A trilha sonora não oficial de Vale Tudo


O sucesso da novela Vale Tudo (1988/89) não é novidade para nenhum brasileiro. Até quem não é noveleiro sabe disso. Além da trama e dos inúmeros personagens inesquecíveis — dos protagonistas aos secundários — um outro aspecto ajudou a perpetuar esse êxito: a trilha sonora. 


Impossível não associar à novela canções como Brasil (Gal Costa), Isto Aqui O Que É (Caetano Veloso), É (Gonzaguinha), Faz Parte do Meu Show (Cazuza) e Todo Sentimento (Verônica Sabino), entre outras. Mesmo a instrumental Sem Destino, de Léo Gandelman, nos remete instantaneamente ao núcleo rico e aos personagens sofisticados da novela. A introdução da faixa dava o tom às cenas de suspense ou aos golpes de Maria de Fátima (Gloria Pires), enquanto o restante da canção era a música de fundo dos jantares, coquetéis e reuniões dos grã-finos da novela.

A trilha internacional também marcou época, com os hits Father Figure (George Michael), Lost in You (Rod Stewart), Silent Morning (Noel), Paradise (Sade), entre outros, além da maior de todas, Baby Can I Hold You? (Tracy Chapman), tocada à exaustão tanto na novela como fora dela. 


Produto da era em que as trilhas sonoras das novelas eram recheadas de sucessos que caíam rapidamente no gosto dos telespectadores e eram associados aos personagens, os discos nacional e internacional de Vale Tudo não fugiram à regra. Mas além da riqueza das faixas em si, muito bem utilizadas e exploradas ao máximo na trama, outras tiveram também presença marcante, apesar de não terem sido incluídas nos LPs oficiais da novela.

Do LP Ocidente (1988), de Léo Gandelman, a já mencionada Sem Destino entrou na trilha oficial de Vale Tudo. Mas três outras faixas do álbum Ocidente também permearam boa parte da trama de Gilberto Braga: Pensando em Você, que servia de tema para cenas românticas (ou melancólicas) entre alguns personagens, especialmente Fátima, No Ar, usada como uma espécie de tema 'sensual' também em cenas românticas ou como música de fundo em restaurantes, e Saxsambando, usada em cenas com pegadas mais cômicas, especialmente as de Aldeíde (Lilia Cabral). Ou seja: o disco de Léo Gandelman é quase uma trilha instrumental complementar à de Vale Tudo.

Ocidente (1988)

Max Pierre, um dos produtores musicais de Vale Tudo, comenta no livro Teletema Vol. 1 (2014), de Guilherme Bryan e Vincent Villari: "A exemplo do César Camargo Mariano em Mandala, eu convidei o Léo para fazer a trilha incidental, pondo em troca uma música dele no disco. E Léo ficou comigo lá, durante um mês, fazendo a trilha. A gente o colocava tocando e sax direto para a imagem gravada."

Outra faixa utilizada na fase inicial da novela foi Chansong, de Tom Jobim, que servia de tema para o personagem Rubinho (Daniel Filho) e seu sonho de se tornar um pianista famoso em Nova York. Chansong foi tirada do álbum Passarim (1987). Na época, Jobim já era mais do que reconhecido por suas realizações musicais. Mesmo assim, entre seus LPs, foi o primeiro a conferir ao músico um disco de ouro [mais de 100 mil cópias] no Brasil, como informou o site da Folha de S. Paulo. Assim como aconteceu com Tom Jobim, o sonhador personagem Rubinho esperava conseguir reconhecimento no exterior e ser valorizado como músico.

Passarim (1987)
O famoso Adágio em sol menor, mais conhecido como Adágio de Albinoni também serviu de tema para Heleninha e Tiago e pontuou alguns momentos dramáticos da história.


E um pequeno (e quase imperceptível) bônus: no primeiro capítulo, na festinha de 21 anos de Fátima, regada a bolinho com velinha, olhinho de sogra, cocadinha, docinho de leite, salgadinho enfeitado com florzinha de tomate, pode-se ouvir ao fundo Nem Um Toque, música de Rosana, que estava no auge do sucesso. A faixa fez parte do álbum Coração Selvagem (1987), cheio de hits e que transformou Rosana em diva.