Sexta básica de (in)utilidades


apresentação deve ser simples – Ostentação e orgulho daquilo que se tem são coisas completamente diferentes. Os bons anfitriões não procuram impressionar, mas apenas causar prazer. Isto vale para tudo. O verdadeiro savoir-faire consiste, por parte dos hosts, não em brilharem eles mesmos, mas em fazer brilhar os outros: a isto se chama “arte de receber”. Não tem importância o lugar, nem o fato de se oferecer caviar ou um vinho importado e caro. Quem não tem Dom Perignon pode oferecer um bom Chateau Mont Clair. De leve.

Aprenda a receber – Etiqueta
Ibrahim Sued
Editora Top, 1977


8 novelas obscuras dos anos 90


No ano passado, fiz um post sobre 8 novelas obscuras dos anos 80. Agora selecionei 8 novelas "obscuras" da década de 1990. Apesar de ter sido uma década com muitas novelas boas, algumas foram quase esquecidas, devido à baixa repercussão e ao desinteresse do público. São elas:


1. Gente Fina (1990)
De Luís Carlos Fusco


Após ser despejado do apartamento em Copacabana, um casal de meia idade (Nívea Maria e Hugo Carvana) vai morar com os filhos e o vovô Olavo (José Lewgoy) num casarão emprestado, no subúrbio do Rio. O velho mote da família que se vê obrigada a mudar seus hábitos depois que o padrão de vida cai. Mas a história, de pouco apelo, passou despercebida. O que me marcou nessa novela pouco lembrada foi a trilha sonora internacional, que tocava direto nas rádios. Advice for the Young at Heart, do Tears For Fears; Oh L'Amour, do Erasure; Another Day in Paradise, de Phil Collins; Jane's Got a Gun, do Aerosmith, How Am I Supposed to Live Without You, de Michael Bolton, entre outras. A trilha nacional também teve dois sucessos de peso na época: Quatro Semanas de Amor, da dupla Luan e Vanessa, até hoje lembrada (versão de Sealed With a Kiss, que entrou no LP internacional da novela, cantada por Jason Donovan) e Dançando Lambada, do Kaoma.


Lizandra Souto teve seu primeiro papel de destaque na Globo com essa novela. A abertura de Cobras & Lagartos (2006) lembrou muito a abertura de Gente Fina. Ambas utilizaram a mesma ideia, do contraste entre símbolos de classe média alta com outros de classe mais humilde (mesa com comidas finas versus mesa com pratos simples, geladeira cheia e geladeira vazia, sala requintada e sala modesta etc.).


2. Mico Preto (1990)
De Marcílio Moraes, Leonor Bassères e Euclydes Marinho


A coroa milionária Áurea (Márcia Real) se casa com o jovem Astor (Marcos Frota). Mas logo ela desaparece, deixando como seu procurador geral o funcionário público Firmino do Espírito Santo (Luiz Gustavo), um homem honesto e sem ambições, porém desconhecido de todos. De uma hora para outra, ele assume a direção das empresas de Áurea e tem que lidar com os três filhos ambiciosos dela. Ao mesmo tempo, Sarita (Gloria Pires), a noiva trapaceira de Firmino, é contratada para se casar com o deputado José Maria (Marcelo Picchi), gay enrustido que mantinha um caso com Zé Luís (Miguel Falabella). O casal gay foi, aliás, o que mais se destacou nessa novela que o público esqueceu rapidamente.


A trilha internacional, no entanto, marcou época: Sending All My Love, do Linear; Move This, do Technotronic; U Can't Touch This, do MC Hammer; The Power, do Snap!; Still Got the Blues, de Gary Moore, entre outras. Uma faixa da trilha nacional, Cruzando Raios, de Orlando Morais, que passou batida na época, foi usada como tema de abertura do remake de Anjo Mau, sete anos depois. 


3. Salomé (1991)
De Sérgio Marques


Baseada no romance homônimo de Menotti Del Picchia, essa adaptação foi mais uma novela das 6 que não conquistou nem repercussão nem bons índices de audiência. Na década de 1930, Salomé (Patrícia Pillar) é uma jovem à frente de seu tempo. Ousada e rebelde, ela escandaliza a sociedade com uma dança em que fica seminua num palco em Paris. Voltando para São Paulo, vai morar na fazenda Pindorama, onde conhece Duda (o então estreante Petrônio Gontijo), por quem se apaixona. Lá, entra em choque com o padrasto, que alimenta um forte desejo pela enteada. 


Os conflitos pioram quando Santa (Imara Reis), mãe de Salomé, se apaixona por Duda. Salomé foi a segunda e última tentativa da Rede Globo em apresentar uma telenovela totalmente gravada antes de sua estreia (a outra foi Pacto de Sangue, em 1989). A reconstituição de época e os figurinos eram lindos. A abertura era baseada no quadro O Beijo, do pintor austríaco Gustav Klimt.


4. O Mapa da Mina (1993)
De Cassiano Gabus Mendes


Último trabalho de Cassiano Gabus Mendes, que viria a falecer poucas semanas antes da novela ser finalizada (mas já havia deixado todos os capítulos escritos). Infelizmente o autor - um dos nossos melhores - não conseguiu emplacar com essa, apesar do roteiro inicial que parecia bem empolgante. Elisa (Carla Marins) é uma noviça que tem uma tatuagem no bumbum que indica o “mapa da mina”, isto é, onde estão escondidos os diamantes que foram roubados anos atrás por uma quadrilha.


As joias pertencem a Rodrigo (Cassio Gabus Mendes), já que foram escondidas por seu pai, morto depois de cumprir pena pelo roubo. Lá pelas tantas, depois de algumas reviravoltas, já tem um monte de gente atrás dos diamantes. Foi a primeira novela de Carolina Ferraz na Globo.


5. Quem é Você (1996)
De Ivani Ribeiro e Solange Castro Neves


Ivani Ribeiro escreveu o argumento dessa novela pouco antes de falecer, em 1995, e passou para Solange Castro Neves, que escreveu apenas os 24 primeiros capítulos, sendo substituída por Lauro César Muniz. A mau-caráter Beatriz (Cássia Kiss) odeia a irmã caçula, a meiga Maria Luiza (Elizabeth Savalla), que ficou fragilizada diante do abandono do pai e sofre crises psicológicas recorrentes.


Beatriz aproveita para convencer Afonso (Alexandre Borges), marido de Maria Luiza, a interná-la em um hospício e assim conquistá-lo. Confesso que vi muito pouco dessa novela. Lembro que não teve boa repercussão e nem muitos atrativos.


6. Anjo de Mim (1996-97)
De Walther Negrão


Foi a novela que sucedeu Quem é Você e também mais uma que passou despercebida. O escultor Floriano Ferraz (Tony Ramos) é atormentado por visões de uma mulher que morre a seus pés. Resolve procurar um psiquiatra e, com técnicas de regressão, descobre que no século 18 ele fora um tenente apaixonado por uma jovem, que morrera tragicamente. Antes de morrer, ela havia marcado um encontro com o amado nos dias atuais, em uma determinada mansão.


Floriano inicia uma busca, mas encontra três possíveis candidatas. O espiritismo, sob a ótica da regressão a vidas passadas, permeia a trama. Mas a história do homem que procura a reencarnação de um antigo amor não cativou os telespectadores. Foi a primeira novela de Carolina Kasting. 


7. O Amor Está no Ar (1997)
De Alcides Nogueira


Sucedeu Anjo de Mim e foi a terceira novela das 6 consecutiva a não emplacar, o que caracterizou, na época, um período de crise no horário. Na fictícia cidade de Ouro Velho, Sofia (Betty Lago), de família judia, luta para se manter no poder de sua empresa de turismo aquático. A sogra, Úrsula (Nicette Bruno), não aceita a situação e inicia uma disputa pelo controle dos negócios da família. As coisas se complicam quando a irmã de Sofia, Júlia (Natália do Vale), se une a Alberto (Luis Mello), seu cunhado, para afastar Sofia da empresa.


A novela discutiu a questão da existência ou não de vida em outro mundo e mostrou uma cultura não muito difundida em novelas - a dos judeus - mas não cativou o público. Nem mesmo ETs foram suficientes para manter o interesse. Foi a estreia de Eriberto Leão na Globo, como o  extraterrestre João. O tema de abertura foi Love Is In The Air (Ballroom Mix), de John Paul Young, sucesso dos anos 70.


8. Zazá (1997-98)
De Lauro César Muniz


A excêntrica milionária Zazá Dumont (Fernanda Montenegro), apaixonada por aviões, diz que tem certeza de ser filha de Santos Dumont. Ela tem um projeto secreto: um inovador avião atômico. Casada com Ângelo (Jorge Dória), que sempre viveu à sombra de seu dinheiro, o senho de Zazá é dar um rumo à vida de seus sete filhos. A novela teve como subtemas a luta dos portadores de HIV, a exploração do trabalho infantil, amor na terceira idade e futebol feminino. Mas, no geral, não despertou interesse no grande público.


Sexta básica de (in)utilidades


Convidados (boas maneiras) – Convidados merecem tôda a atenção, principalmente os que por insistência estiverem presentes. Para êsses é necessário dar mais que aos outros, principalmente se não fazem parte das amizades assíduas da casa.




Coquetéis (como servi-los) – Também os coquetéis oferecidos antes de uma refeição, são feitos na copa e servidos em bandejas pela empregada ou misturados e servidos pelo anfitrião.



Fonte: Dicionário do Lar – Vol. II
Editora Logos, 1964



Itens anteriores:










Suspense ensolarado ao som de Cole Porter


No texto anterior, falei sobre Morte na Praia, um dos romances policiais de Agatha Christie que mais gosto. A adaptação para o cinema é, também, uma das minhas favoritas.

O mais comum é que um livro, quando transposto para a tela grande, não fique tão bom quanto o original. No caso de Morte na Praia, a trama foi sabiamente adaptada por Anthony Shaffer, que já havia roteirizado o bem sucedido Morte no Nilo (Death on the Nile, 1978), além de outros filmes de suspense como Frenesi (Frenzy, 1972) e O Homem de Palha (The Wicker Man, 1973).

Assassinato num Dia de Sol (Evil Under The Sun) estreou em março 1982 e, embora não esteja entre os mais lembrados quando se fala em obras de Agatha Christie que viraram filme, acho a adaptação brilhante. Alguns personagens foram suprimidos e outros, retrabalhados para servirem aos propósitos cinematográficos. A direção coube a Guy Hamilton, que já havia dirigido outra adaptação de Agatha Christie, A Maldição do Espelho (The Mirror Crack'd, 1980) e era conhecido por ter dirigido vários filmes de 007.

O elenco é recheado de estrelas como Maggie Smith, Jane Birkin, James Mason e Roddy McDowall. O papel de Poirot foi de Peter Ustinov (na minha opiniao, o melhor Poirot), que já havia sido o detetive belga em Morte no Nilo, quatro anos antes.


As personagens Mrs. Castle e Rosamund Darnley, originalmente do livro, foram mescladas e viraram, no filme, uma só: Daphne Castle (Maggie Smith). Outra personganem que sofreu alteração no roteiro foi Emily Brewster, que virou Rex Brewster (Roddy McDowall), um escritor afeminado e afetado. Já o Reverendo Stephen Lane e o Major Barry, da história original, foram cortados da versão cinematográfica.

Roddy McDowall
Jane Birkin
O cenário da história original - North Devon, na costa inglesa - também foi alterado, passando para uma ilha fictícia do Mar Adriático. O reino da Tyrania, mencionado no filme, também é fictício. As locações deslumbrantes das filmagens foram em Maiorca, na Espanha, onde morava, na época, o diretor Guy Hamilton. O roteirista Anthony Shaffer explicou: "O cenário é importante. A ilha tinha que ser uma estrela da história também. Assim como o navio a vapor em Morte no Nilo e o trem em Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 1974) foram estrelas desses filmes."


Maggie Smith, Nicholas Clay e Peter Ustinov
O tom sombrio, comum nos filmes de suspense, não existe em Assassinato num Dia de Sol . Além do cenário de cores vivas e paisagens paradisíacas, os personagens ganharam ares cômicos e divertidos, com diálogos ácidos e espirituosos. Especialmente Maggie Smith, Diana Rigg e Sylvia Miles.

Diana Rigg e Maggie Smith
Sylvia Miles e James Mason
Os figurinos são espetaculares, bem exagerados, mas fiéis à época em que se passa a trama (final da década de 1930). Outro ponto alto é a trilha sonora, composta inteiramente por músicas de Cole Porter. A ideia foi do figurinista Anthony Powell e combinou perfeitamente com a história. Os produtores escolheram o compositor e maestro John Lanchbery para selecionar os temas de cada personagem (incluindo a ilha) e adaptar as canções. Grande parte delas, sucessos de Cole Porter como I Concentrate On You, You're The Top, Begin The Beguine, I've Got You Under My Skin e outras, orquestradas especialmente para o filme.


"Impossível não se lembrar das roupas e do cenário após assistir Assassinato num Dia de Sol. E das músicas", escreveu o jornalista Ed Blank no jornal Pittsburgh Press, em 5 de março de 1982. "Nennhum outro filme de mistério oferece os figurinos sensacionais, ainda que por vezes extravagantes, de Anthony Powell, belas locações em Maiorca e uma trilha sonora exuberante de Cole Porter, com arranjos de John Lanchbery."

Versão para a TV, na série Poirot (2001)
Em 2001, o livro ganhou uma adaptação para a televisão, apresentada como um dos episódios da série Poirot, estrelada por David Suchet. Essa versão, no entanto, não me agradou muito. Na TV, a história se manteve bem mais fiel ao livro. Mas se comparada à colorida e ensolarada versão do cinema, a da TV ficou fria, desbotada e sem o charme do filme. (Na série televisiva, que inclui os personagens originais do livro, um deles foi sofreu alteração: a adolescente Linda, que na versão para a TV virou o rapaz Lionel.) 

Em 2007, Evil Under The Sun também foi adaptado para video game e virou jogo de PC. O livro também está disponível em e-book e em quadrinhos (2013).
A versão em quadrinhos, o jogo para PC e o e-book
Ainda que Assassinato num Dia de Sol não tenha o clima lúgubre de outras adaptações cinematográficas de Agatha Christie, o filme vale pela produção sofisticada, pelo elenco e pelo visual.


Minha coleção pessoal

O mal que se move sob o sol


Para comemorar o 125º aniversário de Agatha Christie, em setembro, o site oficial sobre a autora está promovendo uma votação para saber, entre os livros que ela escreveu, qual é o favorito de seus leitores. Meu voto já foi dado, embora a missão de eleger um único, entre tantos, não seja simples.


Difícil falar de Agatha Christie (1890-1976) sem repetir o que já foi dito ou escrito exaustivamente. Na internet mesmo existem milhares de sites com informações de todos os tipos sobre a vida e a obra da autora inglesa. A Rainha do Crime, como é conhecida, dispensa apresentações detalhadas.

Agatha Christie
Mais difícil ainda é escolher um de seus livros como 'favorito'. Foram 78 romances policiais, 19 peças, mais de 100 histórias curtas, duas autobiografias, vários poemas e seis romances "não crime" sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

Entre tantos livros geniais que Christie escreveu, Morte na Praia (Evil Under The Sun) está entre meus favoritos. Como explica John Curran em Os Diários Secretos de Agatha Christie (Ed. Leya, 2010), Morte na Praia foi escrito durante 1938 e publicado pela primeira vez nos Estados Unidos como uma série no final de 1940:
"À primeira vista, Morte na Praia e "Triângulo de Rodes" parecem ter a mesma história. Ambas trazem Hercule Poirot, uma praia e dois casais como protagonistas. Em cada caso, um casal é formado por uma mulher sedutora e um marido circunspecto e o outro por um homem charmoso e uma "camundonga" (nas próprias palavras de Christie). E ambas as histórias exemplificam perfeitamente a fertilidade de Agatha Christie para tecer tramas, porque, apesar dessas semelhanças bastante relevantes, as soluções e os assassinos são completamente diferentes. (...)"

Morte na Praia foi oficialmente lançado em junho de 1941 pela Collins Crime Club (extensão da editora britânica William Collins & Co. Ltd.). Aqui no Brasil, foi publicado em 1976, com tradução de Vera Teixeira Soares, pela Nova Fronteira. A editora, que em 1969 havia adquirido os direitos para o Brasil da grande maioria dos títulos de Agatha, contabilizou 8,5 milhões de exemplares da autora vendidos até 2002. Nos últimos anos, a L&PM tem lançado os títulos de Agatha Christie com novas traduções e novos projetos gráficos.

Em 2013, Morte na Praia ganhou nova edição em português, na Coleção L&PM Pocket, com tradução de Rodrigo Breunig. Ainda que o título original - Evil Under The Sun - seja, ao pé da letra, "O mal sob o sol", na edição brasileira optou-se por Morte na Praia. Em Portugal, o nome dado foi As Férias de Poirot (1968, Editora Livros do Brasil). 

O título original em inglês se refere a uma passagem bíblica, do livro de Eclesiastes, capítulo 6, versículo 1: "There is an evil that I have seen under the sun, and it lies heavy upon humankind." ("Vi ainda outro mal debaixo do sol, que pesa bastante sobre a humanidade (...)"

O mais fascinante em Morte na Praia, além, obviamente, da irresistível trama policial, é a psicologia dos personagens. Agatha Christie sabia dar personalidade a eles de forma sutil, por meio de seus traços físicos, modo de vestir e opiniões, emitidas em diálogos aparentemente banais, mas muito reveladores.

A sinpose, como apresentada no site da L&PM, é a seguinte:
"Tudo o que Hercule Poirot queria naquele verão era ter alguns dias de paz no luxuoso hotel Jolly Roger, longe de crimes e de investigações. Mas quando Arlena Stuart passa por ele na praia, atraindo o olhar de todos os homens (bem como o ódio de todas as mulheres), ele desconfia que talvez suas férias não sejam tão tranquilas como esperava. De fato, no dia seguinte, um assassinato acontece.
Enquanto tenta descobrir quem é o responsável, Poirot percebe que não são poucas as pessoas naquele hotel que teriam um motivo para matar... (...)"

Na orelha da edição da Nova Fronteira, indagações não menos intrigantes a respeito do mistério:
"Que crime representa a beleza dessa mulher? Por que se torna ela, de repente, uma exceção, uma espécie de mancha, na paisagem repleta de luz, única forma estática e escura, longe, tão além de qualquer entendimento? A princípio, a única testemunha é o mar, quase a seus pés, mas indiferente. O mistério é um dos maiores desafios já encontrados por Hercule Poirot. Tem diante de si uma trama que ultrapassa o âmbito dos fatos policiais e salienta os segredos da própria vida dos homens em sociedade."


O pensamento avançado que Christie conferiu aos personagens da história é notável. Mencionar temas como independência feminina, no final da década de 1930, era, no mínimo, estar bem à frente de seu tempo.
Depois de alguns segundos Poirot observou: – Muita gente deve ter inveja da senhorita.
Rosamund Darnley disse friamente: – Ah, sim, é claro! – Pensou um instante e seus lábios sorriram com ironia. – Sim, eu sou a imagem perfeita da mulher bem sucedida! A criação artística me agrada – gosto muito de desenhar roupas – e a satisfação financeira também é ótima. Estou muito bem de vida, tenho uma ótima aparência, um rosto satisfatório e uma língua que não é excessivamente maledicente. – Fez uma pausa. Sorriu mais largamente. – Naturalmente... não tenho um marido! Nesse ponto fracassei, não acha, Mr. Poirot?
Poirot respondeu galantemente: – Mademoiselle, se a senhorita não se casou é porque nenhum homem foi bastante atraente. A senhorita ficou solteira por sua própria decisão e não por necessidade.
(...)
– Casar e ter filhos é o destino das mulheres comuns. Apenas uma mulher em cem – mais, em mil – é capaz de se realizar sozinha e chegar à posição que a senhorita atingiu. 
(Morte na Praia, pág. 23. Editora Nova Fronteira, 1976)

Em um trecho anterior da narrativa, outro diálogo já expressava uma maneira moderna de pensamento dos personagens:
– Ah, mas isso não é bem verdade! – Apontou [Hercule Poirot] para baixo. – Olhe ali, deitados em fileiras. O que são eles? Não são homens e mulheres. Não têm nada de pessoal. São apenas... corpos!
O Major Barry retorquiu em tom de admiração: – Algumas delas são bem bonitas. Um pouco magras demais, talvez.
Poirot exclamou: – Sim, mas que atrativo têm elas? Que mistério? Eu sou velho, pertenço á velha escola. Quando era moço mal se via um calcanhar. A visão das rendas de uma barra de combinação... que loucura! O arredondado de uma perna, um joelho, uma liga de meias...
– Feio, muito feio – protestou o Major.
– As coisas que usamos hoje em dia são muito mais práticas - aparteou Miss Brewster.
– Bem, Mr. Poirot – disse Mrs. Gardener, – acho, sabe, que hoje em dia os rapazes e as moças levam uma vida muito mais sadia e natural. Estão sempre juntos e... bem... eles... – Mrs. Gardener enrubesceu ligeiramente – não acham nada demais nisso, sabe o que quero dizer?
– Entendo - respondeu Hercule Poirot. - É deplorável!
– Deplorável? – exclamou Mrs. Gardener.
– Tirar todo o romance, todo o mistério! Hoje em dia tudo é padronizado! – Apontou com a mão para os banhistas. – Isso me faz lembrar o necrotério de Paris.
– Mr. Poirot! – Mrs. Gardener estava escandalizada.
– Corpos – arrumados em fileiras – como carne no açougue!
(Morte na Praia, pág. 11. Editora Nova Fronteira, 1976)


Fãs de Agatha Christie (e de romances policiais) certamente não vão se decepcionar com o livro e seu desfecho surpreendente, irresistível característica da autora, que vendeu bilhões de livros pelo mundo e foi traduzida para 45 línguas, sendo ultrapassada em vendas somente pela Bíblia e por Shakespeare.


Agradecimento:
Cristina Siqueira
http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/