Excêntricas capas de LPs dos anos 50 e 60 - Parte 1


Nada como os ingênuos anos 50 e os ousados anos 60... Os discos de vinil, ainda muito em alta naqueles tempos, ganhavam capas elaboradas e exóticas, com artes gráficas exclusivas, modelos, paisagens, cenários e toda uma produção por trás. Dando uma olhada em algumas daquelas pitorescas capas, é impossível não achar graça da excentricidade ou do romantismo inocente, hoje altamente kitsch e caricato. Algumas dessas capas hoje teriam até duplo sentido. Aqui a primeira parte da lista:

Anna Russell – In Darkest Africa (1957)




Al Quincas & Nestor Campos – Boite Para Dois (1958)




João Maria De Abreu e seu Trio - Enquanto Ela Não Chega... (1958)




Mozart e Sua Bandinha – Onde Canta o Sabiá (1958)




Mozart e Walter – 1 Pistão e 5 Saxofones (1958)




Renato de Oliveira e Sua Orquestra – Bom Mesmo é Mu… sica (1959)




Steve Bernard e Seu Conjunto – Filigrana Sonora em Órgão Hammond (1960)




Uccio Gaetta – Dedos Vertignosos (1960)




Los 5 Latinos - Os Doces 16 Anos (1961)




De Castro e Seu Conjunto – De Castro Toca e Você Dança (1962)




Sylvio Vianna e Seu Órgão – Ritmo Gostoso! (1962)




Lauro Paiva e Seu Conjunto - O Ritmo é... Lauro Paiva (1963)




Paddy Roberts – Songs For Gay Dogs (1963)




Orquestra Namorados do Caribe - Sabor de Sucesso (1964)




Vários - Carnaval 69 (1969)


10 vezes em que o passeio não saiu como planejado


Na praia, nas montanhas, no campo... Nada como um fim de semana de paz, em um lugar afastado e tranquilo, com ar puro. Pena que nem sempre é assim. Pelo menos não nos filmes.

Em sentido horário: Sob o Domínio do Medo; Violência Gratuita; Terror na Praia
Em diversas vezes, o cinema nos assustou com a ideia de transformar um idílico e pacífico final de semana ou feriado em uma verdadeira tragédia. Um casal, uma família ou um grupo de amigos resolve passar uns dias longe das atribulações da cidade. O que deveria ser um passeio cheio de descontração, quietude e diversão, no entanto, acaba se tornando um pesadelo. Por quê? Não tem wi-fi? Pior, bem pior do que isso. Estou falando da presença inesperada de sádicos, bandidos ou psicopatas.

Em sentido horário: Os Estranhos; Os Anfitriões; A Vingança de Jennifer
Essa moda começou nos anos 70, quando filmes com essa premissa tornaram-se muito comuns. Existem vários nessa linha. Uns com mais violência, outros com mais suspense, mas sempre construindo uma tensão crescente e aflitiva. Selecionei dez desse gênero. Todos mostram como pode ser tênue a linha que separa a suposta tranquilidade da iminente ameaça.


1. Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971)
Direção: Sam Peckinpah
Com: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan


Considerado um dos melhores de Peckinpah, causou polêmica quando foi lançado, pela violência excessiva. O pacato matemático David (Dustin Hoffman, ainda em início de carreira) se muda para uma fazenda no interior da Inglaterra com a esposa Amy (Susan George). Tudo que ele buscava era paz e tranqüilidade para terminar seu livro. Mas a coisa degringola quando ele contrata alguns homens para reformarem sua garagem. Logo David se envolve com um grupo de valentões da região. Começa um jogo de intimidação, medo e desrespeito ao casal. O matemático é levado ao limite para defender seu lar e sua honra. Quando sua mulher é atacada e a sua casa invadida, ele começa uma luta para sobreviver e se vingar dos bandidos. Refilmado em 2011.


2. Terror na Praia (Terror on the Beach, 1973)
Direção: Paul Wendkos
Com: Dennis Weaver, Estelle Parsons, Kristoffer Tabori


Um dos filmes mais reprisados nas madrugadas da Globo nos anos 70. Família resolve sair para acampar em uma praia durante o fim de semana. O prazer do camping é interrompido quando uma gangue de motoqueiros decide se divertir sadicamente, atormentando pais e filhos. Os delinquentes juvenis colocam em risco a segurança da pacata família, com atos de brutalidade aparentemente gratuitos. Primeiro o susto, depois o suspense, a indignação e, em seguida, a vingança. Feito para a TV.


3. Trauma (House on Straw Hill / Exposé, 1975)
Direção: James Kenelm Clarke
Com: Udo Kier, Linda Hayden, Fiona Richmond


Filme estranho, carregado de erotismo e suspense. Um famoso escritor (Udo Kier), em uma casa afastada, trabalha incessantemente em seu novo romance. Contrata uma jovem mulher (Linda Hayden) para ser sua datilógrafa e secretária particular. Começa a sentir-se atraído e confuso pela bela e misteriosa moça. Na initimidade de seu quarto, ela se entrega a atividades eróticas, mas repudia friamente as investidas do escritor. Ao mesmo tempo, ele tem alucinações criminais. Nada é muito claro, mas a tensão é crescente. Logo a violência e a luxúria explodem.


4. Fim de Semana Mortal (Death Weekend / The House by the Lake, 1976)
Direção: William Fruet
Com: Brenda Vaccaro, Don Stroud, Chuck Shamata


O dentista Harry (Chuck Shamata) é um playboy rico, com uma bela casa de campo. Resolve convidar Diane (Brenda Vaccaro), uma amiga modelo, para passar um fim de semana lá com ele. Na estrada, a caminho da casa, o casal passa por uma turma de jovens arruaceiros. Os rapazes descobrem onde fica a casa e, embriagados, aparecem lá para intimidar e aterrorizar o casal. Tem início um jogo de desordem, humilhações e agressões. Violentada, a modelo precisa lutar para sobreviver ao fim de semana mortal e se vingar dos sádicos. Filme obscuro e bem raro.


5. The Seducers (The Seducers / Death Game, 1977)
Direção: Peter Traynor
Com: Sondra Locke, Colleen Camp, Seymour Cassel


A fórmula aqui se desvia ligeiramente: desta vez, a vítima está sozinha e em sua própria casa. É o aniversário de George (Seymour Cassel) e sua família está viajando. Duas moças, Jackson (Sondra Locke, que na época era namorada de Clint Eastwood) e Donna (Colleen Camp) batem à sua porta, no meio da noite, encharcadas de chuva. Estão à procura do endereço de uma festa para onde deveriam ir, mas se perderam. Pedem humildemente para usar o telefone e se secar. Aos poucos, começam a seduzir George, que, mesmo ressabiado no começo, acaba não resistindo à tentação. Mas logo as duas garotas se mostram perversas e sádicas. Amarram o homem, bagunçam e sujam sua casa e passam a torturá-lo. A coisa foge do controle. O filme é todo escuro e bem ruim, cheio de closes confusos. E o final é um dos mais idiotas que já vi.


6. Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977)
Direção: Wes Craven
Com: Dee Walace Stone, James Withworth, Michael Berryman


Clássico cult do diretor Craven, especializado em filmes de terror (Aniversário Macabro, A Hora do Pesadelo, Pânico). Família sai em viagem rumo à Califórnia, mas antes resolve atravessar o deserto de Yucca para encontrar uma antiga mina de prata. A ideia se revela catastrófica quando eles vão parar em uma  área isolada de testes da Força Aérea norte-americana, habitada por um grupo de canibais primitivos e sádicos. O passeio vira uma luta pela sobrevivência: a família de classe média americana contra os selvagens canibais.


7. A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave / Day of the Woman, 1978)
Direção: Meir Zarchi
Com: Camille Keaton, Eron Tabor, Richard Pace


Clássico do gênero sexploitation (filmes de baixo orçamento, independentes, recheados com nudez gratuita), por vezes cru até demais. Jennifer (Camille Keaton, sobrinha-neta do comediante Buster Keaton) resolve sair da cidade, em busca de paz e privacidade para terminar seu novo livro. Aluga uma casa à beira do rio, perto de Nova York. A presença da bela mulher chama a atenção dos caipiras locais, que resolvem atacá-la. Além de a estuprarem sucessivas vezes, ainda destroem o livro que ela estava escrevendo. Fortemente traumatizada, Jennifer se recupera e agora só quer saber de uma coisa: vingança. Os espertinhos que se cuidem, pois a moça não terá a menor piedade. Ganhou um remake em 2010, com o título Doce Vingança.


8. Os Anfitriões (American Gothic, 1988)
Direção: John Hough
Com: Sarah Torgov, Rod Steiger, Yvonne De Carlo


Esse é um dos filmes que considero "tesouro escondido" do tempo das videolocadoras. Após passar um tempo internada em uma clínica psiquiátrica por causa da morte acidental de seu filho pequeno, Cynthia (Sarah Torgov) e o marido reúnem alguns amigos para um passeio pelo interior, no fim de semana. O grupo, que viaja em um pequeno avião, é pego de surpresa devido a uma falha no motor. São obrigados a parar em uma ilha remota, onde encontram uma estranha família, comandada por Pa (Rod Steiger) e Ma (Yvonne De Carlo), que os acolhe muito bem. Os jovens precisam passar a noite com os anfitriões para buscarem ajuda pela manhã. Mas descobrem que a excêntrica família tem estranhos hábitos. O casal de filhos, por exemplo, apesar de ter mais de 40 anos, é tratado e age feito crianças. O que começa como simples hopsitalidade vira uma corrida pela sobrevivência quando um a um, os amigos começam a desaparecer. A coisa vai bem além de mera excentricidade...


9. Violência Gratuita (Funny Games, 1997)
Direção: Michael Haneke
Com: Susanne Lothar, Ulrich Mühe, Arno Frisch, Frank Giering


Esse thriller psicológico austríaco deu o que falar. Uma família de férias em uma casa à beira de um lago é surpreendida por dois jovens, Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering). Inicialmente inofensiva e cerimoniosa, a dupla vai se revelando intimidadora, sádica e agressiva. Eles mantêm a mulher, o marido e o filho como reféns, submetendo-os a um jogo de perversão, violência e humilhações. Tudo pelo mero prazer doentio. Escrito e dirigido por Michael Haneke, foi refilmado, em inglês, pelo próprio diretor em 2007, com equipe e elenco americanos.


10. Os Estranhos (The Strangers, 2008)
Direção: Bryan Bertino
Com: Scott Speedman, Liv Tyler, Gemma Ward


O jovem casal Kristen (Liv Tyler) e James (Scott Speedman) viaja para a remota casa de veraneio dos pais dele. Tudo que querem é descansar um pouco. Mas sua paz, como já era de se esperar, não vai durar muito. Três estranhos mascarados invadem o local, sem motivo aparente. Os misteriosos visitantes têm o prazer doentio de aterrorizar o casal, o que leva Kristen e James a apelar para seus instintos mais brutais. Não há limites nessa luta para o casal salvar as próprias vidas. Realmente assustador.

A americana 'made in Brazil'


Ainda falta um mês para estrear, no canal Viva, a novela Cambalacho, de Silvio de Abreu. Mas a expectativa já é grande entre os fãs da trama que foi sucesso absoluto nos anos 80. Muitos saudosos terão a chance de rever os trambiques de Naná (Fernanda Montenegro) e Jejê (Gianfrancesco Guarnieri), se virando entre um cambalacho e outro para sobreviverem e ainda sustentarem uma penca de criancinhas órfãs.

São tantos os personagens marcantes que fica até dificil falar de todos. Andreia Souza e Silva (Natália do Valle), Tinna Pepper (Regina Casé), Lili Bolero (Consuelo Leandro) e Ana Machadão (Débora Bloch) são só alguns deles, além da dupla central de cambalacheiros, claro. (Sou suspeito, admito, pois Cambalacho é minha novela das 7 favorita.)

Muitos desses atores e atrizes continuam fazendo novelas, filmes ou peças, e ainda são rostos frequentes na mídia. Mas uma personagem, em especial, fez um inesperado sucesso na novela: a "gringa" Debbie Day. O nome ainda é lembrado entre os que assistiram à novela. A atriz que viveu a americana Debbie é Christine Nazareth.


Christine, em Cambalacho, como Debbie Day
Christine atualmente
Christine nasceu em Copacabana, Zona Sul do Rio, e hoje mora em Los Angeles. Tem um filho de 16 anos e "um marido brilhante que cria campanhas para a Apple", nas palavras da propria atriz. Ela também escreve roteiros que um dia serão produzidos ("todo roteirista tem que acreditar nisso") e, enquanto espera, traduz filmes e seriados para o Brasil.

Conversei com Christine por e-mail e remexemos um pouco nas divertidas lembranças de Cambalacho. A entrevista segue abaixo:

1) Como surgiu o convite para fazer Cambalacho?
Foi mais ou menos eu quem me convidei para fazer o papel da americana em Cambalacho. Na época eu era casada com o Euclydes Marinho, autor e roteirista da TV Globo, com que eu tinha colaborado em alguns especiais e seriados. Nossa turma de amigos incluía o diretor Jorge Fernando, que dirigiu Cambalacho. Quando eu soube do papel da americana, achei que só eu poderia fazê-la. Insisti, implorei e o Jorginho acabou me deixando fazer um teste no último segundo, no qual eu falava com o Silvio de Abreu e o Daniel Filho através da câmera, tentendo convencê-los a me dar o papel. Deu certo.


2) Como foi fazer a Debbie Day?
Interpretar a Debbie Day foi... o que mais pode ter sido? Uma delícia, obviously.


3) Você já tinha experiência em acrobacia/dança quando fez Cambalacho, não?
Antes de fazer a novela eu passei uns oito anos estudando jazz em Los Angeles. Meu grupo de amigos incluía muitos dançarinos e alguns coreógrafos. Um deles, Kenny Ortega, foi o coreógrafo do filme Xanadu (que, desde então, virou um clássico, daqueles que, de tão ruim, é bom). Além de dançar no filme, também andei na corda (não era corda, era um cabo de aço) no último número musical, em cima da Olivia Newton-John. Foi um dos meus amigos na Califórnia, que era malabarista, quem me ensinou a andar na corda bamba, o que virou um hobby.  

À direita, Christine se equilibra na cena final de Xanadu (1980)


4) Que momento você considera especial em Cambalacho? Uma cena divertida, ou mesmo complicada, que tenha sido marcante?
Houve muitos momentos especiais e hilários durante as filmagens de Cambalacho. Talvez o mais memorável tenha sido a cena do "casamento" em Roma, logo no princípio da novela. O roteiro dizia que eu deveria sair correndo vestida de noiva pelas ruas de Roma, com o Claudio Marzo correndo atrás, até chegarmos na Fontana di Trevi, onde deveríamos pular dentro e nos beijar debaixo da torrente de água. Em si, essa cena já é absurda, considerando-se que era inverno e fazia uns cinco graus abaixo de zero. Mas, de arremate, a TV Globo não tinha permissão para filmar lá, então Jorginho posicionou a câmera na sacada de um quarto de hotel, que ficava em frente, e nos pediu para fazer a cena como se de fato fôssemos um casal de insanos recém-casados que resolveram fazer uma loucura dessas. E foi o que fizemos. Os turistas que estava lá acreditaram e começaram a gritar "Auguri", nos desejando boa-sorte.

Debbie Day vive seu dia de Anita Ekberg em Cambalacho

5) Seu sotaque na novela é divertidíssimo. Era difícil mantê-lo o tempo todo?
Não era difícil manter o sotaque americano, pois eu tinha morado onze anos nos EUA, e fazia só uns dois anos que estava de volta ao Brasil. 

6) Você ajudou a escrever Meu Destino é Pecar [minissérie exibida pela Globo em 1984]. Além de dançarina e atriz, também escreve? 
Meu Destino é Pecar foi uma minissérie que escrevi com o Euclydes, adaptação do livro do Nelson Rodrigues. Além desse e de alguns outros especiais, fui uma das roteiristas da série Armação Ilimitada, série que inovou o humor na TV Globo.

Armação Ilimitada (1985)

(Clique na foto para ampliar)


FICHA DA PERSONAGEM

Nome completo: Emma Mary Smith - conhecida como Debbie Day
Nacionalidade: Americana
Bordão: "Eu nunca traí un amiga. Eu ser como mio presidente, Mr. Reagan: para mim, amiga ser amiga. Inimigas, bang bang!"


A espevitada Debbie Day é uma das vítimas do sedutor advogado Rogério (Cláudio Marzo), por quem se apaixona, em Roma. Mas só aceita se entregar a ele caso se casem. Como Rogério só queria uma aventura com Debbie, faz de tudo para levá-la para a cama. Forja, então, um casamento com ela. Para isso, conta com a ajuda de seu cunhado Wanderley (Roberto Bonfim), trambiqueiro incorrigível que finge ser padre para realizar a cerimônia. Rogério só passa uma noite com ela e, em seguida, ele e o cunhado fogem. Debbie, então, decide vir atrás de Rogério no Brasil, sem imaginar que ele já era casado com Amanda (Susana Vieira). Para piorar, Debbie, ingênua, fica amiga da vilã Andreia (Natália do Valle), irmã de Amanda. Mais tarde Debbie fica amiga do trapezista Rick e vira sua parceira no circo. Mas não sem antes se envolver em várias tramoias de Andreia. A confusão está armada.







De volta para o presente


"O grande sucesso de 1986. Mais uma mostra do espírito inventivo de Silvio de Abreu ao transformar suas tramas folhetinescas numa deliciosa e divertida comédia. Muitas ideias excelentes, perfeita integração  do texto com o elenco e direção (Jorge Fernando)". Assim Ismael Fernandes (1945-1997), primeiro pesquisador a se preocupar com a dimensão histórica da telenovela brasileira, descreveu Cambalacho, em seu livro Memória da Telenovela Brasileira (editora Brasiliense, 1997).


E é exatamente essa a novela que o canal Viva começa a exibir no próximo mês, no lugar de Pedra Sobre Pedra. Uma das mais lembradas dos anos 80, a trama popularizou a expressão "cambalacho" (trambique, golpe, tramoia) em todo o país e criticou, com muito bom humor, a mania do povo brasileiro de trapacear e querer levar vantagem em tudo.

Quarta novela escrita por Silvio de Abreu nos últimos cinco anos, Cambalacho terá um total de 179 capítulos, escritos em 4.645 páginas e, de acordo com o autor, sua intenção quando começou a escrever o texto era falar de "um país de vigaristas e de impunidade". (Folha de S. Paulo, 29 de setembro de 1986)

Qualquer semelhança com os dias atuais NÃO é mera coincidência. Três décadas depois, o que a novela procurou mostrar, de forma cômica, ainda permanece uma trágica realidade no Brasil. Apesar dos intermináveis escândalos de corrupção ganharem destaque nos noticiários do país todo hoje, a velha mentalidade de tentar driblar as leis e tirar vantagem continua entranhada em grande parte dos brasileiros, das camadas mais humildes às mais altas.

Uma coisa, no entanto, nos ajuda a seguir em frente em tempos de crise, tanto em 1986 quanto hoje: o já mencionado bom humor. E é isso que Cambalacho esbanja: "Na novela, o cambalacho é generalizado entre pobres e ricos, mas com diferenças: os pobres, segundo Silvio, não são desonestos, mas necessitados. Já a rica e interesseira Andréia (Natália do Valle), ao tentar livrar-se do marido Antero Souza e Silva (Mario Lago), com quem se casou por dinheiro, é o exemplo da desonestidade." (Marcia Cezimbra, Folha de S. Paulo, 10 de março de 1986.)

Naná (Fernanda Montenegro) e Jejê (Gianfranceso Guarnieri)
Ainda na matéria da Folha (10 de março de 1986) sobre a estreia da novela, a jornalista nos apresenta a trama: "Cambalacho quer dizer trambique e este é o cotidiano dos personagens Leonarda Furtado (Fernanda Montenegro) e Jerônimo Machado (Gianfrancesco Guarnieri), pobres da periferia de São Paulo que sobrevivem com pequenos golpes na praça, apesar da perseguição dos defensores da lei."

A novela foi uma feliz conjunção de acertos, que Ismael Fernandes atribuiu, entre outras coisas, à "sorte de contar com Fernanda Montenegro e Gianfranceso Guarnieri, uma dupla central inesquecível; Nátalia do Valle, uma vilã fantástica; com a cancha televisiva de Susana Vieira e Cláudio Marzo. E a hilariante presença de Regina Casé, que divertiu o Brasil durante sete meses com sua incrível Tina Pepper."

Rogério (Cláudio Marzo) e Amanda (Susana Vieira)
Andreia Souza e Silva (Nátalia do Valle)
Tina Pepper (Regina Casé)
Consuelo Leandro também roubou várias cenas com sua Lili Bolero, mãe de Tina Pepper. Lili era "a estrela que foi sem nunca ter sido" e queria, a todo custo, ser reconhecida como cantora.
Consuelo Leandro e Regina Casé são umas "Dercys Gonçalves", na opinião da própria comediante Dercy Gonçalves, 78. (...) "Eu acho isso bom, apesar de não ser uma imitação, dá resultado, atinge todos os objetivos. E não é qualquer um que tem o dom de imitar". (Folha de S. Paulo, 10 de março de 1986)
Lili Bolero (Consuelo Leandro)
Pouco antes da trama ir ao ar, em pleno governo Sarney, o Brasil lançou o Plano Cruzado. Algumas cenas, por conta disso, tiveram de ser adaptadas, pois faziam referência a valores ainda cotados em cruzeiro. O autor disse, na época, que se assutou quando o governo instituiu o Plano Cruzado [em 28 de fevereiro de 1986], uma semana antes da novela estrear: "De repente, o país ficou honesto da noite para o dia". Esta convicção obrigou o autor a corrigir o rumo de sua comédia, mas segundo ele, "a novela ganhou em atualidade". A solução foi mostrar, na tela, legendas com a correspondência de valores na nova moeda.



Cambalacho foi a primeira novela que Silvio de Abreu fez sem censura. Por isso conseguiu criar dois protagonistas anti-heróis e trambiqueiros e discutir a moral do país, o que, segundo ele, seria inconcebível em tempos de repressão. 

A novela foi vendida para mais de dez países, incluindo Angola, Bolívia, Itália, Porto Rico, Portugal e Venezuela. E foi reapresentada no Vale a Pena Ver de Novo, entre julho e dezembro de 1991. E agora, prestes a completar 30 anos, as peripécias de Naná e Jejê voltam ao ar no Viva, em agosto, para deleite do público.

Cambalacho, na Itália, ganhou o nome de Doppio Imbroglio ("dupla confusão")

Naná e Jejê com sua penca de filhos adotivos

Na última edição de 1986, a revista Veja trouxe um "Pequeno dicionário para entender 1986". Para quem quer embarcar de volta ao passado e entrar no clima de Cambalacho, no Viva, aqui está:

Veja, 31 de dezembro de 1986


Para mais detalhes sobre Cambalacho, acesse o site Teledramaturgia e a página do canal Viva