3 filmes sobre Aids pouco lembrados


Hoje em dia, filmes que abordam o ainda delicado tema da Aids são muito bem recebidos pelo público e aclamados pela crítica. Philadelphia (1993), de Jonathan Demme, e o recente The Normal Heart (2014), de Ryan Murphy, feito para a TV, são dois exemplos. Por mais que seja um tema menos tabu atualmente, houve uma época (não faz tanto tempo assim) em que a mídia procurava esquivar-se do assunto.


Alguns filmes, no entanto, foram ousados por terem sido os primeiros a abordar a questão diretamente. Até fins da década de 1980, por exemplo, o tema era evitado tanto pelas grandes emissoras de TV quanto pelo cinema. Como hoje é dia 1º de dezembro — Dia Mundial de Combate à Aids — separei três filmes muito bons sobre o assunto. Não são tão conhecidos quanto os dois que citei mais acima, mas são ótimas dicas para quem se interessa em ver o tema abordado com sensibilidade (e sem sensacionalismo) pelo cinema.


Aids: Aconteceu Comigo
(An Early Frost, 1985)
Direção: John Erman
Com: Gena Rowlands, Ben Gazzara, Aidan Quinn, Sylvia Sidney 



Ao descobrir-se portador do vírus HIV, Michael (Aidan Quinn), um jovem advogado, vê-se obrigado a revelar para a família que está infectado, que sua morte precoce é inevitável e, de quebra, que é homossexual. Fragilizado e assustado, Michael precisa de apoio, amor e compreensão de seus pais. Mas a noticia caiu como uma bomba na família e leva a vários conflitos. Extremamente bem produzido, foi o primeiro filme a retratar o tema da Aids. Na época, pouco se sabia sobre a doença e ainda não havia tratamento adequado. Feito para a TV americana, o longa foi ao ar no canal NBC em 11 de novembro de 1985. Gena Rowlands e Ben Gazzara estão impecáveis nos respectivos papéis de mãe e pai de Michael. Aidan Quinn está igualmente ótimo. Mesmo com toda a insegurança e o temor, o telefilme conseguiu passar uma mensagem de coragem em meio às incertezas e ao desconhecimento vigentes na época. A abordagem é bastante tocante, sem cair no dramalhão em momento algum (o que seria de se esperar de um telefilme típico). O título original em inglês, An Early Frost (que pode ser traduzido como "uma geada que vem mais cedo", ou "que chega antes da hora") é de uma das falas do filme, dita pela personagem avó de Michael. Ao olhar o canteiro de rosas no jardim da família, ela ressalta como as flores estão bonitas e espera que uma geada prematura ("early frost") não as mate antes da hora. Ao mesmo tempo, a família tem que lidar com outra geada prematura: a doença de Michael e a revelação de sua homossexualidade. O produtor Perry Lafferty revelou que a NBC deixou de faturar 500 mil dólares com publicidade, pois os anunciantes não queriam seus comerciais exibidos durante os intervalos do filme. Mesmo assim, An Early Frost ganhou quatro prêmios Emmy.


Meu Querido Companheiro
(Longtime Companion, 1990)
Direção: Norman René
Com: Stephen Caffrey, Patrick Cassidy, Brian Cousins, Mary-Louise Parker, Dermot Mulroney



Em 1981, 335 americanos morreram contaminados por uma doença então identificada como uma espécie de câncer que só atingia os homossexuais. O filme mostra os primeiros anos da epidemia da Aids e seu impacto na vida de um grupo de amigos gays e da irmã (heterossexual) de um deles. As primeiras notícias de jornal falando sobre o vírus, no começo da década de 1980, deixam a turma de amigos apreensivos. Não demora muito para que alguns deles apareçam gravemente doentes. As dúvidas, a maneira de encarar o futuro e a importância da solidariedade estão no centro da abordagem. Foi o primeiro filme a tratar do então polêmico tema da Aids e a receber um amplo lançamento nos cinemas dos EUA. O título original, Longtime Companion (algo como "Companheiro de longa data"), refere-se à única expressão que era permitida, à época, para que os jornais se referissem ao parceiro sobrevivente de um casal gay, quando um deles morria por causa do vírus HIV. O crítico de cinema Roger Ebert escreveu: "Meu Querido Companheiro é um filme sobre amizade e lealdade, sobre encontrar coragem para ser útil e humildade para ser ajudado."


A Última Festa
(It's My Party, 1996)
Direção: Randal Kleiser
Com: Eric Roberts, Gregory Harrison, Margaret Cho, Olivia Newton-John



Apesar do clima bem-humorado, a história é de cortar o coração. Nick Stark (Eric Roberts) é um bem-sucedido arquiteto que vive com seu companheiro Brandon (Gregory Harrison) há alguns anos. Diagnosticado com o vírus do HIV, Nick fica inseguro e teme morrer sozinho. Infelizmente, o relacionamento dois dois não resiste ao abalo e Brandon deixa Nick. Algum tempo depois, para piorar, Nick é diagnosticado com leucoencefalopatia multifocal progressiva — doença neurológica rara que causa degeneração mental gradativa em poucos meses. Decide, então, que não quer esperar pela morte dolorosa. Organiza uma festa de dois dias para a família e os amigos íntimos, ao fim da qual vai abreviar sua vida com dignidade, tomando uma dose letal de barbitúricos. O filme mostra a festa de despedida de Nick e seus amigos. Em meio a lembranças divertidas, piadas, episódios tristes e felizes, Brandon, que havia abandonado Nick, aparece, causando tensão e indignação nos amigos. Na verdade, Brandon sente-se culpado por ter deixado Nick no momento em que o companheiro mais precisava. No curto espaço de tempo da festa, todos precisam conformar-se com a decisão de Nick, por mais doloroso que seja. Mesmo recheado de piadas ácidas, o filme tem uma melancolia permanente, por confrontar família e amigos com o “suicídio consentido” de um ente querido por todos. A história foi baseada em fatos reais, sobre a morte do ex-companheiro do diretor Randal Kleiser na vida real, em 1992. Kleiser dirigiu os sucessos de bilheteria Grease - Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978) e A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, 1980).

Ruins de verdade


O crítico John Weber, do site Bad Movie Night, fez uma observação bastante pertinente: "Como Sigmund Freud disse, às vezes um charuto é apenas um charuto. Da mesma forma, às vezes um filme ruim é apenas um filme ruim, sem o devido valor kitsch capaz de torná-lo interessante em novos e diferentes níveis”.

Em 2014 fiz um post chamado Obscuridades do tempo das locadoras, falando sobre três filmes pouco conhecidos que ocupavam as prateleiras das videolocadoras e que hoje são totalmente esquecidos. Apesar disso, mereciam uma olhada, na minha opinião. Em 2015 fiz o post Quatro filmes para morrer antes de ver, sobre filmes realmente ruins que habitavam as videolocadoras. Agora resolvi fazer uma mistura dos dois posts, sobre filmes obscuros e ruins das locadoras.

Lembro-me bem de como foi frustrante assistir a esses filmes, pois eles são realmente fracos. De qualquer forma, como gosto de obscuridades, acabo sempre voltando ao tema. Nem todas essas esquisitices, entretanto, são dignas de figurarem na galeria dos “filmes ruins que são bons”. É o caso desses aqui, que — para mim — são ruins de verdade:


Alguém Atrás da Porta
(Quelqu'un derrière la porte / Someone Behind the Door, 1971)
Direção: Nicolas Gessner
Com: Charles Bronson, Anthony Perkins, Jill Ireland



Um neurocirurgião (Anthony Perkins) quer matar a esposa infiel (Jill Ireland) e seu amante (Henri Garcin). Com uma sorte impressionante, encontra um homem que, além de psicótico, está sofrendo de amnésia (Charles Bronson). O médico leva o tal homem para casa e começa a manipulá-lo, na tentativa de persuadi-lo a cometer o assassinato. Mas o estranho mostra-se vulnerável, confuso e emocionalmente fraco. Embora seja uma produção francesa, o trio de protagonistas é americano. Era para ser um thriller psicológico, mas o filme, de tão monótono, é altamente sonífero. Feito muito antes de Bronson se tornar popular por seus papéis de durão-vingador-que-sai-atirando-para-todos-os-lados, o filme é uma rara oportunidade de ver o ator tentando se virar com uma atuação mais “séria”. Mas seu personagem nem mesmo tem nome. Anthony Perkins, por sua vez, vive um personagem que lembra muito outros já representados por ele em filmes como Psicose (Psycho, 1960) e O Escândalo (Le Scandale / The Champagne Murders, 1967). Jill Ireland, na época esposa de Charles Bronson na vida real, faz o papel da esposa de Perkins. A impressão que se tem é que o filme não vai acabar nunca.


Entrando à Força
(Forced Entry / The Last Victim, 1975)
Direção: Jim Sotos
Com: Tanya Roberts, Ron Max, Nancy Allen 



Um mecânico esquisitão (Ron Max) com traumas de infância mal resolvidos tem também problemas com mulheres. Ao que tudo indica, ele não consegue se relacionar de forma emocional ou sexual com elas. Passa, então, a atacá-las violentamente para estuprá-las e depois as mata. Prostitutas, moças que pedem carona em beira de estrada, donas de casa... Todas podem se tornar vítimas. O foco do filme, no entanto, é mais na perversão sexual do maníaco que nas cenas sangrentas. Quando a personagem de Tanya Roberts se torna uma das clientes do mecânico maníaco, ele passa a vigiá-la e a faz refém em sua casa, aproveitando um momento em que a moça estava sozinha. O filme, narrado pelo personagem do estuprador, é bastante arrastado. A edição desleixada também não ajuda. Estreia (pobre) de Tanya Roberts no cinema. Alguns anos depois ela se tornaria uma das Panteras do seriado Charlie's Angels. Nancy Allen, na época ainda desconhecida, faz uma ponta como uma das vítimas. O filme, na verdade, é um remake “amenizado” de um outro, pornográfico, lançado no ano anterior, com o mesmo título (Forced Entry). Mas são dois filmes diferentes.


O Intruso
(Savage Intruder / Hollywood Horror House, 1970)
Direção: Donald Wolfe
Com: Miriam Hopkins, David Garfield, Gale Sondergaard 



Miriam Hopkins vive uma ex-estrela do cinema. Em sua mansão decadente, em Hollywood, ela não passa de uma lenda do passado. Uma velha excêntrica, alcoólatra, solitária e carente. Um jovem andarilho que mata velhas senhoras da região aparece na mansão da velha e passa a trabalhar como seu enfermeiro e acompanhante particular. O rapaz passa a exercer uma ascendência sobre a secretária da velha e a empregada da mansão. A premissa leva a crer que uma trama interessante de mistério vai se desenvolver. Mas o filme, extremamente cansativo e arrastado, perde o rumo e vira uma mistura de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) com O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962), mas em tom de pastiche. Mal executado, o longa é de matar de tédio. Viagens psicodélicas, delírios repetitivos e clichês do gênero são recorrentes na narrativa, bem ao estilo dos filmes do final da década de 1960. Último filme de Miriam Hopkins, coitada. Exibido na TV com o nome O Intruso Selvagem.


Caçada Sangrenta 
(Blood Song, 1982)
Direção: Alan J. Levi
Com: Donna Wilkes, Frankie Avalon, Antoinette Bower



Em 1955, um garotinho testemunha o pai matar a mãe e seu amante e suicidar-se em seguida. Em 1982, já adulto, o sujeito (vivido por Frankie Avalon) foge do manicômio onde vivia internado, rouba uma van e começa uma matança. Munido de sua flauta (presente de seu pai, na infância) ele sempre toca a mesma canção. Paralelamente, uma adolescente deficiente (Donna Wilkes) tem pesadelos premonitórios e recorrentes com o psicopata fugitivo. Ela acaba testemunhando um dos assassinatos do louco, que passa a persegui-la. Para piorar, a garota, no passado, havia recebido uma transfusão de sangue do psicopata. A história até parece interessante no começo, mas o filme demora muito a engrenar. E quando começa a andar, já estamos enjoados. Frankie Avalon teve dois hits em primeiro lugar das paradas no final dos anos 1950 (Venus e Why) e vendeu milhões de discos ao longo da década de 1960. Na mesma época, também estrelou uma série de filmes juvenis de praia, ao lado de Annette Funicello. Após uma sumida, reapareceu em uma participação em Grease (1978), em grande estilo. Quando fez Caçada Sangrenta, estava meio em baixa de novo. Exibido na TV com o nome Canção Mortal.

6 novelas obscuras dos anos 2000


Algumas novelas, apesar de não serem tão antigas, adquiriram uma reputação de "obscuras" por não terem conseguido sucesso de audiência. Seja por problemas com a história em si, que não engatou, com a escalação do elenco, ou com ambos. Fiz uma pequena lista com seis dessas novelas da década de 2000. Alguns casos, como Bang Bang (2005) e Negócio da China (2008), apesar de terem sido fracassos, ainda são bem lembradas e consideravelmente conhecidas. Por isso não entraram no meu Top 6 de novelas pouco marcantes dos anos 2000. Meu critério para esse julgamento foi pessoal. Considero obscuras aquelas novelas indistintas, que tiveram baixa audiência e que rapidamente foram esquecidas por nunca terem, de fato, decolado. De algumas praticamente nem temos lembrança, ou então só nos lembramos vagamente de algum detalhe genérico. 


Desejos de Mulher (2002)
De Euclydes Marinho


Dessa novela só me lembro de duas coisas: o frisson por Regina Duarte aparecer de cabelo curto e a trilha sonora internacional, que era ótima (mas que mal tocava na novela). Esperava-se que o embate entre as personagens de Glória Pires e Regina Duarte fosse repetir, ao menos um pouco, o sucesso de suas personagens em Vale Tudo (1988). Passou batido. Como explica Nilson Xavier em seu site Teledramaturgia: "A audiência correspondia ao mínimo que a emissora esperava para o horário na época. O elenco era dos melhores, os atores trabalharam com afinco. Mas a trama, confusa e cheia de idas e vindas, dificultou o entrosamento." 



Sabor da Paixão (2002-2003)
De Ana Maria Moretzsohn


Não me lembro de praticamente nada dessa novela, a não ser de Letícia Spiller. O título (que soa mexicano) é bem genérico, o que também não ajuda. Sabor da Paixão não fez jus ao título: era bem insossa, pelo pouco que me lembro. Na época, o que mais se falava é que aquela era a pior audiência da história das novelas das seis até então. "Faltou fôlego para uma trama tão inconsistente. E a história da Cinderela moderna, na Lapa idealizada do Projac, não convenceu", explica Nilson Xavier.



Agora é que São Elas (2003)
De Ricardo Linhares



Essa me esforcei para assistir, mas não cheguei a ficar muito empolgado. O que me animava era o trio dos protagonistas: Vera Fischer, Miguel Falabella e Marisa Orth. Mas nenhum deles estava muito convincente. Caco Antibes e Magda (do Sai de Baixo) ainda eram muito recentes. O CD nacional era ótimo, cheio de músicas que foram muito tocadas na época. E as canções eram bem usadas na novela. Mas não teve trilha internacional, devido à audiência não muito boa e ao encurtamento da novela.



Começar de Novo (2004-2005)
De Antônio Calmon e Elizabeth Jhin


Outra novela da qual não me lembro de praticamente nada, a não ser do casal de protagonistas — Marcos Paulo e Natália do Valle — e da história ser bem enfadonha. A trama não empolgou, principalmente depois de uma novela de tanto sucesso como sua antecessora, Da Cor do Pecado. "Fiz Começar de Novo para as mulheres maduras e acabei, com isso, abandonando os jovens, que são a minha praia", disse Antônio Calmon. (Fonte: site Teledramaturgia)



Eterna Magia (2007)
De Elizabeth Jhin



Comecei a assistir porque adoro novelas ambientadas nos anos 1940, mas não fui muito longe. A história não me empolgou. Só me lembro que Malu Mader era Eva Sullivan, uma pianista famosa, e Cássia Kiss, a vilã (cujo cabelo, inspirado em Meryl Streep no filme O Diabo Veste Prada, chamou atenção). A trama tinha "bruxas" boas e "bruxas" más. E a história se passava em uma colônia irlandesa fictícia, no interior de Minas.



Três Irmãs (2008-2009)
De Antônio Calmon



Cláudia Abreu, Giovanna Antonelli e Carolina Dieckmann eram as três irmãs do título. Mais uma dessas novelas genéricas do horário das 7, esquecível antes mesmo de chegar ao fim. A escalação do elenco sofreu vários problemas. Graziela Moretto deixou a novela quando soube que estava grávida. Luiz Gustavo e Otávio Augusto saíram sem maiores explicações. Marcello Novaes ficou afastado da novela por um tempo, após sofrer uma agressão física que o deixou bastante ferido. Solange Couto também teve que ser afastada da novela durante um tempo, depois de uma isquemia cerebral. (Fonte: site Teledramaturgia)

Servicinho batuta


No começo da década de 1970, o Jornal do Brasil publicava, aos domingos, um caderno infantil. O Caderno I trazia matérias escritas especialmente para o público infantojuvenil, sobre história geral, curiosidades, ciências, literatura, brincadeiras, receitas etc. Textos educativos e recreativos, escritos com extrema inteligência e leveza, primorosamente ilustrados. Além das matérias, tiras da Turma da Mônica, do Snoopy e outros. Sessão de cartas e classificados também faziam parte do caderno.

Antes de ontem, ao organizar antigas caixas da minha mãe, encontrei alguns recortes que ela guardava do Caderno I, do tempo em que ela lecionava.



Lembrei-me de muitos contos, poemas e histórias em quadrinhos daqueles recortes que eu tanto lia quando criança (apesar de não serem do meu tempo). Mas o que mais me chamou a atenção ao revê-los, hoje, foi a sessão de classificados infantis ("Servicinho"). Lendo os anúncios, tão ingênuos, que as crianças mandavam para o caderno, não pude deixar de rir de vários deles. Não por deboche, mas por achar graça da inocência daqueles pedidos, dicas, sugestões e recados, escritos por crianças mais de quatro décadas atrás. O linguajar, atualmente, seria inimaginável. Mesmo com algumas gírias, o tom das crianças ainda carregava certa formalidade (ou precocidade?) naquele começo dos anos 1970. E muita criatividade. Alguns termos — hoje não muito politicamente corretos — também me fizeram rir. Selecionei alguns anúncios, publicados ao longo de 1973, na seção "Servicinho":
















O Portador


No comecinho da década de 1990, a Aids era um tema tabu e extremamente incômodo. Pouco se sabia sobre a doença e vivia-se um clima de medo e insegurança. Quando a minissérie O Portador, de oito capítulos, foi exibida pela Globo, entre 10 e 20 de setembro de 1991, o assunto ainda causava bastante desconforto. Escrita por José Antônio de Souza e Aziz Bajur, a partir do argumento de Herval Rossano — que foi também o diretor geral — a minissérie conseguiu a proeza de tratar, àquela época, de um tema tão controverso e carregado de preconceitos como a Aids. 



Pouco lembrada hoje em dia, mas ainda incrivelmente atual no que diz respeito à reação das pessoas, ao preconceito e ao temor, O Portador já gerava certa "tensão" bem antes de sua estreia. Estava pronta desde novembro de 1990, mas ficou quase um ano engavetada. "Herval Rossano descarta a possibilidade do programa ter sido boicotado pela emissora", informou uma matéria da Folha de S. Paulo, de 8 de setembro de 1991. "Ele parte do princípio que a emissora não iria bancar a realização de um projeto para depois desistir de exibi-lo." 

A minissérie conta a história de Léo (Jayme Periard), 30 anos, um dos sócios em uma empresa de congelados, juntamente com o casal Reginaldo (Jonas Bloch) e Luciana (Lilia Cabral). Boa praça, responsável, generoso e trabalhador, Léo é querido por todos. Após um acidente de avião, durante uma viagem a Manaus, ele recebe uma transfusão de sangue e tem a vida salva.


Algum tempo depois, Léo se oferece para doar sangue à mãe de uma amiga e acaba descobrindo, para sua surpresa e espanto, que tem o vírus da Aids. A reação inicial é de pânico, já que sempre levara uma vida regrada e tranquila. O médico, interpretado por Othon Bastos, explica a Léo que ele é um portador saudável, isto é, carrega o vírus da Aids, mas não sofre os efeitos da doença. A pergunta que o aflige é: por quanto tempo ele continuará saudável? O sócio Reginaldo, amigo e compreensivo, tenta ajudá-lo, mas esbarra no preconceito da própria esposa, Luciana (Lília Cabral), que fica paranóica e não quer manter contato algum com Léo. Luciana fica tão descontrolada que chega a afastar seu filho da convivência com o rapaz. Paralelamente, Léo precisa lidar também com o fato de ser apaixonado por sua ex-namorada, Marlene (Dedina Bernadelli), com quem sonhava ter um filho.

Léo (Jayme Periard) e o amigo e sócio Reginaldo (Jonas Bloch)

Luciana (Lília Cabral), o filho Quiquito (André Luiz) e Léo (Jayme Periard)

Luciana (Lília Cabral), Vilma (Zezé Polessa) e Marlene (Dedina Bernadelli)
Passado o desespero do choque, Léo tenta retomar as rédeas de sua vida e manter sua sanidade. Mas decide sair atrás da identidade do passageiro que havia feito a doação de sangue, na época do acidente. Na angustiante jornada, o jovem empresário vai em busca dos companheiros de voo, em várias cidades, e se depara com alguns dos "suspeitos": Álvaro (Roberto Pirillo), sujeito casado e fanfarrão, que leva uma vida promíscua; Laurita (Thereza Amayo), mãe de um adolescente drogado; Jacira (Mayara Magri), estudante de pós-graduação com um passado obscuro; Aurélio (Edwin Luisi), um reservado homossexual que possui um namorado aidético em fase terminal; Patrícia (Françoise Forton) e Oscar (Raymundo de Souza), um simpático casal; e Alfredão (Jonas Melo), um criador de cavalos de comportamento estranho, entre outros.

Ao mesmo tempo em que precisa lidar com seus próprios medos e aflições, Léo acaba ajudando vários dos passageiros, de diferentes formas, durante sua busca pela pessoa responsável por sua contaminação. Em meio a tantos problemas diferentes, Léo começa a refletir sobre sua dificuldade em resolver os próprios problemas. Aos poucos, vai redescobrindo a esperança e se dá conta de que não é mais essencial descobrir quem o contaminou. É justamente então que ele descobre. "Passei tanto tempo atrás desse nome. Agora que eu tô correndo dele, ele vem atrás de mim", diz o personagem.

Léo (Jayme Periard) e Jacira (Mayara Magri)
O que mais impressiona em O Portador, ao assisti-la hoje em dia, é perceber o realismo com que a minissérie foi conduzida, sem que tivesse sido tratada como um "telecurso". É claro que houve pretensões didáticas também, mas até isso foi executado com extrema naturalidade e sutileza, sem quebrar a narrativa, mesclando o drama pessoal do protagonista ao clima policial. Jayme Periard interpretou Léo de forma hábil e digna, com empatia e sensibilidade, sem cair em exageros.


O final da minissérie — emocionante sem ser piegas — deixa uma mensagem de otimismo. "Não há uma preocupação de mostrar um sofrimento atroz. Não há espírito derrotista. Há uma mensagem de que se pode conviver com o vírus, mas é preciso que se aprenda isso", disse Herval Rossano, antes da estreia de O Portador. Um mérito notável, se levarmos em conta que, naquela época, imperava a falta de informação (da população e dos médicos), além da precariedade do tratamento da doença no Brasil.