Sexta básica de (in)utilidades


Caderneta de poupança Delfin – Todo pai de noiva, todo casal que espera um filho nascer, tem sempre em mente dar uma grande festa no casamento de sua filha, ou no batizado do bebê. Geralmente, o sujeito da classe média está sempre “duro”. E nesses acontecimentos, ele saca em banco, para a festa e o enxoval da filha, ou para o batizado. Em banco ou nas caixas de previdência da empresa onde trabalha. Depois paga com juros... O mais inteligente é o sujeito começar a tirar um pouco todo mês do seu rendimento (ajeitando sempre dá), e abrir uma caderneta de poupança. Existem várias – a Delfin, por exemplo, que é a principal e a maior do país e considerada a mais simpática. Quando chegar a ocasião, ele tira a grana acrescida ainda dos rendimentos e correção monetária, e sua festa sairá mais barata e sem tantas preocupações. Use a cuca, amigo, porque cavalo não desce escada. Cici de luxo, eu chego lá.

Aprenda a receber – Etiqueta
Ibrahim Sued
Editora Top, 1977



Os violentadores de músicas alheias


Semana passada assisti, por acaso, ao filme mais surreal que poderia ter visto. Trata-se do nacional Os Violentadores de Meninas Virgens (1983), do diretor Francisco Cavalcanti, um dos nomes mais conhecidos da chamada "Boca do Lixo" paulistana. A Boca ficou muito conhecida nos anos 70 e começo dos 80 pela produção de filmes baratos, quase amadorísticos e de forte apelo sexual.


É o caso de Os Violentadores de Meninas Virgens. O enredo é simples: um grupo de velhos ricos e pervertidos paga para usar e abusar sexualmente de moças virgens. As tais virgens são sequestradas e levadas para uma casa, onde são oferecidas aos velhos e submetidas aos desejos dos tarados.

De cara, o elenco grotesco chama a atenção. Com o devido respeito ao status cult do filme, mas tudo é tão canhestramente feito, a começar pelas "atuações" risíveis e o elenco totalmente amador. Os cenários são improvisados, pobres e cafonas. As tais "moças virgens" do título são, na verdade, barangas bem feiosas que não têm NADA de "moças". A maioria aparenta bem mais de 30. Os velhos também são repugnantes de tão feios. 

Apesar da tentativa de criar um clima de suspense, o filme só provoca gargalhadas. Impossível olhar para tanta gente feia e sem apelo algum e ainda levar a coisa a sério. Chega a ser embaraçoso. Porém, mais embaraçoso ainda é o uso de músicas no filme. A trilha sonora totalmente roubada de filmes famosos ou hits da época fica completamente deslocada e dissonante. E foi exatamente isso o que mais me chamou a atenção.



Não sei o que é mais embaraçoso: as "moças de família" dançando ou a plateia de figurantes semi-moribundos.



Em uma cena que se passa em uma boate (de quinta categoria), duas vadias dançam (sem NENHUMA empolgação) ao som de Voulez-Vous, do ABBA! Sim, o ABBA, meu grupo favorito, servindo de fundo musical para um show erótico horrendo em uma birosca obscura. Seria trágico se não fosse cômico. A canção é tocada quase totalmente enquanto as moças dançam seminuas. Mas isso não é tudo. Logo na sequência, uma dançarina solo baila ao som de uma versão instrumental de Woman in Love, de Barbra Streisand. A coisa vai piorando.


Outra cena mostra um jovem casal fazendo sexo ao som de Endless Love, de Diana Ross e Lionel Ritchie. Como se não bastasse, a trilha sonora de O Expresso da Meia-Noite permeia quase todo o filme, com o uso de nada menos do que três canções: Love's ThemeInstabul Blues e (Theme from) Midnight Express. Nunca vi tamanha cara de pau no uso indiscriminado de canções de trilhas sonoras alheias. E duvido muito que tenham obtido permissão para usar todas essas músicas.





Os Violentadores de Meninas Virgens vale apenas como curiosidade para quem se diverte com bizarrices. Ou com o uso indevido de canções alheias. Estas sim, coitadas, são as verdadeiras violentadas do filme.

Sexta básica de (in)utilidades


Cartas – Não responder as cartas recebidas, é abandonar as amizades e dar motivo justificável ao esquecimento das pessoas que nos escreveram.

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Para que uma carta fique bem fechada e a fim de evitar que qualquer violação se faça sem vestígios, basta passar no fecho do envelope uma solução de clara de ôvo e água, em partes iguais, aplicando-se por cima, ràpidamente, um ferro de engomar medianamente aquecido.

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As pessoas que não acusam o recebimento de cartas e convites vão granjeando paulatinamente a indiferença de suas amizades, que a colocarão de lado ao notar esta descortesia de atitude.

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As cartas datilografadas são, em regra, comerciais e protocolares, as que se trocam entre pessoas que precisam entrar em contato por razões de profissão. As cartas para parentes ou amigos serão sempre manuscritas, para que contenham suficiente dose de afeto.

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Tenha-se especial cuidado de não enviar uma carta, sem relê-la prèviamente. Isto permite ser certificado se nela não vai uma expressão ou um pensamento que possa ser mal interpretado pela pessoa a quem é dirigida.

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Os que gostam de perfumar os papéis de carta podem fazê-lo, com grande facilidade, impregnando um papel secante na essência preferida e intercalando-o, depois, entre as fôlhas e os envelopes. A caixa em que estiverem deve ser mantida bem fechada. Desta maneira o papel estará sempre perfumado.



Fonte: Dicionário do Lar - Vol. II
Editora Logos, 1964.



A casa que roubava as cenas


Ainda na adolescência, eu costumava assistir incessantemente aos mesmos filmes, hábito que  devo confessar  ainda mantenho. Se fosse de suspense então, aí sim eu delirava! Sempre gostei de ver e rever meus filmes favoritos inúmeras vezes. Os anos passam e eu sigo com meu pequeno prazer, que sempre me empolga (mesmo que eu já conheça o filme de cor e salteado).

Foi assim que o cenário de três filmes começou a me intrigar. Quando tinha uns 15 anos, peguei na videolocadora um filme britânico chamado Terror Cego (Blind Terror / See No Evil, 1971). Suspense de primeira com Mia Farrow no papel de uma cega que passa o pão que o diabo amassou para escapar de um maníaco assassino em uma mansão isolada. O cenário é belíssimo, em Berkshire, sudeste da Inglaterra. Bracknell Forest com suas paisagens idílicas, cores lindas... Perfeito para uma jovem indefesa sofrer enquanto luta para não ser assassinada. Mas o interior da mansão também é muito bonito e tem arquitetura e decoração bem marcantes. Tanto o exterior quanto o interior foram muito bem explorados na construção do suspense e do drama do filme.


Pois bem, algum tempo depois assisti na TV a outro filme mais ou menos da mesma época, Sombras na Escada  (The Spiral Staircase, 1975), refilmagem de um suspense preto-e-branco dos anos 40. Dessa vez, a jovem indefesa - porém muda, e não cega - foi Jacqueline Bisset. E qual não foi minha suspresa ao notar que a casa do filme era a MESMA de Terror Cego! Se não chega a ser tão bom quanto o primeiro, Sombras na Escada também garante alguns momentos de suspense. 

Terror Cego (1971)
Terror Cego (1971)
Terror Cego (1971)
Mas se uma vez é pouco, duas é bom, então três é demais. Novamente, mais ou menos na mesma época, me apaixonei por um outro filme que vi na TV, Terror e Loucura (Tales That Witness Madness, 1973), muito reprisado pela extinta Manchete. E qual não foi a minha surpresa ao ver a mesma casa de novo! Era uma daquelas antologias irresistíveis da Amicus (produtora britânica de filmes de terror), muito comuns no começo dos anos 70, com quatro ou cinco histórias de terror. Foi lançado m vídeo com o título de Testemunhas da Loucura. A casa em questão aparece no último episódio, "Luau", com Kim Novak.


Com o passar dos anos, revi os três filmes dezenas de vezes e fiquei com os cenários bem nítidos na memória. Com certeza era a mesma casa. Por dentro e por fora. A cada filme, o interior passava por algumas pequenas modificações. Um papel de parede aqui, um jarro de flor ali, uma poltrona diferente acolá... Mas era nitidamente a mesma casa, com portas altas em forma de arco.

Terror e Loucura (1973)
Terror e Loucura (1973)
The Stud (1978)
The Stud (1978)

Recentemente, tantos anos depois, deparei-me novamente com a mesma casa (pela quarta vez!), agora no filme The Stud (1978), com Joan Collins, baseado no romance homônimo da irmã de Joan, Jackie Collins. Uma canastrice pretensamente 'sexy'. Na verdade, um pretexto para cenas calientes protagonizadas por Joan. 


Pesquisando no IMDb antes de publicar este post, tive a confirmação "oficial", de que se trata realmente de uma casa de verdade. Não é estúdio. Trata-se de Binfield Manor e, segundo li em uma lista de discussões (BritMovie.co.uk), a mansão pertence atualmente ao Sultão de Brunei. Sorte a dele!