Double Vision


Sabe aqueles telefilmes do começo dos anos 1990? Com uma trama policial clichê e uma dose de sensualidade, mas tudo muito careta. Apenas pretensamente sexy, geralmente com belas mulheres de lingerie e galãs de cabelo comprido, ao gosto da época. Assim é Double Vision, baseado em um conto da popular autora americana de best-sellers Mary Higgins Clark.


A protagonista do filme é Kim Cattrall, ainda na fase pré-Sex And The City, quando fazia papeis sem importância em comédias baratas e filmes para a TV. Kim faz aqui duas personagens: as irmãs gêmeas Caroline e Lisa. 

A recatada Caroline e a saidinha Lisa
Lisa, a gêmea sensual e 'prafrentex', mora em Londres, é uma aspirante a modelo e tem um caso com um jovem marrento, vivido por Naveen Andrews - o Sayid de Lost - bem antes de se tornar conhecido do grande público. E ainda é amante de um homem mais velho e casado, vivido por Christopher Lee (um papel bem aquém do talento do veterano ator). 

Caroline, a gêmea certinha e recatada, mora nos Estados Unidos e tem constantes pesadelos e visões com a irmã. Decide, então, ir para Londres ver se está tudo bem com Lisa. Mas Lisa desapareceu. Caroline se faz passar pela irmã e, ao longo de sua investigação pessoal, descobre o tipo de vida que Lisa estava levando, assim como seus relacionamentos suspeitos. Acaba se envolvendo, contra sua vontade, com o namorado marrento da irmã, que pode (ou não) estar envolvido no sumiço de Lisa.

Christopher Lee e Kim Cattrall
Naveen Andrews
O visual do filme é bem datado, pra não dizer cafona. Apesar de ser do começo da década de 90, ainda cheira a final de anos 80. O telespectador sabe que se trata de uma pessoa interpretando dois papeis, mas o diretor tenta torná-las bem distintas exagerando nas diferenças de comportamento e indumentária entre as gêmeas.

As atuações são bem canastronas e a música é sofrivel, típica de filmes de baixo orçamento daquela época. Mas vale como curiosidade para fãs de Kim Cattrall e Naveen Andrews. Em outras palavras, uma chance de ver um triângulo amoroso entre Samantha Jones de Sex And The City, Sayid de Lost e o eterno vampiro Christopher Lee.


Capetas em formas de guris


Em um post de dois meses atrás, escrevi sobre o filme A Inocente Face do Terror e comentei que crianças em filmes de terror sempre garantem bons sustos. Ainda mais quando elas são as vilãs. E como o Dia das Crianças está chegando, escolhi seis filmes em que os pequenos se juntam e tocam o terror, literalmente.

A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960)



Direção: Wolf Rilla
Elenco: George Sanders, Barbara Shelley, Martin Stephens, Michael Gwynn, Laurence Naismith

Esse quase todos já assistiram, ou pelo menos conhecem de nome. Os habitantes da pequena cidade de Midwich, no interior da Inglaterra, desmaiam por algumas horas, sem motivo aparente. Ao acordarem, ninguém sabe o motivo do desmaio coletivo. O misterioso ocorrido chama a atenção do exército, que isola a área e considera o assunto como segredo militar. Dois meses depois, as mulheres ficam grávidas. Mas quando as crianças nascem, se mostram extremamente inteligentes e com traços desconhecidos da raça humana. Todas se parecem, têm o mesmo peso e o mesmo cabelo branco. Todas se desenvolvem precocemente e se comportam de forma estranha, como se conspirassem algo. Obra do diabo? Ou de alienígenas? As criancinhas são realmente assustadoras e o clima sombrio funciona perfeitamente. Ganhou uma refilmagem em 1995, dirigida por John Carpenter e estrelada por Christopher Reeves. 


Peopletoys (1974)



Leif Garrett e Shelley Morrison
Direção: Sean MacGregor
Elenco: Sorrell Booke, Gene Evans, Taylor Lacher, Shelley Morrison, Leif Garrett

Esse é da cota dos ultra-mega-obscuros. Também conhecido como Devil Times Five (Diabo vezes cinco), Tantrums (Fúrias) e The Horrible House on the Hill (A horrível casa na colina). Em uma colina coberta de neve, cinco crianças sobrevivem a um acidente com a van em que estavam. Arrastam-se para fora do veículo e seguem andando, até que encontram uma pousada afastada, onde se escondem. Lá estão hospedados um rico empresário e seus amigos. Depois de algum tempo, as crianças dão as caras, explicam aos adultos que sofreram um acidente e estão aguardando socorro. Coisas estranhas começam a acontecer e o grupo se vê sem eletricidade e sem telefone. Um a um, os adultos tornam-se presas em um jogo que resulta na morte violenta de cada um. Quando os poucos adultos restantes começam a desconfiar que as mortes têm ligação com as esquisitas crianças, já é tarde. Não espere um festival de sangue e tripas. O filme é arrastado e a atmosfera assustadora é criada lentamente, ao mostrar as crianças cada vez mais perturbadas e psicóticas. Uma delas, aliás, é Leif Garrett, ainda novinho e antes de se tornar ídolo adolescente. Seu persongem é uma espécie de drag queen mirim enrustida. A mãe de Leif, Carolyn Stellar, também está no elenco, assim como a irmã de Leif, Dawn Lyn. Outra presença interessante é Shelley Morrison, a Rosario de Will & Grace, ainda jovem e bonitona.


Quem Pode Matar uma Criança? 
(¿Quién puede matar a un niño?, 1976)



Direção: Narciso Ibáñez Serrador
Elenco: Lewis Fiander, Prunella Ransome, Antonio Iranzo, Miguel Narros, María Luisa Arias

Esse é um tesouro escondido, obrigatório para os apreciadores do gênero. Realmente perturbador e ainda assustador. Um simpático casal de ingleses, de férias, resolve ir até uma ilha na Espanha. A mulher está grávida. Ao chegarem lá, se deparam com o local deserto. Não há ninguém. Aos poucos, as crianças vão surgindo, misteriosas. Um clima de tensão se instala. Sem obter respostas, o casal percebe que algo muito estranho aconteceu ali. Descobrimos depois que os adultos foram mortos pelas crianças, sem razão aparente. Enigmáticos, traiçoeiros e violentos, os pequenos habitantes da ilha passam a intimidar o casal, que precisa agora lutar pela sobrevivência. Por muito tempo, o filme, com cenas fortes, teve problemas com a censura e diversas edições com vários cortes. Chegou a ser banido de alguns países. Foi lançado simultaneamente com os nomes Would You Kill a Child? (Você mataria uma criança?) e Death is Child's Play (A morte é brincadeira de criança) no Reino Unido. A American International Pictures lançou o filme como Trapped! (Capturados) e Island of the Damned (Ilha dos amaldiçoados) simultaneamente nos EUA.


The Children (1980)



Martin Shakar
Direção: Max Kalmanowicz
Elenco: Martin Shakar, Gil Rogers, Gale Garnett, Shannon Bolin, Tracy Griswold

Aqui a história é sobre cinco crianças de uma cidadezinha que, após contato com uma nuvem de fumaça tóxica, tornam-se frias e aparentemente sem alma. A tal fumaça, que vazou de uma usina nuclear, atingiu o ônibus escolar em que estavam as criancinhas. Os zumbis mirins, cujas unhas tornaram-se pretas (como se tivessem usado esmalte preto), adquirem o poder de queimar, em poucos segundos, tudo que tocam. Daí em diante vira um festival de carne tostada, já que os adultos fritam feito churrasco quando encostam nessas crianças. Os que conseguiram se manter vivos precisam deter esses diabinhos, tarefa que se mostra mais difícil do que o imaginado. O filme, de baixíssmo orçamento, vale mais pela presença de Martin Shakar, que viveu o irmão de Tony Manero em Os Embalos de Sábado à Noite. No geral, as atuações (inclusive das crianças) são fraquíssimas e os efeitos visuais, risíveis.


Aniversário Sangrento (Bloody Birthday, 1980)




Direção: Ed Hunt
Elenco: Lori Lethin, Melinda Cordell, Julie Brown, K.C. Martel, Billy Jacoby, Elizabeth Hoy

Esse é meu favorito sobre grupo de psicopatas precoces. Nada faz muito sentido, mas o filme prende a atenção. Algum dia ainda farei um post inteiramente dedicado a ele. Três crianças nascem ao mesmo tempo, de pais diferentes, durante um eclipse solar. Dez anos depois, prestes a comemorarem o décimo aniversário, o trio começa a matar, aparentemente por simples prazer mórbido. Obedientes, educados e bons alunos, ninguém suspeita dos pequenos dissimulados. Até que um garotinho, Timmy, amigo do trio, começa a desconfiar que aqueles três não são tão bonzinhos quanto parecem. Com a ajuda de Joyce, sua irmã, Timmy precisa provar que as três pestinhas são as causadoras das mortes na vizinhança. Mas os jovens psicopatas não deixarão barato. O elenco infantil é ótimo. E Lori Lethin, que faz o papel da irmã de Timmy, estrelou vários filmes de terror B nos anos 80.


Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984)



Direção: Fritz Kiersch
Elenco: Peter Horton, Linda Hamilton, R.G. Armstrong, John Franklin, Courtney Gains

Um grupo de crianças assassina brutalmente todos os adultos de uma pequena cidade de Iowa, liderados pelo pastor mirim Isaac. Eles fazem parte de uma seita pagã juvenil que venera uma entidade sobrenatural. Três anos depois, um jovem casal viaja pelos EUA, quando se depara com uma criança morta - aparentemente atropelada - na estrada. Tentam buscar ajuda justamente na cidadezinha onde as crianças malévolas praticam a seita. A partir dali, precisam descobrir o que se passou naquele lugar e tentar salvar as próprias vidas. Baseado no conto "As Crianças do Milharal", de Stephen King. Mas o próprio King afirmou que detestou a adaptação para o cinema. De fato, é um filme difícil de ver inteiro, mas em certos momentos tem um clima interessante. 

Nem toda nudez será castigada


No começo da década de 1980, quando o naturismo era algo ainda meio nebuloso (por mais que já fosse praticado há décadas), começaram a surgir novos clubes e associações para naturistas. Famílias podiam passar dias nesses lugares, que se tornavam cada vez mais populares, ao estilo dos hotéis-fazenda. E todos tinham a liberdade de estar em contato com a natureza, praticar esportes, brincar e relaxar, porém nus.


Na esteira dessa estilo de vida que começava a ser mais difundido, foi produzido um filme britânico mega obscuro: Educating Julie (1984). Dirigido por Gail Hardman, era uma mistura de documentário e comédia romântica sobre... nudismo. A produção era modesta e tinha um quê de "Telecurso 2º Grau". Muitos dos depoimentos são reais, feitos com praticantes de nudismo de verdade.

Julie (Gail Ward) é uma estudante tímida, mas muito dedicada. No sorteio dos temas para o trabalho escolar, ela tira "Nudismo nos anos 80". Com o namorado Steve (Miles Taylor), que se mostra relutante e cético, ela visita alguns clubes nudistas da Inglaterra e de fora. Cheia de dúvidas e inseguranças à princípio, ela resolve mergulhar na pesquisa. Em uma viagem à Flórida, Julie faz amizade com vários nudistas, aprende sobre essa prática e descobre por que esse estilo de vida atrai tantas pessoas. 

Julie (Gail Ward)
Steve (Miles Taylor) e Julie (Gail Ward)
O filme apresenta uma visão geral sobre o naturismo e um pouco da história do nudismo na sociedade. No decorrer da pesquisa, a personagem amadurece e passa a se conhecer melhor, à medida que vai conhecendo melhor outros praticantes de nudismo de várias idades.

Mas não espere um roteiro muito elaborado ou grandes atuações. Tudo é muito didático e até ingênuo para os padrões de hoje. Funciona mais como uma espécie de diário de viagem, mas não deixa de ser informativo. Tanto que foi o primeiro filme "de verdade" que teve o apoio das associações naturistas britânicas.



A nudez do casal principal - Julie e o namorado - assim como do resto do elenco (formado por nudistas reais) é mostrada com naturalidade e sem a menor conotação sexual. O objetivo é desfazer ideias erradas sobre o nudismo. O nome do filme pegou carona no grande sucesso de um outro filme britânico, do ano anterior: Educating Rita (no Brasil, O Despertar de Rita), ganhador do Oscar de Melhor Filme de 1983.

Não importa o quanto avancemos. Certas questões permanecem tabus eternos. A nudez é uma delas. Em tempos de total falta de privacidade, com a invasão de câmeras e smartphones em todos os lugares, curtir a própria nudez sozinho - ou praticar o nudismo em grupo - virou algo bem menos tranquilo do que antes. Nesse sentido, Educating Julie vale por mostrar uma época em que estávamos bem menos expostos aos olhares maliciosos e à invasão de privacidade.


No final, Julie apresenta o trabalho em sua classe e passa com louvor