"Dancin' Days foi tudo aquilo que a televisão poderia ter sido, mas que não foi"


Entrevista concedida ao jornalista Edney Silvestre, em Nova York - Publicada na Revista da TV do jornal O Globo, de 25 de julho de 1993

NOVA YORK - Sônia Braga entrou num baile de debutantes em certa capital brasileira e ficou sem fala. À sua frente, quase uma centena de sósias de Júlia Matos. Todas com o mesmo penteado, a mesma maquiagem e, com pequenas variações, o mesmíssimo vestido preto e branco que sua personagem usara em "Dancin' Days" alguns capítulos antes daquela data. Não foi caso isolado de uma cidade ou um estilo. O que Júlia Matos vestia, dizia ou fazia na tela da Rede Globo, na noite anterior, no dia seguinte estava sendo copiado e repetido de Norte a Sul do Brasil por mulheres mais jovens, mais velhas e, até, muito mais velhas que a vingativa-mas-romântica personagem criada por Gilberto Braga.


Júlia Matos virou exemplo e meta para milhões de mulheres no país inteiro - apesar de seu passado controvertido e uma vida que incluía, entre outras coisas, generosas contribuições financeiras de homens mais velhos a quem ela se entregava, na ânsia de subir na vida a qualquer custo. Até hoje apaixonada pela personagem, Sônia Braga recordou para O GLOBO, numa entrevista em seu magnífico apartamento em Manhattan, as razões que fizeram deste melodrama deslavado um dos maiores sucessos da televisão brasileira.



O GLOBO - Não houve antes e nunca mais aconteceu um fenômeno como "Dancin' Days", capaz de causar transformações no comportamento, na visão de mundo dos telespectadores brasileiros. Que explicação você encontra para isso?
SÔNIA BRAGA - "Dancin' Days" foi um marco na dramaturgia brasileira e na vida de todos nós, envolvidos na gravação da novela. Tanta coisa contribuiu para fazer dela o fenômeno que foi e continua sendo: a absoluta dedicação do Daniel (Filho) ao projeto, o texto do Gilberto (Braga), o envolvimento do elenco...

O GLOBO - Vamos do início: como você aportou no papel de Júlia Matos?
SÔNIA - Sabe que eu fiz teste para o papel? Foi decisão minha. Eu tinha 28 anos e a Júlia começava a novela trintona, após 11 anos de cadeia, com uma filha de 15. O Daniel me ofereceu o papel, mas eu não tinha certeza se poderia funcionar como mulher mais velha, mãe de adolescente, com um passado barra pesada.

O GLOBO - Você tinha uma boa relação com Daniel Filho?
SÔNIA - Tenho até hoje. Ele é dedicado, maníaco por qualidade, muito aberto. O Daniel, além de ser engraçado e criativo, inovava muito as coisas. Em 78, ele estava num momento maravilhoso, querendo dar um grande salto de qualidade na televisão.

O GLOBO - Como foi o teste?
SÔNIA - Usei maquiagem especial para envelhecer e fizemos os três testes sem interrupção. Com a Lídia Brondi, com a Suzana Queiroz e com a Glória Pires. A cena era o momento em que eu invado o quarto da menina, que já está vestida de noiva e tento convencê-la a não se casar só por dinheiro. Eu me infiltrara na casa fingindo ser outra pessoa, quando, na verdade, era irmã da mulher que virara mãe da minha filha. Ela estava saindo para casar com o Beto (Lauro Corona), que era irmão do homem que eu amava, vivido pelo Antônio Fagundes.


O GLOBO - Que dramalhaço!
SÔNIA - Não é o máximo? O Gilberto Braga, que tem total controle desse tipo de dramaturgia inspirado nos filmes dos anos 40 e 50, não teve o menor pudor em pôr esses elementos de coincidências melodramáticos na trama. E nós, atores, também não tínhamos nenhum pudor em levar as emoções às últimas conseqüências.

O GLOBO - Esse despudor sentimental foi outro fator de sucesso?
SÔNIA - Claro! Que nem na vida real, especialmente no Brasil, onde nós somos tão melodramáticos. Tinha ainda As Frenéticas, tinha música, tinha convidados especiais... teve até Gal Costa cantando numa festa na casa da Júlia Matos!

O GLOBO - A empatia foi imediata entre você e Glória Pires?
SÔNIA - A Glorinha tinha pouca experiência de televisão mas já era um talento extraordinário. No teste, depois de a Júlia insistir que a Marisa não podia se casar, ela me perguntava: "Mas quem é você? Por que está falando tudo isso?". E eu respondia: "Você ainda não... percebeu?" Glorinha então percebia: "Você é minha... minha...", começava a chorar, depois caminhava até a porta e dizia: "Vou me casar...", abria a porta, "vou ser muito feliz", e me mandava embora. Foi uma emoção tão grande...

O GLOBO - E o visual da Júlia Matos? Quem inventou?
SÔNIA - A Júlia passou por várias fases. A criação começava com a Marília Carneiro (figurinista) e havia uma total integração entre a percepção dela, a minha e a do Daniel... O iluminador e o maquiador tiveram contribuições importantes. Tinha que fazer a maquiagem de envelhecimento todo dia. Depois da temporada européia, voltava gloriosa, com uma calça vermelha, barriga de fora, sapatos altos com meia soquete. Essa moda pegou e durou até depois de a novela sair do ar.


O GLOBO - Havia alguma parte mais lacrimejante do texto que você se inibiu em falar?
SÔNIA - Eu adorava cada fala da Júlia e até cheguei a pedir ao Gilberto para pôr uma frase que eu sempre sonhei um falar. Mas o momento mais difícil foi uma cena com o Fagundes. Depois que ele atropela um cachorrinho vira-latas e eu o obrigo a levá-lo a um veterinário. O Daniel comentou: "Se a gente conseguir fazer essa cena e passar o sentimento sem cair no ridículo, a novela está garantida." Ficou uma cena linda, que a gente fez com paixão e sinceridade.

O GLOBO - Que visão o Gilberto Braga passava para você deste drama tão popular?
SÔNIA - Ele mandava recados para a gente no script. Entre uma fala e outra, nos dizia: "Essa eu quero ver". Pedi para botar uma música do Roberto Carlos como tema da Júlia. "Você foi o melhor dos meus sonhos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci..." Puseram.

O GLOBO - Qual foi a frase que você teve que insistir para o Gilberto pôr?
SÔNIA - "A porta da rua é serventia da casa. Ponha-se daqui para fora!" O Gilberto resistiu, disse que não podia pôr uma frase dessas de jeito nenhum até que um dia veio a surpresa. Numa visita da Yolanda (Joana Fomm), digo "a porta da rua é a serventia da casa", jogo-lhe a capa de chuva em cima, aponto para a porta e falo "ponha-se daqui para fora!"

O GLOBO - Você se refere a tudo de "Dancin' Days" com tanto prazer...
SÔNIA - Havia uma energia muito positiva entre todo mundo. Outra coisa importante: foi gravada na Globo-Tijuca, na Usina, o que fazia de "Dancin' Days" uma produção independente. Ali eu tive esperança de que podia ser um prazer fazer novela. "Dancin' Days" foi tudo aquilo que a televisão poderia ter sido. Mas que não foi, não virou, não se repetiu.

O GLOBO - Não teria a ver também com a atmosfera de esperança que se vivia no Brasil da época?
SÔNIA - Sim, tinha muito. Se falava em abertura política, na volta dos exilados, se estava fazendo a Lei dos Artistas, tinha a greve dos dubladores, tudo rolando ao mesmo tempo. Mas eu, particularmente, acho que a vontade e a capacidade profissional do Daniel Filho é que deram vida a tudo isso que estava latente. Se eu tivesse que dar um prêmio a alguém pelo sucesso de "Dancin' Days", daria ao Daniel. E sei que ele acabaria partilhando com todo mundo que participou do projeto.



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