois caipiras pervertidos e meio retardados. Observam, fazem perguntas bobas e depois somem. Lá pelas tantas, os matutos tarados ressurgem. Um deles violenta a garota, enquanto o outro segura o rapaz. Tudo extremamente precário. 

A dupla de caipiras "do mal"
Robert Englund, no filme, é o tal amigo que largou a faculdade para ir buscar o sentido da vida no meio do mato. Ele só aparece nos 10 minutos finais do filme, para tentar consolar a colega estuprada e o colega espancado. O filme termina com o casal andando, ao pôr do sol. Ou seja: assistir a este filme por causa de Robert Englund é perda de tempo, pois nem de longe trata-se de um filme de terror ou mesmo suspense. É um melodrama hippie datado e mal feito, possivelmente sobre o sentido da vida, o amor e a importância de se conectar à natureza para encontrar seu verdadeiro eu.

Englund, quando finalmente dá as caras, no fim do filme
Hoje, aos 68 anos, Robert Englund mora com a esposa, na Califórnia, e continua atuando em filmes e séries de TV. Apesar de Freddy Krueger ter ficado para trás, será sempre lembrado por antigas e novas gerações de fãs de terror.

Englund hoje em dia