A visita de uma familiar história


É recorrente o uso de um determinado mote na teledramaturgia brasileira: a vingança. Uma mesma estrutura, diversas vezes utilizada em nossas novelas, garantiu o sucesso de várias tramas. Com algumas variações ao redor da história principal, o enredo é basicamente o seguinte: uma moça é expulsa de uma cidadezinha, ou levada a deixar o lugar, seja pelo julgamento inclemente e moralista de seus habitantes ou por circunstâncias abusivas. Injustiçada, a personagem retorna, muitos anos depois, em busca de vingança.

Ao que tudo indica, o público se identifica com esse tipo de heroína vingadora, uma espécie de “mocinha”, porém forte, independente e destemida, ao contrário das sofredoras, românticas e ingênuas mocinhas tradicionais. Essa estrutura ficou célebre com a peça A Visita da Velha Senhora (Der Besuch der Alten Dame), do suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), escrita em 1955.

A peça estreou no começo de 1956, na Suíça, e pouco depois, na Alemanha. Em poucos meses, conquistou plateias da França, Inglaterra, Japão e EUA. No Brasil, o espetáculo, dirigido por Walmor Chagas, foi apresentado por Cacilda Becker, em 1962. A atriz interpretou o papel da protagonista Clara Zachanassian.

Na provinciana Güllen, cidadezinha perdida em alguma parte da Europa central, nasce Clara, de família humilde. Aos 17 anos, apaixona-se perdidamente por um jovem ambicioso, Alfred, com quem vive um caso de amor. Grávida, é abandonada pelo rapaz, que pretendia se casar com outra moça da cidade, cuja família tinha algumas posses. Oprimida, Clara exige justiça para si e para o bebê que ia ter. Alfred e todos os homens "honestos" da cidade, porém, envolvem-na em um processo humilhante, após tramar para fazê-la parecer uma moça de índole duvidosa e indigna. Ao fim do processo, ela acaba sendo escorraçada da cidade. 


Cacilda Becker em A Visita da Velha Senhora
Obrigada a sair de Güllen, Clara torna-se prostituta para sobreviver e, depois, esposa  de um milionário mais velho, Zachanassian, dono de metade da Europa. "O mundo fez de mim uma mulher da vida e eu quero fazer dele um bordel", apregoa Clara. Décadas depois, já viúva, ela retorna a Güllen, com o propósito secreto de vingar-se da injustiça da qual fora vítima na mocidade. Para isso, ajuda a pobre cidade a se recompor e a progredir. Mas sua ajuda tem um alto preço: jogar uns contra os outros, revelando a verdadeira natureza hipócrita, mesquinha e cruel daquelas pessoas, incluindo seu maior alvo: Alfred. A integridade moral dos cidadãos não é inabalável. À medida que a cidade começa a antecipar seu futuro de prosperidade, cresce o número dos que reconhecem a injustiça cometida à Clara no passado.

Qualquer semelhança com tramas de telenovelas brasileiras não é mera coincidência. Exemplos não faltam. Coincidentemente, o canal Viva exibe duas dessas emblemáticas tramas atualmente: Fera Radical (1988) e Tieta (1989-1990), grandes sucessos da década de 1980.


Em Fera Radical (Rede Globo), de Walter Negrão, Cláudia (Malu Mader) quer vingar o extermínio de sua família, ocorrido 15 anos antes na pequena Rio Novo. Mesmo tendo deixado a cidade após o atentado, a moça nunca deixou de responsabilizar os Flores — família de fazendeiros ricos — pela tragédia de seu passado, quando ainda era uma menina. Ela retorna a Rio Novo e começa a trabalhar para os Flores, buscando esclarecer as circunstâncias da morte de sua família e com o intuito de vingar-se de seus supostos algozes. Para isso, Cláudia se envolve com os irmãos Fernando (José Mayer) e Heitor Flores (Thales Pan Chacon), cativa o patriarca Altino (Paulo Goulart) e desperta a ira da matriarca Joana (Yara Amaral).

Malu Mader em Fera Radical (1988)
Em Tieta (Rede Globo), novela de Aguinaldo Silva, baseada no romance homônimo de Jorge Amado, o ponto de partida remete mais diretamente à peça A Visita da Velha Senhora. Tieta (Betty Faria), agora rica, volta à empobrecida e esquecida Santana do Agreste, da qual fora expulsa na juventude, para acertar as contas com seu triste passado. Tieta havia sido escorraçada da cidadezinha 20 anos antes, a cajadadas, pelo pai, insuflado pela irmã Perpétua (Joana Fomm). A cidade testemunhou tudo calada. Agora Tieta retorna, exuberante, distribuindo presentes e trazendo o progresso para o lugar. A cidade toda, por interesse, passa a bajulá-la, sem nem imaginar que o verdadeiro intento da benfeitora é mostrar ao povo de Santana do Agreste que ele continua tão hipócrita, moralista e injusto quanto no passado.

Betty Faria em Tieta (1989)
Além desses dois sucessos, atualmente em exibição no Viva, outras telenovelas brasileiras utilizaram a mesma premissa, contada de formas diversas, mas que remetem à atemporal peça de Dürrenmatt. A trama central de Chocolate com Pimenta (Rede Globo, 2003-2004), de Walcyr Carrasco, é outro exemplo. Ana Francisca (Mariana Ximenes) volta à cidadezinha onde havia sido ridicularizada, prometendo a si mesma vingança contra os moradores interesseiros e cruéis que a haviam humilhado, incluindo seu amor do passado, Danilo (Murilo Benício).

Mariana Ximenes em Chocolate com Pimenta (2003)
Variações com protagonistas masculinos jurando vingança também não faltaram. Em Fera Ferida (Rede Globo, 1993-1994), de Aguinaldo Silva, Feliciano Júnior (Edson Celulari) retorna à pequena Tubiacanga 15 anos após ter sido expulso da cidade com seus pais, que acabaram assassinados. Sob a identidade de Raimundo Flamel, Feliciano vai se vingar dos inescrupulosos e corruptos de Tubiacanga, responsáveis pela perda de sua família, quando ele ainda era um adolescente. 

Voltando ainda mais no tempo, é possível encontrar exemplos mais antigos na teledramaturgia brasileira, como Cavalo de Aço (Rede Globo, 1973), de Walter Negrão, e Os Inocentes (TV Tupi, 1974), de Ivani Ribeiro. Ambas apoiaram suas tramas centrais na mesma ideia de A Visita da Velha Senhora. (Para mais detalhes sobre as novelas mencionadas, acesse o site Teledramaturgia). 

Edson Celulari em Fera Ferida (1993) e Tarcísio Meira em Cavalo de Aço (1973)
É claro que a transposição da peça não ficou restrita à TV. Em 1964, a história já havia ganhado uma versão no cinema, intitulada A Visita (The Visit). Estrelado e coproduzido por Ingrid Bergman e Anthony Quinn, o filme (ótimo, por sinal) foi dirigido por Bernhard Wicki e teve o roteiro adaptado diretamente da peça. O nome de Clara, no entanto, foi alterado para Karla, e o de Alfred para Serge.


O texto dramático de Dürrenmatt, apesar de escrito na década de 1950, é aplicável a qualquer época. Talvez seja essa uma das razões pelas quais as telenovelas por ele inspiradas tenham agradado ao público em diferentes épocas e situações. Além de retratar uma tragédia do ressentimento, um notável estudo de psicologia social e uma sátira ao poder do dinheiro, A Visita da Velha Senhora ainda dissecou temas como a corrupção e o poder. Não foi à toa que a peça consagrou seu autor mundialmente. "Sua visão de mundo é pessimista, frustrante, mas sempre comprometida com uma crítica total ao nosso tempo", reconheceu o crítico e historiador do teatro norte-americano John Gassner, sobre Dürrenmatt.


Friedrich Dürrenmatt
O autor classificou sua obra como uma "comédia trágica", pois escolheu a ironia e o humor agressivo para mesclar tragédia e comédia em sua amarga visão de mundo. Ele ataca o dinheiro, os mecanismos de ascensão ao poder, o casamento e o mau uso da tecnologia. Trata-se de uma uma peça engraçada, mas o cômico de Dürrenmatt envolve um sentido trágico que o espectador vai descobrindo aos poucos. 

"Dürrenmatt não é um otimista em relação ao gênero humano e não tem nenhuma ilusão sobre o homem. Onde quer que viva, sob que bandeira se esconda, o homem sempre acaba sucumbindo: ao poder, ao dinheiro, às instituições. Uns esmagam, outros sao esmagados e a decantada liberdade, proposta em tantas revoluções, não existe. Para Dürrenmatt, a liberdade só pode ser encontrada na arte." (A Visita da Velha Senhora, Coleção Teatro Vivo, Abril Cultural, 1976)

Cinco filmes de Cher que marcaram os anos 1980



Cher é um ícone da música que dispensa apresentações. Desde os anos 1960, ela se destaca não apenas como cantora, mas também como apresentadora e atriz. Como bem diz a página dedicada a ela na Wikipédia, Cher é "reconhecida por ter ajudado a difundir os conceitos de autonomia feminina e autorreinvenção na indústria do entretenimento". Mais: "Famosa pela voz grave e por ter trabalhado em várias áreas da mídia, bem como por reinventar constantemente sua música e imagem. Tudo isso rendeu a ela o apelido de Deusa do Pop."

Meu primeiro contato com Cher foi por meio dos filmes, na década de 1980. Extremamente divertidos ou emocionantes, eram o entretenimento perfeito. Constantemente reprisados na TV ou com destaque nas videolocadoras, os filmes estrelados por ela não passavam batidos. Por isso a Cher atriz foi, para mim, mais representativa do que a Cher cantora. Durante minha infância, foi quando sua carreira no cinema deu um salto e viveu seu momento mais prolífico, entre 1983 e 1988. Drama, comédia, suspense, romance... Tinha Cher para todos os gostos. Sua filmografia é variada e cheia de produções elogiadas e premiadas, que marcaram aquela década. 


Listei aqui, por ordem cronológica, cinco desses filmes imperdíveis:


Silkwood - O Retrato de uma Coragem
(Silkwood, 1983)
Direção: Mike Nichols


Drama com roteiro de Nora Ephron e Alice Arlen, inspirado na vida da ativista sindical Karen Silkwood (interpretada por Meryl Streep), morta em um suspeito acidente de carro enquanto investigava irregularidades na fábrica de plutônio onde trabalhava. O elenco é um show à parte. Cher, que interpretou Dolly, amiga de Karen, levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme ainda teve várias indicações ao Oscar.


Marcas do Destino 
(Mask, 1985)
Direção: Peter Bogdanovich


O filme é baseado na história real de Rocky Dennis, um adolescente que nasceu com displasia craniodiafisária (doença óssea caracterizada pelo alargamento dos ossos craniofaciais), razão pela qual o jovem tem uma grave deformação no rosto e no crânio. Muitos acham que ele usa uma máscara, tamanha é sua deformidade. Cher vive a mãe de Rocky (Eric Stoltz), Florence "Rusty" Dennis, que está sempre com uma turma de motoqueiros amigáveis. Entre eles, seu namorado, interpretado por Sam Elliott. Rocky é um rapaz extremamente inteligente, bem-humorado e gentil. Mas, apesar de querido pela família pouco convencional, o rapaz é tratado com medo, pena, estranheza e deboche por quem não o conhece. Em 1985, no Festival de Cannes, o filme recebeu duas indicações. Cher venceu na categoria de Melhor Atriz. Em 1986, foi indicado nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Eric Stoltz) e Melhor Atriz (Cher) no Globo de Ouro. Ganhou o Oscar de Melhor Maquiagem.


As Bruxas de Eastwick
(The Witches of Eastwick, 1987)
Direção: George Miller


Comédia cheia de efeitos especiais, com roteiro baseado no livro homônimo de John Updike. Na pitoresca cidadezinha de Eastwick, em Rhode Island, três mulheres entediadas — Alexandra (Cher), Jane (Susan Sarandon) e Sukie (Michelle Pfeiffer) — reúnem-se todas as quintas-feiras para se divertir e bater papo sobre assuntos variados assunto. Mas o tema da conversa é quase sempre o mesmo: os homens e seus defeitos, e como seria, em tese, o homem ideal. Elas se envolvem com o misterioso ricaço Daryl Van Horne (Jack Nicholson), que cria uma verdadeira guerra dos sexos e coloca vida da pacata cidade (e principalmente das três amigas) de cabeça para baixo. O filme eve inúmeras indicações a vários prêmios, incluindo duas para o Oscar. 


Sob Suspeita
(Suspect, 1987)
Direção: Peter Yates


Suspense tenso também que funciona como drama de tribunal. Um juiz comete suicídio e, logo após, sua secretária é encontrada morta. Carl Wayne Anderson (Liam Neeson), um indigente surdo-mudo, é preso pelo assassinato da moça. A defensora pública Kathleen Riley (Cher) é designada pela corte para ser a advogada do indigente acusado. Ela tem dúvidas se ele é realmente o culpado, e decide achar o verdadeiro assassino. Com a ajuda de um assessor parlamentar (Dennis Quaid) que faz parte do júri, descobre um perigoso círculo de corrupção no Judiciário. 


Feitiço da Lua
(Moonstruck, 1987)
Direção: Norman Jewison


Nesta irresistível comédia romântica, Cher vive Loretta Castorini, uma jovem viúva, sem sonhos ou ilusões, que está noiva de Johnny Cammareri (Danny Aiello), um homem mais velho e sem grandes atrativos. Mas, ao conhecer seu futuro cunhado de temperamento forte, o padeiro Ronny Cammareri (Nicolas Cage), Loretta se apaixonada por ele. Os conflitos e alegrias da família ítalo-americana temperam essa inteligente comédia que recebeu várias indicações ao Oscar e foi uma das maiores bilheterias de 1988. Venceu nas categorias de Melhor Atriz (Cher), Melhor Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis) e Melhor Roteiro Original (John Patrick Shanley). Entre as outras premiações, Cher ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Sexta básica de (in)utilidades




(…) À custa de respirar uma atmosfera envenenada, acaba-se por julgá-la normal e sã. Percorrei nossas cidades, folheai as revistas, olhais os cartazes, detendo-vos no teatro, escutai as conversações das jovens; por tôda parte, encontrareis a glorificação dos encantos físicos da mulher: é a religião do corpo. E como publicistas, mundanos e criadores da moda se entendem às maravilhas para explorar os instintos, fàcilmente se chegou à conclusão do cuidado legítimo da beleza corporal com a faceirice perniciosa, e à justificação de ambos.

Nos anos 1950, a série de fascículos "Pensando em casar", traduzidos do francês, ensinava à juventude (em especial, às moças) o que fazer para ter um bom casamento

Consideremos com mais atenção. A feceirice é para vós, que sois jovens, uma tentação quotidiana, a que tanto menos podeis fugir quando existe uma tendência natural que a ela vos inclina. O homem procura, a mulher é procurada; ela o sabe e de bom grado abandona ao homem a fôrça, a fim de reservar para si a beleza. O homem se entusiasma com os jogadores de “box”, os lutadores, os atletas bem formados, com a fôrça corporal. Vós preferis estudar os figurinos, manter-vos ao corrente do último grito em matéria de vestidos e chepéus, conhecer o que ordenará a moda na próxima estação. Algumas sabem até quais os processos cosméticos pelos quais Jean Harlow, Myrna Loy ou qualquer outra celebridade mundana, conservam a beleza. (…) Quem vos observar diante das vitrines convence-se, se já o não estava, de que a “toilette” forma a trama geral de vossos pensamentos. (…)



(…) Em si mesma, não é má essa tendência, pois que Deus a colocou em vós; é suficiente e necessário contê-las nos justos limites.

(…) A beleza deve concorrer para facilitar a vossa vocação de noiva, espôsa e mãe; não vos foi concedida para fazer a roda como pavão ou para retalhar os jovens corações inexperientes. Se a beleza corporal acrescenta à juventude seu atrativo e frescura, pode também causar a degradação moral.

(…)

Dos doze aos vinte anos, a jovem orienta a sua vida sentimental para a verdadeira felicidade ou para as desordens. Ela possui em reserva os dons preciosos que preparam a espôsa e a mãe. Mas, se em vez de formar-se nas afeições sadias e no dom de si mesma, encerra-se no próprio egoísmo, semeia um futuro de desilusões, sofrimentos e lágrimas. (…)

(…)




Repito: uma jovem nunca deve permitir que se lhe ofusquem os encantos pessoais; deve conservá-los, desenvolvê-los como expressão de seu valor íntimo. (…) Ao contrário, censuro o relaxamento das “toilettes” e a negligência nas atitudes íntimas, o sórdido “negligé” após o matrimônio. Mas a plástica feminina, tanto quanto a masculina, deve ser relegada ao segundo plano, pois

A beleza se evola fugitiva
E intato permanece o coração.

Moderai portanto o desejo exagerado de agradar. Quanto ao gôsto de embelezar-vos, que Deus vos concedeu, dominai-o em vez de vos tornardes sua escrava. (…)

Bem tolo é aquele que pretende dirigir a vida a seu bel prazer. A riqueza da alma feminina sempre lhe será de maior valor que o invólucro da carne. Ora, não é amando-se a si mesmo que se adquirem o valor humano e as alegrias da alma, mas devotando-se, cumprindo o dever e dedicando-se sem conta para dar aos outros a felicidade. Só por êsse preço é que a vossa beleza corporal refletirá a riqueza e beleza de vossa alma.


Pensando em casar (Para a Juventude)
Vol. 11 – Tenho direito de agradar?
Gerard Petit, traduzido por Lydia Christina
Edições Paulinas, 1955

Quem matou Sheila?


Os filmes da Rede Manchete eram especiais. Não por serem grandes sucessos ou produções conhecidas. Pelo contrário. Vários deles eram pouco conhecidos ou obscuros, reprisados à exaustão pela emissora, que possuía um catálogo reduzido, mas repleto de raridades. Ano passado fiz um post ("Segredos femininos") sobre uma dessas raridades e agora resolvi fazer sobre outra. Trata-se de O Fim de Sheila (The Last of Sheila), filme de 1973 produzido e dirigido por Herbert Ross, cuja filmografia inclui vários sucessos como Visões de Sherlock Holmes (The Seven-Per-Cent Solution, 1976), Momento de Decisão (The Turning Point, 1977), A Garota do Adeus (The Goodbye Girl, 1977), California Suite (1978), Footloose - Ritmo Louco (Footloose, 1984) e Flores de Aço (Steel Magnolias, 1989) entre outros. O Fim de Sheila, no entanto, é uma pequena obra-prima que ficou (injustamente) esquecida. Gravei da TV, em 1994, quando a Manchete o reprisou pela enésima vez.


Se, à época de seu lançamento, a crítica e o público não deram muita bola para o filme, com o passar das décadas ele adquiriu — como acontece com frequência — um status cult. Mas, no Brasil, permanece obscuro. Nunca chegou a ser lançado em vídeo e nem em DVD aqui. Mas em 2004 ganhou uma edição da Warner, em DVD (já fora de catálogo), nos EUA. O elenco, a direção e o roteiro sofisticados não impediram o filme de cair precocemente no esquecimento. Para os amantes do gênero "quem matou?", a trama impecável oferece um complexo jogo, cheio de pistas, reviravoltas e dicas discretas, que fogem facilmente à percepção. Tanto que o ideal é ver O Fim de Sheila várias vezes, para captar e conferir as muitas sutilezas contidas nos diálogos, cenários e ações.

Sheila Green (Yvonne Romaine), uma colunista de fofocas de Hollywood, sai de uma festa, intempestivamente e a pé, altas horas da madrugada, após uma discussão com o marido Clinton (James Coburn). Acaba atropelada por um carro e morre. A pessoa que dirigia sai sem prestar socorro. Um ano depois, Clinton, que é um excêntrico produtor cinematográfico, convida seis amigos do casal (que estavam presentes na trágica noite) para uma gincana — uma espécie de reality show particular. A ideia de fazer um filme sobre a vida de Sheila é o chamariz para atrair os seis convidados. Desta forma, reúne o pequeno grupo em seu requintado iate (cujo nome também é Sheila), o ponto de partida do tal jogo que deve durar uma semana. Na verdade, Clinton sabe que uma daquelas seis pessoas é a assassina. Mais: ele sabe qual delas é a pessoa que matou sua esposa, mas arma o complexo jogo para sua diversão sádica, como forma de se vingar.



"A radiografia de seis fracassados"
Os convidados são Philip (James Mason), Alice (Raquel Welch), Lee (Joan Hackett), Anthony (Ian McShane), Christine (Dyan Cannon) e Tom (Richard Benjamin). Todos direta ou indiretamente ligados ao cinema: o roteirista frustrado e sua esposa milionária, o diretor antiquado, a mordaz agente de talentos, a bela e temperamental atriz e seu namorado fanfarrão. O grupo, inocentemente, acha que tudo não passa de mais uma divertida excentricidade de Clinton. Todos recebem um cartão com um "segredinho" de cada um deles, como ladrão (ou ladra), homossexual, ex-condenado(a), alcoólatra, molestador(a) de criancinhas, delator(a). Detalhe: os cartões com os segredos obscuros estão trocados e não com as pessoas às quais correspondem. Ninguém sabe dos segredos um do outro e nem quem está com qual cartão. O objetivo é tentar descobrir o segredo dos outros jogadores sem que eles descubram o seu. A cada noite há uma caça às pistas, arquitetada cuidadosa e teatralmente por Clinton. A cada etapa do jogo, no decorrer da semana, o iate será ancorado em um porto diferente da Riviera Francesa, que servirá de cenário para a prova do dia. A ideia é que os segredos sejam expostos no decorrer do jogo, dia após dia. No final, a pessoa que matou Sheila será exposta, seguindo as intrincadas regras do jogo, criadas exatamente para este fim.


O ritmo pode parecer lento, mas o suspense é crescente, embora discreto, e entremeado por diálogos cheios de perspicácia, acidez e uma dose de refinado humor negro. O filme tem também o mérito de ser o único escrito pelo ator Anthony Perkins (o Norman Bates de Psicose) e pelo renomado compositor Stephen Sondheim (considerado pelo jornal The New York Times como "o maior e talvez o mais conhecido artista do teatro musical americano").

A inspiração para o filme partiu de uma série de sofisticados jogos organizados por Perkins e Sondheim na vida real, em Manhattan, durante o final dos anos 1960 e o começo dos 1970. Os dois eram fascinados por jogos de charadas e detetives e costumavam promover esse tipo de gincana particular para os amigos. Entre esses amigos estava o diretor Herbert Ross, que os encorajou a escrever um roteiro baseado nesse tipo de jogo.

Anthony Perkins e Stephen Sondheim, roteiristas de O Fim de Sheila
Perkins e Sondheim receberam o Edgar Allan Poe Award de Melhor Roteiro Cinematográfico, em 1974. O Edgars, como é popularmente conhecido, é uma premiação concedida pela organização Mystery Writers of America (MWA) aos melhores autores e roteiristas de mistério e histórias policiais, nas áreas de literatura, cinema, série de TV e teatro.

Embora Stephen Sondheim já fosse um músico e compositor de prestígio, a trilha sonora do longa não foi arranjada por ele e sim Billy Goldenberg. O tema de encerramento, Friends, cantado pela então estreante Bette Midler, foi a primeira de suas canções a entrar em um filme. A faixa fazia parte de seu álbum de estreia, The Divine Miss M, lançado no ano anterior.


As filmagens foram prejudicadas por sucessivos conflitos (internos e externos) como atrasos, condições climáticas, enjoos, choque de personalidades e confinamento do elenco e produção no iate, além dos ataques de estrelismo de Raquel Welch, com direito, inclusive, a objetos cenográficos atirados no set. James Mason chegou a declarar, certa vez, que Welch era "a atriz mais egoísta, mal-educada e descortês com quem já tive o desprazer de trabalhar". Mexericos à parte, nada disso pode ser notado no resultado final do filme. O Fim de Sheila é, sem dúvida, imperdível para quem aprecia um mistério extremamente bem construído.

Raquel Welch e James Mason no set de O Fim de Sheila

O roteiro foi romanceado e transformado em livro, como estratégia para divulgação do filme

Novelas pouco memoráveis, trilhas internacionais marcantes - Parte 2


Para dar continuidade à postagem anterior, mais sete novelas pouco marcantes com trilhas internacionais que marcaram época:


1. O Grito (1975-76)



Era moda na década de 1970 que brasileiros adotassem nomes estrangeiros e gravassem em inglês. Essas canções tornavam-se muito populares no Brasil, mas grande parte delas, hoje em dia, não é muito conhecida. A romântica True Love — maior sucesso de Steve MacLean (nome artístico do cantor e empresário brasileiro Hélio Costa Manso) — abre esta trilha (que hoje soa extremamente envelhecida, apesar de conter canções bem populares na época). Sem dúvida a faixa mais famosa e ainda hoje muito lembrada deste LP é Fly, Robin, Fly, do grupo disco Silver Convention, que estourou nas pistas de dança européias pouco antes da disco music se tornar febre mundial. O grupo de irmãos Jackson Five marcou presença com Breezy, um rhythm and blues bem característico da primeira metade daquela década. A faixa foi extraída do álbum Moving Violation, o décimo primeiro do conjunto. Hey Girl (Tell Me), soul adocicado do norte-americano Bobby Wilson, encerra o lado A. Pouco conhecido, Wilson lançou, em 1975, o LP I'll Be Your Rainbow (de onde foi tirada Hey Girl), um álbum bem produzido, exemplo perfeito do soul que dominava aquele período. Um grande hit da trilha internacional de O Grito foi Island Girl, primeiro compacto do álbum Rock Of The Westies (1975), de Elton John. Outra faixa de R&B foi So In Love With You, do norte-americano Leroy Hutson. Ex-vocalista do grupo The Impressions, Hutson compôs, produziu e gravou seu primeiro álbum solo (Love Oh Love) em 1973, de onde foi tirada a faixa. 


2. Espelho Mágico (1977)



Na virada de 1977 para 1978, com a disco music disseminando-se rapidamente pelo mundo, não é surpresa que as faixas mais memoráveis desta trilha sejam exatamente as dançantes. Pelo menos duas delas, extremamente populares na época (e até hoje conhecidíssimas) entraram neste LP: Yes Sir, I Can Boogie, da dupla feminina Baccara; e Ma Baker, do grupo Boney M. Ambos chegaram ao topo das paradas com canções em inglês, mas Baccara era da Espanha e Boney M. da Alemanha. As duas faixas figuram, até hoje, em toda coletânea de disco music que se preze. Como não podia faltar aqui, Donna Summer, a "rainha das discotecas", marcou presença com I Remember Yesterday, faixa extraída do LP de mesmo nome e enorme sucesso. Roberta Kelly, outra cantora que fez nome com músicas de discoteca, comparece aqui com Trouble Maker, seu maior hit (embora os brasileiros se lembrem mais de Zodiac). Na cota de canções lentas ou românticas ainda famosas, um grande sucesso dos Bee Gees, Love So Right, segundo compacto do álbum Children of the World (1976), que recolocou o trio no topo das paradas mundiais e popularizou a febre das discotecas. O melancólico hit C'est La Vie, da banda britânica de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer, é, até hoje, um dos mais marcantes aqui no Brasil.


3. Champagne (1983-84)



Entre as canções românticas, You and I, dueto de Kenny Rogers e Barry Gibb, ficou bastante popular. "Essa música obteve mais sucesso no Brasil do que em qualquer outro país graças à novela, na qual é o tema do casal principal", explicam Guilherme Bryan e Vincent Villari no livro Teletema: a História da Música Popular Através da Teledramaturgia Brasileira - Vol.1 - 1964 a 1989 (Dash Editora, 2014). Is This the End?, do grupo New Edition, também foi muito executada na época e é até hoje muito lembrada com carinho. A faixa foi tirada do álbum de estreia do conjunto, Candy Girl. Just My Imagination, regravação bem-sucedida de Lillo Thomas, é outra que se tornou hit. Gravada originalmente pelo grupo The Temptations em 1971, a versão de Thomas foi lançada em seu álbum Let Me Be Yours (1983). O Air Supply, duo australiano responsável por vários hits açucarados na década de 1980, comparece aqui com um de seus grandes sucessos, a ultrarromântica Making Love Out of Nothing at All. Entre as faixas dançantes, três muito populares: All Night Long, de Lionel Richie; I Am What I Am, de Gloria Gaynor; e Heart And Soul, de Huey Lewis. Sunshine Reggae, da banda dinamarquesa Laid Back, também teve destaque. E, como não podia deixar de ser, a faixa que dá título à novela, Champagne, em gravação do espanhol Manolo Otero — hit obrigatório das churrascarias — encerra este LP. Originalmente gravada e lançada pelo italiano Peppino di Capri em 1973, a canção tornou-se muito popular na Alemanha, na Espanha e aqui no Brasil.


4. Hipertensão (1986-87)



Esta trilha internacional é cheia de hits emblemáticos dos anos 1980, quase todos ainda muito populares. Não foi à toa que se tornou o LP internacional de novela das 7 mais vendido. Os sucessos dominam o lado A: Human, da banda britânica de new wave/synthpop The Human League; Papa Don't Preach, de Madonna; Stuck With You, de Huey Lewis & The News; The Glory of Love, de Peter Cetera, o famigerado tema de Karate Kid 2 - A Hora da Verdade Continua; Don’t Forget Me (When I'm Gone), da banda canadense de rock Glass Tiger; e Shake You Down, de Gregory Abbott. Com o perdão do trocadilho, o lado B não fica atrás: Lady in Red, do britânico Chris De Burgh, foi a faixa que tornou o cantor conhecido mundialmente. Right Between The Eyes foi o maior hit do Wax, conjunto pop formado pelo norte-americano Andrew Gold e pelo britânico Graham Gouldman. O duo holandês MC Miker G & DJ Sven comparece com a irresistível Holiday Rap, com base no hit Holiday (1983), de Madonna. Os sucessos não param: Gone With The Winner, da banda Century; Emotion in Motion, de Ric Ocasek; e I'm the One Who Really Loves You, de  Austin Howard, produzida pelo famoso trio de compositores e produtores britânicos Stock-Aitken-Waterman, que transformavam em ouro tudo o que tocavam entre a segunda metade dos anos 1980 e o começo dos 1990. Este é um daqueles discos que não podem faltar em nenhuma festa "anos 80" digna de respeito.


5. Olho No Olho (1993-94)



Outra trilha bem ao gosto do público jovem. Teve muitos hits tocados incessantemente nas rádios e programas de TV. What's Up, da banda norte-americana de rock alternativo 4 Non Blondes, virou uma das músicas mais representativas dos anos 1990. Mas foi o único sucesso do grupo. Outro one-hit-wonder manjadíssimo foi Boom Shack-a-Lak, do cantor e DJ Apache Indian. E vamos para o terceiro one-hit-wonder desta trilha: Informer, do músico canadense Snow, também muito executada na época. How You Gonna See Me Now, sucesso de Alice Cooper que havia feito parte da trilha internacional de Pai Herói (1979) ganhou uma versão da banda brasileira Easy Rider, cujo vocalista era o ator, locutor e apresentador Dudu Graffite (apelido de Eduardo Schechtel). A versão cover teve destaque e repercussão. Mais um one-hit-wonder: Vas-Y Vas-Y, da francesa Isabelle Camille, muito tocado na novela e instantaneamente reconhecível. Step It Up, do grupo britânico Stereo MCs, foi outra faixa de bastante impacto na época. Também fez parte da trilha do filme Quanto Mais Idiota Melhor 2 (Wayne's World 2, 1993). A boy band britânica Take That marcou presença com A Million Love Songs, faixa extraída de seu álbum de estreia, Take That & Party (1992). Regret, do New Order, também foi muito tocada e entrou para o repertório de hits da banda. Como músicas italianas sempre encontraram um terreno fértil no Brasil — e nas trilhas de novelas brasileiras —, Cose Della Vita, do italiano Eros Ramazzotti, fez muito sucesso. Deborah Blando, que tinha acabado de explodir, compareceu com Merry-Go-Round, tirada de seu bem-sucedido álbum de estreia, A Different Story (1991).  


6. Pátria Minha (1994-95)



Entre os inúmeros covers de All By Myself (originalmente gravada pelo americano Eric Carmen em 1975), o de Sheryl Crow é um dos mais famosos. É a regravação de Crow que abre esta trilha, por sinal cheia de hits típicos da primeira metade da década de 1990. Entre as muito tocadas nas rádios e programas de TV estavam She's Beautiful, do Double You, grupo italiano de eurodance que fez sucesso cantando em inglês; I'll Make Love II You, grande sucesso do grupo norte-americano de R&B/soul Boyz II Men; Games People Play, da banda jamaicana de reggae Inner Circle; Breathe Again, de Toni Braxton; Return To Innocence, do Enigma; Everybody, do DJ Bobo (nome artístico do músico suíço Peter René Cipiriano Baumann); Mmm Mmm Mmm Mmm, do grupo de folk-rock canadense Crash Test Dummies; e Sweet Dreams, da banda alemã de eurodance La Bouche (obrigatória em todas as festinhas dos anos 1990). 


7. Suave Veneno (1999)



A trilha começa com o cover de Mariah Carey para Do You Know Where You're Going To (hit de Diana Ross, de 1975, tema do filme homônimo). A gravação original, de grande sucesso na década de 1970, já havia feito parte da trilha internacional da primeira de versão de Anjo Mau (1976). Outra faixa romântica de Suave Veneno internacional, To Love You More, de Celine Dion, também foi muito executada. Em 1997 a canção já havia ganhado uma versão em português (Te Amo Cada Vez Mais), muito popular, da dupla João Paulo & Daniel. A boy band 'N Sync comparece aqui com um cover de Sailing, sucesso de Christopher Cross, de 1980, que fizera parte da trilha internacional de Coração Alado. Outras baladas de destaque foram That I Would Be Good, de Alanis Morissette; e Big Big World, da sueca Emilia, um dos hits mais tocados de 1998. Everything I Do (I Do It For You), de Brandy, foi outro cover de sucesso (regravação do hit de Bryan Adams, de 1991, tema do filme Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões). Uma das faixas de maior sucesso da época (e desta trilha) foi, sem dúvida, a dançante Believe, de Cher, megahit vencedor do Grammy na categoria Best Dance Recording, em 2000. You Get What You Give, da banda norte-americana de rock alternativo New Radicals, fez sucesso no mundo todo e é considerada um dos maiores one-hit-wonders dos anos 1990. Mais um cover engrossa a lista desta trilha: As, de George Michael, com participação de Mary J. Blige. A gravação original, de Stevie Wonder, fez parte de seu lendário álbum de 1976, Songs in the Key of Life. Um cover desta mesma canção já havia feito parte da trilha internacional de O Pulo do Gato (1978), em versão do canadense Tony  Sherman. A norte-americana Lauryn Hill, conhecida como vocalista do grupo The Fugees, aparece com seu hit de estreia na carreira solo, Doo-Wop (That Thing).