O contador de histórias

Lendo uma entrevista com Gay Talese publicada ontem, 07 de julho de 2009, no Correio Braziliense, não pude deixar de me identificar com as opiniões dele. E devo dizer que concordo em gênero, número e grau com elas. Para quem não sabe, Gay Talese, de 77 anos, é um dos grandes jornalistas e escritores norte-americanos e o maior nome do jornalismo literário nos Estados Unidos. Foi um dos criadores do Novo Jornalismo (New Jornalism), movimento criado na década de 1960 que incorporava no jornalismo características de literatura (descrição de cenas, diálogos e ponto de vista dos personagens). Em tempos de analfabetismo funcional, precariedade no ensino, empobrecimento cultural e desvalorização de diplomas, vale a pena nós, jornalistas, fazermos uma reflexão sobre a profssão. Eu mesmo não me considero um jornalista completo. Longe disso! Mas de uma coisa nunca tive dúvida: adoro escrever. Foi só por isso que fiz faculdade de jornalismo. E embora seja um grande admirador de Gay Talese, discordo dele em parte, quando ele afirma que o diploma não é necessário em nossa profissão. Acho que o que ele quer dizer é que o talento é algo que está dentro da pessoa, tenha ela diploma ou não. Se uma pessoa escreve bem, tem o dom da palavra e está apta a escrever com alto grau de qualidade, ela pode e deve fazê-lo. Talese mesmo é um desses. Infelizmente o que fazem hoje em dia é tolher qualquer possibilidade de literatura no jornalismo. Não há espaço para se romancear nem detalhar nada. É tudo muito rápido e curto, tudo urgente, tudo para ontem. Argh! Por isso resolvi transcrever aqui trechos da entrevista com Talese concedida à jornalista Nahima Maciel:


A curiosidade foi o ingrediente fundamental para lançá-lo no mundo jornalístico?

Eu tinha a paciência de estar com outras pessoas por muito tempo. Eu não estava sempre correndo para terminar algo, estava interessado em tomar tempo para entender as pessoas muito bem. Jornalistas estão sempre correndo e são impacientes com os outros. Jornalismo é motivado pelo furo. Acho isso ridículo. Para mim, o mais importante não é ser rápido, é ser correto, ser acurado. E também ser profundo e tentar entender bem o assunto sobre o qual você está escrevendo. Quando me formei, fui para Nova York e consegui o emprego no jornal como servente. No tempo livre, eu escrevia coisas e algumas entravam no jornal. Mais tarde, quando fui promovido a repórter, continuei. Andava por Nova York em busca dessas histórias que não eram grandes histórias, não estavam na primeira página, estavam lá no meio. Eram histórias de pessoas ordinárias que me contavam o que pensavam das coisas. Aos poucos, os artigos ficaram maiores, os desafios também e depois viraram livros, mas eram histórias sobre pessoas ordinárias. Sou um contador de histórias, e isso não é jornalismo nem literatura.


Seria este o futuro do jornalismo impresso, contar histórias que não estão nas primeiras páginas dos jornais e deixar para a internet as notícias?

Acho que essas são as histórias mais importantes de serem contadas porque as notícias da primeira página estão na internet e na televisão. Os jornais estão 24 horas atrasados. Sempre. O jornalismo não deveria estar interessado no furo. O jornalismo deveria se interessar pela literatura da realidade. Acho que esse é o futuro do jornalismo, porque acidentes de aviões, alguém baleado ou a morte de uma pessoa importante vão estar na internet, tevê ou rádio 10 minutos depois de acontecer. As pessoas não precisam ler jornais para saber das notícias. É um erro chamar jornais de newspapers, as notícias já estão velhas quando chegam aos jornais. O que é realmente interessante é a personalidade das pessoas que não parecem significativas, mas que refletem as notícias. Por exemplo, essa crise financeira. Há muitas histórias sobre como as pessoas estão sobrevivendo e os jornais deveriam escrever sobre elas. Na guerra do Afeganistão nada foi escrito sobre como as pessoas comuns vivem o talibã. O talibã controla as montanhas, invade o Paquistão, ok, mas ninguém escreve sobre como é ser um talibã. Tenho certeza de que é possível encontrar uma família talibã e escrever sobre como eles vêem o mundo. O problema é que os governos têm a postura de saber quem é o aliado, quem é o inimigo e não falar com o inimigo.

Morte em Veneza - Trecho



“As observações e as experiências de um indivíduo solitário, calado, são ao mesmo tempo mais vagas e mais intensas do que as de uma pessoa gregária. Seus pensamentos são mais graves, mais esquisitos, e jamais falta neles um quê de tristeza. Imagens e impressões que facilmente poderiam ser ofuscadas por um olhar, uma risada, uma troca de opiniões, aprofundam-se pelo silêncio, assumindo importância e transformando-se em acontecimentos, aventuras, sensações. A solidão produz a originalidade, a beleza ousada e singular, o poema. Mas também será a fonte de tudo quanto for errado, desproporcionado, absurdo, ilícito.”

THOMAS MANN
Morte em Veneza