Nada como as divas de ontem...

Agora cismei com as divas. Depois que minha amiga Patty pediu minha ajuda para bolar uma festa cujo tema seria "divas", fiquei pensando sobre essas musas do cinema de outrora que tanto nos fascinam e nos encantam. Admito que sou mais radical e conservador quando o assunto são as divas. Patty é mais condescendente e acha que ainda podemos encontrar divas hoje em dia. Mas acho pouco provável...

Apesar de terem sido estrelas nos anos 40 e 50, elas permanecem atemporais. São exemplos de beleza, elegância e altivez que percorrem décadas e décadas inabaladas. Sem falar no talento da profissão, pois aquelas eram atrizes com 'A' maiúsculo. E me ponho a pensar em quão pobre são os tempos atuais... Totalmente desglamurizados. As chamadas "divas contemporâneas" não possuem a sensualidade, o mistério, o encantamento de Rita Hayworth, Greta Garbo, Bette Davis, Gloria Swanson, Marilyn Monroe, Joan Crawford e outras mais. Elas nunca eram vistas ou fotografadas se não estivessem impecáveis. E tudo que diziam era previamente estudado e analisado. Tinham astúcia e senso de humor refinado. E uma boa dose de cinismo também, claro.

Bem, o que vemos das divas de hoje? Aparecem descabeladas e maltrapilhas em lanchonetes baratas, são fotografadas em qualquer lugar, saindo do supermercado, carregando uma penca de filhos chorões, discutindo com o namorado na calçada ou saindo da farmácia com a cara inchada de um resfriado. Isso quando não são vistas caindo em fim de festas, bêbadas, proferindo insultos a paparazzi ou desferindo golpes em repórteres inconvenientes. Elas não nos despertam a vontade de descobrir, de desnudar. São óbvias demais. Rita Hayworth, por exemplo, tirou UMA única luva em Gilda, apenas uma e não o par. Mas todo mundo acredita ter visto um strip-tease completo. E até hoje ela povoa as fantasias dos homens. As pseudo-divas de hoje já são lançadas completamente nuas, física e moralmente. Não medem esforços para se manter na berlinda. Muitas vezes de forma deplorável, diga-se de passagem. Isso sem mencionar que são totalmente desprovidas daquela aura mágica e imponente da Hollywood dos anos 50. Nem sempre as coisas que são belas precisam ser escancaradas. Talvez o que falta às divas de hoje seja, principalmente, elegância, classe. Nada como as divas de ontem...

Sessão divas


Greta Garbo em sua biografia, A Divina Garbo:

"Quanto a meus dias escolares, eu vivia num constante estado de medo, detestando cada momento passado na escola e, especialmente, de duas matérias: geografia e matemática. Jamais pude entender como alguém se interessa por lugares distantes, ou por tentar solucionar problemas ridículos como quantos litros de água passam por uma torneira de tal e tal diâmetro em uma hora e quinze minutos. Eu não apenas achava estúpido perder tempo com essas questões, mas, para espanto dos professores, também ousava dizê-lo em voz alta."

"Não saio para qualquer diversão desde que cheguei. Vou para a cama o mais cedo possível, e não faço nada durante o dia. Ainda não comecei a trabalhar. Parece-me que vai levar tempo, e entristece-me dizer que não sinto muito. Tampouco sinto por minha vida reclusa. Não ligo se ajo como uma velha."


Tem fogo?


A atual histeria coletiva em relação ao cigarro é algo extremamente irritante. Acredito que tanto fumantes como não-fumantes podem desfrutar do mesmo mundo. É claro que ambos merecem respeito, ou seja, se você tem o direito de não gostar e não querer fumar, eu tenho direito de gostar e querer. Esse rótulo piegas de “vilão máximo da humanidade” que o cigarro ganhou de alguns anos pra cá é tão cansativo e torna os antitabagistas tão intolerantes que faz com que os pobres coitados dos fumantes sejam marginalizados e vistos como alienígenas, criminosos. Por isso resolvi transcrever aqui trechos de um artigo da Laura Capriglione muito interessante, publicado pela Veja em 1996 (e olha que naquela época fumar ainda era permitido). O título era “O direito à intoxicação”:



Eles – os cientistas, os médicos, os familiares, os amigos, em suma, os não fumantes – acham que fumar é um vício sujo cujo núcleo consiste em levar nicotina ao cérebro, propiciando um determinado tipo de reação físico-química. Eles estão por fora, os não fumantes, achando que cigarro é prosa. Cigarro é poesia. Fumar é apalpar em desespero o bolso ou a bolsa, até sentir a forma amada que nos acalma. (...)

É fechar os olhos e ficar em paz, com a bênção dos deuses do fumo. É depois abrir os olhos, e soprar, soprar para cima, contemplar a fumaça que sobe, sobre, a vida que se desmaterializa numa nuvem azul – e novamente tragar. Fumar é um ritual. O cigarro tem uma cultura e uma história.

Quando se quer convencer alguém a abandonar o cigarro, não basta brandir argumentos médicos, denunciar os ganhos da indústria do tabaco à custa da saúde alheia. É preciso, ainda, desmontar as imagens inebriantes da cultura do cigarro. Das imagens, do discurso do fumo, fazem parte Humphrey Bogart tragando no aeroporto de Casablanca, dizendo adeus para sempre a Ingrid Bergman, Jean-Paul Sartre fumando no Café de Flore durante o Maio de 68 parisiense, e Rita Hayworth, de piteira, exalando lascívia em Gilda. Emblemas da cultura do cigarro, Bogart, Sartre e Hayworth identificaram ao fumo comportamentos bem nítidos. Bogart, o machão de alma romântica, associou ao fumo o vício da solidão. Sartre, vesgo e baixinho, deu à fumaça uma aura de existencialismo, de pensamento e rebeldia. E Rita Hayworth associou para sempre cigarro a devassidão, maus costumes, erotismo. A mulher fatal fuma, assim como o aventureiro e o filósofo inconformista. O cigarro, assim, não é coisa de bocós que cultuam o corpo nem de mocinhas inocentes. É coisa de gente experiente. De gente que topa gastar o corpo rápido para melhor aproveitá-lo. Cigarro é coisa de pecadores. Daí o seu fascínio. A beleza do cigarro não é solar e saudável, racional e reveladora. É noturna, doente, suja, compulsiva, neurótica.

(...)

É de subversão aos bons costumes que se trata, quando se fala em cigarros. É reação puritana, envernizada por teorias científicas, a grita histérica contra o tabaco nos dias que correm. O historiador americano Richard Klein, em seu livro Os Cigarros São Sublimes, ilustra esse fato ao mostrar que sempre que se lutou pela pátria, pela revolução, pela conquista de algum direito, as nuvens negras do cigarro estiveram presentes. Um dos episódios mais célebres da independência americana, quando os colonos lançaram ao mar mercadorias taxadas em excesso pela coroa britânica, envolveu o tabaco, submerso em grandes fardos junto a lotes de chá, as chamadas “Tea Party”. Nas guerras, já o disse o general John Joseph Pershing, chefe da Força Expedicionária americana durante a I Guerra Mundial, o cigarro é tão imprescindível no front quanto as balas, para ganhar a batalha. Nas barricadas de Maio de 68, na França, durante a revolta dos estudantes e operários, o cigarro era a companhia inevitável.

Vitaminas e Academias – Pode-se argumentar que a atmosfera fumacenta decorre da ansiedade que envolve o indivíduo nesses momentos cruciais. É apenas parte da verdade. A nicotina é poderoso lenitivo contra a angústia, sem ser um estupefaciante, como outras drogas. Mas, antes de assumir que todos os soldados de todas as causas não passam de vítimas de seus comandantes, que tal pensá-los como pessoas que resolveram dar-se ao luxo de morrer, física ou moralmente, pelo que acreditam correto? Nessa perspectiva, o cigarro ganha a dignidade de um companheiro inseparável, confidente mudo das abissais angústias. Só indivíduos que não ficam o tempo inteiro pensando em como preservar a própria saúde têm a coragem de enfrentar o inimigo que está na esquina. Quem pensaria, nessas circunstâncias, em vitaminas e academias de musculação?

(...)

Os antitabagistas de hoje usam argumentos sanitaristas para proscrever os fumantes. Julgam-se tributários dos avanços recentes da medicina e tentam a todo custo evitar a pecha de moralistas, já lançada contra eles antes, quando insistiam em perseguir pelas ruas, aos gritos de “prostituta!, leviana!”, as mulheres que fumavam. Mas é a mesma recusa ao prazer que faz com que o cigarro seja lançado no limbo dos infernos, transformado em grande Satã contemporâneo. Que faz com que se busque o sexo tão seguro que acaba por abolir o sexo. Que impede que alguém mergulhe sem culpa num belo prato de comida. Que lança anátemas contra quem se refestela numa rede, quando deveria estar malhando numa academia.

Fumar, nessa perspectiva, pode ser uma resistência à repressão, ao massacre dos impulsos organizado pela civilização. Uma resistência ambígua, pois feita de auto-aniquilação, de morte. O fumante, cada vez mais, sabe que o cigarro o está matando. “Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando”, resiste o poeta Fernando Pessoa, sob a máscara de Álvaro de Campos, em Tabacaria. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização (também conhecido no Brasil como A Civilização e Seus Descontentes), em 1929, escreveu que “a vida, tal como nós a encontramos, é muito dura e disso decorrem descontentamento e dores. Não passamos sem paliativos, substâncias intoxicantes que nos tornem insensíveis. Elas são imprescindíveis”, diz Freud, fumante de vinte charutos por dia, charutos que ajudaram a desenvolver o câncer no maxilar que o matou, sabia que o fumo era um desses paliativos, dessas substâncias intoxicantes que nos servem de apoio para atravessar a vida. Querer erradicar o cigarro é uma ilusão, é achar que a humanidade almeja o bom e o bem, racionalmente. E é, talvez, querer destruir aquilo que a humanidade tem de mais belo: a capacidade de criar um objeto que, injetando fumaça corpo adentro, nos ajuda a viver e morrer. Sem cigarro, é difícil aturar a realidade.

Revista Veja, 29/05/1996

Ainda as novelas das seis

Já que o último post foi sobre uma novela das seis prestes a estrear, continuemos com o tema. Há algum tempo os noveleiros estão desiludidos com o horário. Os tempos mudaram, a rotina do brasileiro mudou, a família, a sociedade, a tecnologia, tudo mudou. É raro hoje em dia um autor conseguir emplacar uma novela das seis. A última da qual me lembro foi o remake de O profeta, em 2006. De lá pra cá, todas tiveram pouca repercussão.

Hoje, novela das seis horas já é marca registrada, mas tudo começou em maio de 1975, quando a TV Globo inaugurou a programação fixa das 18:00 horas, dando assim mais um passo importante na história da telenovela brasileira. À princípio, o horário era dedicado exclusivamente a transpor, para a TV, grandes romances da literatura brasileira.

"Helena" (1975)
A estréia ficou com Machado de Assis e seu livro Helena, com adaptação do então novato Gilberto Braga. A Globo passou a investir no requinte das adaptações literárias. Novelas como Senhora (1975/76), A Moreninha (1976) e A Escrava Isaura (1976/77) conquistaram o público e firmaram formato. Lucélia Santos e Rubens De Falco, nos papéis principais, ainda hoje são sucesso no mundo todo com A Escrava Isaura.

"Senhora" (1975-76)
"A Escrava Isaura" (1976-77)
Mas às seis, a Globo também alternou ilusões do século passado com romances um pouco mais recentes. Em 1976, a novela O Feijão e o Sonho, por exemplo, da obra de Orígenes Lessa, abriu essa nova etapa. Para se ter uma idéia do poder do horário, muitos desses livros foram relançados e se tornaram campeões de vendagem, isso 20 ou 30 anos depois do lançamento. O mesmo aconteceu com o romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha. Numa adaptação de Manoel Carlos, em 1978, a novela Maria Maria teve o requinte de uma superprodução na televisão e, mais uma vez, consagrou seu autor, esquecido desde o início do século. Naquele mesmo ano, Manoel Carlos foi o responsável por outra adaptação de enorme sucesso: A Sucessora, baseada no livro de Carolina Nabuco.

"A Sucessora" (1978-79)
Em 1982, com a novela Paraíso, a Globo abriu espaço também para roteiros originais, abordando temas atuais. Ao longo dos anos 80, várias novelas das seis marcaram época, como Pão-Pão Beijo-Beijo (1983), Amor com Amor se Paga (1984), A Gata Comeu (1985), Sinhá Moça (1986), Bambolê (1987) e Fera Radical (1988).

Em 1993, um antigo sucesso do horário nobre da TV Tupi foi recontado às seis horas da tarde, Mulheres de Areia, a saga das gêmeas Ruth e Raquel. A reedição dessa novela, da saudosa Ivani Ribeiro, chegou cheia de efeitos especiais, propiciando aos noveleiros de plantão mais um delicioso momento da telenovela brasileira. Depois do grande sucesso de Mulheres de Areia, a Globo tentou emplacar tramas inéditas, mas o público não aceitou bem e o Ibope do horário acabou decaindo. (A exceção do período foi História de Amor, de Manoel Carlos, em 1995.)

"Mulheres de Areia" (1993)
Em 1997, entretanto, o núcleo de teledramaturgia da emissora resolveu trazer o sucesso de volta para o horário, apresentando o bem sucedido remake de Anjo Mau. Com elenco, direção e campanha de divulgação impecáveis, o antigo sucesso de Cassiano Gabus Mendes, reescrito por Maria Adelaide Amaral, ganhou roupagem nova e trouxe os altos índices de audiência de volta ao horário das seis.

O mesmo aconteceu com a festejada estréia da versão anos 90 de Pecado Capital, escrita originalmente por Janete Clair em 1975 e adaptada por Glória Perez em 1998. Já na primeira semana de exibição do remake, os altos índices de audiência foram confirmados, embora a história tenha perdido o impacto inicial após os primeiros capítulos.

No caso de Cabocla e Sinhá Moça, ambas de Benedito Ruy Barbosa, os remakes foram bem sucedidos. Já Ciranda de Pedra, apesar da produção impecável, não emplacou. Miguel Falabella que o diga, com sua Negócio da China. Mesmo original, o autor reconhece que se desviou de sua tradicional fórmula de sucesso, marca de suas novelas anteriores. A esperança agora é a nova Paraíso.

A dois passos do Paraíso


Aos 77 anos, Benedito Ruy Barbosa causou polêmica terça-feira passada ao criticar as novelas atuais na entrevista coletiva de lançamento da nova novela das 6, Paraíso. A trama é um remake de 1982, do próprio autor, e promete levantar o quase sempre caído horário. Benedito relembrou o episódio que o fez criar Paraíso nos anos 80: na época o programa Povo na TV, do SBT (até então TVS), estava batendo a Globo em audiência. “Era um programa em que valia tudo. O apresentador mandava as pessoas colocarem um copo de água em cima da TV, depois dizia que essa água estava benta e que poderia curar até câncer. Pensei: ‘Para vencer isso, só mesmo o casamento do filho do diabo com a santinha’”, comentou, rindo. A estratégia funcionou. “A novela estava tão certa que entrou no ar e foi um desbunde. Chegou a dar 70% de audiência. Uma coisa maluca, hoje não se consegue mais isso”, afirma Benedito. E completa em seguida: “Ou talvez se consiga, se você mostrar o amor como ele deve ser vivido, com beleza e grandeza. Infelizmente, hoje, todas as novelas começam na horizontal, com o marido traindo a mulher, a mulher dormindo com três ou quatro". Entre outras frases polêmicas, o autor soltou: "Não escrevo novela para mostrar a Índia. O Brasil é maravilhoso". Parece que Miguel Falabella e Glória Perez não gostaram nem um pouco dos comentários ácidos do colega. Paraíso volta à televisão em 16 de março com a proposta de resgatar o amor puro e romântico, além das histórias do interior do país. Quem assistiu à trama original tem a chance de relembrar a abertura no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=0Zf44iCEG-M