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Feliz 1979!


Para alegria dos noveleiros, o canal Viva passa a exibir, a partir do próximo mês, a novela Pai Herói, de Janete Clair. Enorme sucesso na época (foi ao ar de janeiro a agosto de 1979), chegou a abocanhar 88 pontos no Ibope em São Paulo, marca então inédita na maior cidade brasileira. Seu público foi estimado em 45 milhões de telespectadores, um marco.  Curiosamente, Pai Herói nunca foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo e por isso mesmo é, hoje, uma novela extremamente rara, apesar de sempre lembrada. Mas não vou esmiuçá-la. Para isso, existem duas excelentes fontes: o site Teledramaturgia, de Nilson Xavier, e o blog Vivo no Viva, de Duh Secco. O que pretendo fazer é relembrar um pouco o ano de 1979. Eu, particularmente, não tenho lembranças, pois nasci justamente naquele ano. Mas como adoro aquela época, não foi difícil reunir algumas coisas que marcaram o tão distante (?) 1979.



O ano de 1979 foi declarado, pelas Nações Unidas, o Ano Internacional da Criança. A proclamação foi oficialmente assinada em 1º de janeiro de 1979, pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim. O objetivo foi voltar as atenções para os problemas que afetavam as crianças em todo o mundo, como desnutrição e falta de acesso à educação. Para marcar o evento, o concerto beneficente A Gift of Song - Music for Unicef aconteceu na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 9 de janeiro. Cada artista que se apresentou no evento doou os direitos autorais de uma canção para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Bee Gees, Donna Summer, ABBA, Olivia Newton-John, Rod Stewart e Kris Kristofferson foram alguns dos ilustres participantes.



O ano começou também com o fim de Dancin’ Days, novela de Gilberto Braga que havia sido o grande sucesso do ano anterior. Mas Pai Herói preencheu, com louvor, a lacuna. Outras novelas que tiveram destaque ao longo daquele ano foram A Sucessora, Feijão Maravilha, Marron Glacê e Cabocla.



A rede de fast food McDonald's chegou ao Brasil. O primeiro restaurante foi inaugurado em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1979.




Em 15 de março de 1979, João Baptista Figueiredo assumiu a presidência da República por meio de eleição indireta. Foi a última vez que um militar tomou posse do cargo de presidente do Brasil. Em seu mandato, a abertura política se intensificou e as manifestações populares conseguiram pressionar o governo rumo ao fim da ditadura.



A banda Black Rio não perdeu tempo e lançou a Dança do Figueiredo, também conhecida como Melô do Figueiredo, a "música oficial dos concursos de discotheque", segundo Carlos Imperial, um dos apresentadores mais populares (e controversos) da época. A música também fez parte da trilha sonora do filme Sábado Alucinante, daquele ano.




Entre as premiações do Oscar de 1979, na 51ª cerimônia de entrega dos troféus, estavam O Franco Atirador (Melhor Filme), Michael Cimino (Melhor Direção por O Franco Atirador), Jon Voight (Melhor Ator por Amargo Regresso), Jane Fonda (Melhor Atriz por Amargo Regresso), Christopher Walken por (Melhor Ator Coadjuvante por O Franco Atirador) e Maggie Smith (Melhor Atriz Coadjuvante por California Suite).


Jon Voight e Jane Fonda
Maggie Smith

O megasucesso Superman - O Filme (1978), estrelado por Christopher Reeve, estreou no Brasil em abril de 1979.




Foi também o ano em que as séries nacionais começaram  a dividir espaço com os enlatados americanos. A Globo produziu Malu Mulher, Plantão de Polícia e Carga Pesada, bastante populares na época.

"Malu Mulher"
"Carga Pesada"
"Plantão de Polícia"


A série As Panteras (Charlie’s Angels) continuava fazendo sucesso no mundo todo, mesmo sem Farrah Fawcett. Mas em 1979 outra atriz deixou o seriado: Kate Jackson, sendo substituída por Shelley Hack.




O grupo infantil As Melindrosas, composto pelas cantoras Gretchen, Sula Miranda, Yara e Paula, era a sensação da criançada. Gretchen deixou o grupo alguns meses depois de seu lançamento, para estrear carreira solo. Haviam lançado, no ano anterior, o LP Disco Baby, que trazia cantigas de roda gravadas em ritmo discotheque. O grande sucesso chamou a atenção, pela primeira vez, para o mercado musical infantil no Brasil. Em 1979 A Patotinha estava no auge. O primeiro disco que ganhei, logo que nasci, foi Disco Baby. Durante grande parte da minha infância, foi o LP que mais ouvi.




O ator John Wayne, ícone dos filmes de faroeste, faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos de idade, em decorrência de um câncer de estômago.



Em julho de 1979 foi lançado, pela Sony, o walkman, que se tornaria em pouco tempo um dos produtos de maior sucesso da eletrônica.



A Lei de Anistia aos condenados por crimes políticos veio em agosto 1979 e beneficiou centenas de presos políticos, além de permitir o retorno ao Brasil das pessoas que haviam sido banidas e exiladas. Por mais insólito que pareça, a Anistia abonou também os torturadores. Entre os exilados estava o sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henfil, citado nos versos da música O Bêbado e o Equilibrista, gravada por Elis Regina em 1979: "Meu Brasil (...) que sonha com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete / Chora a nossa pátria, mãe gentil / choram Marias e Clarisses no solo do Brasil". A música virou o hino da luta pela anistia.




Entre os grandes nomes da música brasileira, Elis Regina foi um dos destaques de 1979, com o álbum Essa Mulher.




Gal Costa também marcou época com Gal Tropical, lançado em julho daquele ano. Entre as faixas de destaque, Força Estranha, Balancê e Meu Nome É Gal.



Rita Lee também brilhou nas paradas com o LP Rita Lee, cheio de hits: Chega Mais, Doce Vampiro, Mania de Você, Arrombou a Festa II.



Em 1979, Chico Buarque lançava o disco com a trilha sonora da Ópera do Malandro, musical de sua autoria baseado na Ópera dos Mendigos, de John Gay, e na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. 



Na vertente mais "popular" da música nacional, Sidney Magal estava no auge e lançou o disco O Amante, que trazia os hits Meu Sangue Ferve Por Você e Se Te Agarro Com Outro Te Mato.



Perla continuava o sucesso dos anos anteriores e lançou Pequenina, cuja canção-título era uma versão em português do hit Chiquitita, do ABBA.



Chrystian (cantando em inglês, antes de formar dupla com o irmão Ralf) e Odair José também eram o maior sucesso. Tanto Christian como Odair tinham músicas suas como temas de destaque em novelas de 1979: Chrystian com Lies, em Feijão Maravilha, e Odair José com Até Parece um Sonho, em Cabocla.




Na música internacional, ainda sob influência da disco music, os grupos Bee Gees e ABBA dominaram as paradas com seus respectivos álbuns Spirits Having Flown e Voulez-Vous.



Duas coletâneas ditavam o que seria sucesso em 1979: o Disco 79, da Som Livre, e o Fantásticos 79, da RCA.




A POP ainda era  a revista dos jovens. A publicação havia sido lançada pela Editora Abril sete anos antes e teve sua ultima edição em agosto de 1979, para tristeza da rapaziada.



"Greve, impasse e a queda de Lula". Décadas antes da crise no PT e de se eleger presidente do Brasil, Lula já estampava a capa da Veja.



O modelo Pedrinho Aguinaga, eleito, alguns anos antes, o homem mais bonito do Brasil em um programa de TV, era o garoto-propaganda dos cigarros Chanceller, "o fino que satisfaz".




Falando em cigarro, o Charm ainda era chiquérrimo.



Em matéria de carros, Belina, Comodoro e Passat eram must na época. Mesmo assim, nas ruas, a cada 100 carros, praticamente 90 eram fusquinhas!




As mulheres já lutavam por seu espaço na sociedade, que ainda era, predominantemente, dos homens. Mas nem por isso elas abriam mão da feminilidade. Delma Seraphin, dona da Mônaco, butique carioca de Copacabana, que completava 20 anos em 1979, tentou definir a mulher da época:

Revista de Domingo - Jornal do Brasil (10/06/1979)

As mulheres também podiam ganhar dinheiro com a Shana — com o perdão do duplo sentido. Shana era nada mais que uma rede de bijuterias.



Os maiôs das mulheres e as sungas dos homens eram coloridos e estampados. Os corpos eram mais naturais. Os homens ostentavam, com orgulho, seus corpos peludos e bronzeados e as mulheres com seios pequenos não eram consideradas menos atraentes.




Nuno Leal Maia e Tony Ramos eram os garotos-propaganda do Philishave, o barbeador elétrico da Philips.



Os famosos cursos por correspondência eram muito comuns na época, com propagandas que saíam em todo tipo de revista.




Em 1979 a inflação ainda era alta e os preços mudavam com assustadora frequência. Nessa propaganda da Sears (popular loja da época), por exemplo, os "preços sensacionais" só eram válidos por 3 dias.



Antes de sequer sonharmos que a HP (Hewlett-Packard) seria uma marca tão presente em nosso cotidiano doméstico, com impressoras, notebooks e tablets, ela já se fazia notar por suas moderníssimas calculadoras.



Em matéria de livros, Agatha Christie, Sidney Sheldon, Jorge Amado, Arthur Hailey e Morris West eram figurinhas fáceis nas listas de best-sellers.

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Os aparelhos de som do tipo "3 em 1" eram um luxo!

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A inspiração para este post foi a volta de Pai Herói no Viva. Mas outra novela também marcou 1979, porém de forma negativa, por ter sido um dos maiores fracassos de todos os tempos da Rede Globo: Os Gigantes. Para piorar, ela veio logo depois de Pai Herói. No começo, ainda se achava que seria mais um sucesso. Mas não passou de um grande embaraço. 


Após os desvarios românticos, aventurescos e sociais do Pai Herói, o abrangente horário das 20h na Rede Globo de Televisão está ocupado pelo tom sério e medido de Os Gigantes. Um trabalho de Lauro César Muniz que não revela tendência ou renovação do gênero. Apenas uma fase de um caminho mais realista que vive há cerca de 10 anos se alternando com melodramas doídos na tentativa de satisfazer um público heterogêneo que quase sempre aceita muito bem a fórmula folia seguida de verismo. Pertence a esta corrente o trabalho atual que já nos seus primeiros capítulos mostrou crime de eutanásia, um aborto natural, conflito econômico e social entre uma pequena empresa contra gigante multinacional e, principalmente, por ser o amor a grande e eterna arma destas histórias, o galã se desquitando (...). (Maria Helena Dutra - Caderno B - Jornal do Brasil, 9 de setembro de 1979)

FIM